No princípio era o pai, e dizem que Papai foi a primeira palavra que o menino disse.
Vieram depois muitas palavras: de encantamento, de acolhimento, de surpresas, descobertas e também de dores. E de alegrias, claro, tantas alegrias. Ô coisa boa.
O Pai era amigo, nunca bateu. Chamava pra conversar, sem levantar a voz, e apenas comentava os aspectos da situação, das traquinagens, das artes, e perguntava o que é que as crianças achavam de andar fazendo aquelas coisas.
Pronto. Era pior do que levar uma surra.
O Pai se foi muito cedo, sem tempo para passar para o menino muitas habilidades que possuía. Ficou um buracão enorme, ainda em preenchimento, a construção de uma imagem de pai cheia de emendas e remendos, um pedaço do professor, do motorista, do amigo, do comerciante, do veterano jogador de futebol, do chefe, do patrão.
Um Pai modulado, que, no dizer do compositor Ivan Lins em relação ao coração recuperado da perda de um amor, "fica tão cicatrizado que ninguém diz que é colado", E essa imagem de pai construída pela necessidade funciona com alguma eficiência e dentro da lei. E tem tornado o menino capaz de também ser pai, principalmente de si mesmo, mas também de seus filhos.
De lembranças ficaram o carinho, a inteligência espantosa, a rapidez do raciocínio, o amor pelas palavras, pelas sonoridades, pelos livros, pela música, sua grande voz de barítono, o apego aos amigos. A solidariedade era grande marca sua.
Um dia o menino descobriu que o pai já tinha matado gente. Duas vezes, parece. Pagou caro. Coisa de gente criada dentro de um código de ética que não admitia desrespeito. Não era arrogante, nem prepotente. Era apenas um homem valente, conforme combinava com o perfil da época. Bater em gente indefesa não fazia sentido para ele.
Vitimado por graves problemas de saúde, esteve em coma por muitos dias. Voltou a si, por poucas horas, no dia do aniversário de 13 anos do menino. A Mãe informou-lhe a data. E perguntou: "Sabe o que é o dia de hoje?" Com o fio que lhe restava de voz, respondeu que era o dia do aniversário do menino, que já andava por lonjuras, em assuntos de escola.
Pronunciado o nome do filho, duas lágrimas lhe escorreram pelo rosto. E nunca mais disse palavra, até morrer, 15 dias depois.
A primeira palavra que o menino disse na vida foi Papai. A última palavra que o pai disse na vida foi o nome do menino.
E esse Amor é que mantém o menino vivo e tentando combater um bom combate, ainda hoje, mais de 40 anos depois.
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