Vitória (ES), edição de 30 de março de 2006    
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Ele nunca esquecerá
"O Plano Perfeito" é o passo adiante na investida de Spike Lee sobre a América pós-11 de setembro



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


De cara cheia na tela, o ladrão Dalton Russell se apresenta ao espectador olhando diretamente para a câmera. Diz quase jornalisticamente "o que", "onde", "quando", "como" e "por que" arquitetou e executou o roubo mirabolante que acompanharemos pelo resto da projeção. Através deste artifício, na primeira cena já somos informados de praticamente tudo o que se precisa saber num típico filme de assalto - e na superfície este parece não passar de mais um produto deste sub-gênero tão massacrado pelas repetições do uso de sua fórmula. O desgaste é tanto que virou quase uma obrigação que todo filme dessa natureza traga um "algo mais", qualquer coisa diferente que livre-o da gaveta do esquecimento imediato (aquilo que diferencia os já clássicos homens e segredos de Steven Soderbergh dos fiascos de "O Assalto" e "Uma Saída de Mestre", para ficar nos exemplos recentes). Pois o algo mais de "O Plano Perfeito", em cartaz no Estado desde a última sexta-feira, é Spike Lee.

O diretor americano tem quase duas dezenas de longas-metragem na carreira, e aqui aparece pisando num terreno totalmente novo. É seu primeiro filme de um gênero que não seja o que ele mesmo criou, a comédia dramática (ou vice-versa) nova-iorquina de conteúdo histórico-social e racial - um rótulo pobre que diz muito menos do que simplesmente "a Spike Lee joint", o modo como assina seus trabalhos, um projeto/viagem que só ele sabe fazer. Mais ainda, para um cineasta sempre à margem dos esquemas de distribuição e exibição, este é um filme nascido para os cinemas de shopping de todo o globo, um projeto de grande estúdio hollywoodiano, recheado de estrelas, produzido por Brian Grazer (responsável por "O Grinch", "X-Men", entre outros). Lee sabe o peso de todos esses elementos, e sabe como eles, em certo sentido, se chocam com aquilo que construíra nos anos anteriores como uma forma original de pensar o mundo em que vive através do cinema. Mas não trapaceia, nem simplesmente renega seu próprio trabalho, pelo contrário. Aquilo que o ladrão-chefe diz logo no começo será mostrado com riqueza de detalhes, o artesanato da estrutura de um filme de assalto será perfeitamente construído, o dinheiro do produtor será bem empregado nas gruas e efeitos especiais, cada estrela terá sua cota mínima de closes e falas importantes. Tão honesto quanto seu protagonista, Spike Lee deixa claro desde o começo as regras desse jogo que não é seu. O que fará nas duas horas que sucedem a primeira cena é justamente contaminar este modelo externo com aquilo que ainda o move intimamente a seguir fazendo filmes.

E a resposta sobre o que seria este "aquilo" começa um pouco mais atrás, em 2002, com a obra-prima chamada "A Última Noite". Tudo estava preparado para iniciar a produção do longa quando o 11 de setembro aconteceu. O filme de Spike Lee foi o primeiro a ser rodado em Nova York depois do ataque às Torres Gêmeas, e aquilo que acabara de acontecer à cidade e ao país, numa época em que a ferida ainda estava aberta, era tão desconhecido e tão delicado que a resposta artística aos atentados ficava sempre entre a grande hesitação ou a disposição de categoricamente ignorar a mudança. Lee decidiu incorporar a tragédia da cidade à tragédia pessoal de seu protagonista, não por oportunismo ou apenas por uma grande sacada dramática. Algo de muito maior ruíra junto com as torres, e a imaterialidade desse sentimento se chocava com a realidade do Ground Zero sendo escavado, dos sacos pretos enfileirados na rua, das bandeiras americanas espalhadas por todos os lados, das duas guerras que viriam em resposta aos ataques, do governo que conduziu o país a elas. Assumir este novo clima era menos uma questão de opção narrativa: era uma obrigação, um daqueles chamamentos que a História faz àqueles que se dedicam a contá-la e dos quais não se escapa ileso. Colar o destino de um traficante de drogas que vive as últimas horas de liberdade antes de encarar uma sentença de 7 anos ao destino de um país que acabava de se perceber num cárcere. Spike Lee assume em "A Última Noite" a responsabilidade de lidar com esta nova nação, cujas idiossincrasias estavam tão bem escondidas que só puderem ser realmente percebidas depois de um impacto dessa magnitude. Não é mais possível ser o mesmo de antes, e este mandamento vale também para o diretor.

