O cinema já fez cem anos, e não me parece que a idade o tornou muito confiável. Esse ancião continua nos enganando. Minha maior decepção foi saber que nas cenas de movimento o cenário é que se movia, enquanto o mocinho galopando intrépido em seu cavalo estava parado. Isso foi num tempo em que eu acreditava piamente em tudo que via.
Hoje desconfio piamente de tudo que vejo, e não creio, fiquei mais esperta por isso. O repórter desbravando a natureza intocada, para mostrar nas telas a vida íntima dos macacos? O cientista no fundo do mar pesquisando o comportamento agressivo da arráia miúda? Tudo montagem dos estúdios, ali mesmo na reserva florestal da cidade.
No começo os filmes eram feitos dentro dos estúdios, fosse uma história passada na floresta Amazônica ou nas muralhas da China. As poucas excessões eram os faroestes, então os favoritos dos cinéfilos. Na movimentada highway que liga Los Angeles e Las Vegas, algumas poucas horas de carro, passamos pelo "isolado" e amedrontador cenário dos antigos faroestes.
Aquele deserto desolado que julgávamos ser o "fim do mundo" ficava bem ali, ao alcance das dolies, que são as câmeras sobre trilhos. Dentro dos imensos galpões dos estúdios tudo podia acontecer, e acontecia. Ali nasceram os grandes filmes da década de 40, que de acordo com os entendidos, nunca mais foram igualados.
O grande avanço foi quando Hollywood resolveu ser realista, passando a filmar seu faz-de-contas em locações reais. Ou quase. Hoje os filmes "de Hollywood" são feitos no Canadá ou em Hong Kong, por causa dos incentivos que esses países oferecem. Pagar uma filmagem diária numa rua de Nova York ou numa praia de Miami custa uma fortuna.
É que realismo, no reino da fantasia, não quer dizer realidade. Um filme passado em Londres vai ser filmado em Boston, uma história sobre a segunda guerra vai ser filmado no México. Uma cena que requer multidões é feita com espelhos. Imaginação é que não falta para os fabricantes das nossas ilusões.
Sem falar na alta tecnologia dos computadores, que virtualmente desmoronou nossa realidade. E a deles. Harrison Ford já está velho, mas nas telas continua bonitão, correndo atrás dos vilões e conquistando a mocinha. E no meio de tanta maquilagem virtual, ainda acha tempo de salvar o mundo.
Nós, cinéfilos viciados e assumidos, não nos preocupamos muito com esses detalhes insignificantes. Queremos apenas embarcar nessa viagem de duas horas para além da nossa enfadonha realidade, e a passagem no bonde da fantasia não custa muito. Só não pode faltar a pipoca.
|