Por que a lógica não vinga




Geraldo Hasse


Bom seria se houvesse apenas três modos de fazer as coisas: A - como mamãe queria, B - como papai mandou, e C - como a vida ensinou.

Mas a vida não é tão simples assim. Além das três alternativas acima, há outras duas: D - uma mistura incerta de A, B e C; e E - nenhuma das alternativas anteriores, o que complica tudo.

É por isso que muitas vezes se tem a impressão de que as coisas estão fora de ordem.

Por exemplo: o lucro da Vale do Rio Doce, 10,4 bilhões de reais, em 2005, nos remete a duas considerações. De acordo com a lógica do sistema capitalista, é um espetáculo que se equipara às façanhas financeiras dos bancos brasileiros e de diversas multinacionais tão ativas quanto lucrativas ao redor do mundo.

Em contrapartida, se levarmos a sério os sinais de que o planeta está batendo pino, é melhor colocar as barbas de molho e começar a achar resposta para o seguinte dilema: se as mega-empresas como a Vale não têm futuro, porque devastam e poluem, o que vamos colocar no seu lugar?

A resposta interessa particularmente ao Espírito Santo, que tem um crescente grau de dependência dessa empresa. Enquanto alguns a exaltam como exemplo de eficiência, outros a transformam em alvo de ataques e vinganças, bloqueando seus trens. Qual a lógica?

Agora outro exemplo capixaba. Pela lógica, foi absurda a destruição do viveiro da Aracruz nos arredores de Porto Alegre. Afinal, a empresa está no Rio Grande do Sul desde o final de 2002, quando comprou a fábrica de celulose e os plantios de eucalipto da Klabin.

Pela lógica, os ativistas da Via Campesina deviam ter atacado o viveiro da Aracruz no Espírito Santo, pois foi aqui que nasceu o eucalipto clonado, suspeito de ser uma espécie de pai do "deserto verde", metáfora-símbolo das monoculturas vegetais que ameaçam o equilíbrio dos ecossistemas.

A lógica não vinga porque, se a teve, o mundo dito civilizado a perdeu em algum momento da História. Em seu livro A Mosca Azul, comentado nas duas colunas anteriores, Frei Betto explora brilhantemente as contradições que colocaram a humanidade na atual encruzilhada. Mais do que qualquer outro pensador brasileiro, ele vai fundo na investigação do conflito a que estamos expostos e do qual são vítimas, como prisioneiros da pobreza, dois terços da população do planeta.

É impossível não concordar com sua conclusão: não há saída fora do humanismo, já que o capitalismo não proporciona benefícios senão para uma parcela da população. É uma pena que as empresas, os acionistas, os executivos e até os consumidores em geral estejam envolvidos nessa corrida cega por benesses que além de não alcançar mais do que um terço da humanidade põem em risco os ambientes naturais e a própria vida na Terra.

A realidade capixaba nos ajuda a pensar onde vão parar as coisas nesse mundo velho sem porteira e em processo de globalização acelerada. Tanto a Aracruz como a Vale começam a se tornar alvos de represálias de grupos sociais excluídos dos frutos do progresso. É o preço da eficiência, pode-se dizer, mas não cheguemos a tanto, sob o risco de parecermos cínicos ou hipócritas.

Pela lógica, não faz sentido atacar trens de carga ou destruir plantas, mas todos esses incidentes se inserem dentro de outra lógica -- aquela que põe em confronto a exacerbação dos lucros, por um lado, e a marginalização de amplas camadas da população, por outro.

A resultante desse confronto é a violência em curso e a insegurança que nos cerca.

ghasse@th.com.br