Em seu filme seguinte, uma comédia amalucada sobre um executivo demitido que passa a ganhar a vida engravidando lésbicas por dinheiro ("Elas Me Odeiam, Mas Me Querem", lançado diretamente em dvd no Brasil), Lee parece não conseguir se ater unicamente ao coeficiente humorístico de seu roteiro. Soa quase como um apêndice deslocado, mas está lá uma sub-trama que coloca o tal executivo dentro de um esquema de colarinho branco que quebra uma empresa farmacêutica ao mesmo tempo que enriquece seus donos - uma citação direta dos casos Enron, WorldCom e as dúzias de outros crimes corporativos que abalaram a confiabilidade do sonho americano. Em "O Plano Perfeito" esta passagem da narrativa de gênero padrão para o comentário histórico aparece muito melhor estruturada. E o que a torna tão incisiva é que deixa de ser apenas um comentário - já está tudo tão claro, tão intrinsecamente ligado às bases da sociedade americana que falar dela é falar inevitavelmente de seus traumas recentes. É como se o único cinema possível hoje nos Estados Unidos fosse o político.

  
Foto: Divulgação
  
Spike Lee (no centro) dá instruções a Clive Owen e Denzel Washington em "O Plano Perfeito"
Já não há mais estrangeiros na Nova York de cinco anos depois dos atentados, porque todos o são. O cuidado de incluir em "O Plano Perfeito" cada um dos grupos étnicos e sociais mais presentes na cidade passa longe da politicagem correta. Essa diversidade é hoje algo tão nova-iorquino quanto a Estátua da Liberdade, está na base de própria sua própria reconstrução enquanto símbolo. E se esse caráter múltiplo da população é um fato, ele parece ter sido potencializado pela tragédia, que atingiu a todos indiscriminadamente, e que fez com que comunidades antes isoladas se unissem para botar a cidade de volta nos eixos. Esse contato, é claro, provoca muitas faíscas, e elas estão espalhadas por todo o filme. Todos são suspeitos até que se prove o contrário, e na tentativa desesperada de descobrir os criminosos que conseguiram escapar da prisão no fim do assalto, o detetive Keith Frazier (Denzel Washington) apela para todo o tipo de preconceito. Mesmo ao interrogar um refém negro como ele, parte do princípio que é muito provável que tenha culpa no cartório. Assim faz com os latinos, com os judeus, com as mulheres, com asiáticos e muçulmanos. Junto com a diversidade veio a paranóia absoluta, o clima de "todos por Nova York" nasce junto com o clima de "cada um por si". Mas esta convivência das diferenças é inegável, e mesmo num filme que pede agilidade e nega qualquer devaneio, Spike Lee toma um longo tempo simplesmente mostrando cada um dos reféns do assalto. São outras marcas, são outras expressões, e perceber a mudança nestes rostos é um compromisso de qualquer um que ainda queira entender e atuar neste mundo transformado.

Os bandidos, por outro lado, fazem bom uso daquilo que os comandantes-chefes da nação (e todos seus subalternos, da secretária de Estado ao guarda de trânsito) insistem em promover. Sua grande sacada é vestir do mesmo modo reféns e assaltantes, de maneira que seja impossível distinguir quem são os culpados e quem são os inocentes. Com um uniforme azul e uma máscara branca, o paquistanês se confunde com a senhora do bairro nobre, o ladrão-chefe com o office-boy coreano. O efeito não é uma integração social e racial, mas a supressão radical das diferenças. Quando este mesmo refém paquistanês for libertado com uma mensagem para os negociadores, tão logo sua máscara e seu uniforme sejam retirados e sua longa barba e turbante estiverem à mostra, serão ouvidos alguns gritos de "árabe!", "bomba!", e o rapaz será derrubado no chão e espancado pelos policiais. Se o plano se mostrará realmente perfeito, e se Dalton Russell (Clive Owen) prova-se realmente tão esperto quanto diz ser lá naquela primeira cena, é porque soube usar contra aquela estrutura de poder (Wall Street, a polícia, o governo) aquilo que ela insiste em negar. Os reflexos do 11 de setembro foram maiores do que as mortes e as guerras conseqüentes. "We Will Never Forget", é o que dizem os vários outdoors espalhados pela cidade e que "O Plano Perfeito" faz questão de incluir em suas imagens. É impossível esquecer os atentados, e é mais que urgente aprender a lidar com aquilo que eles provocaram. Spike Lee dá sua contribuição, mostra a falência da política de uniformização cega e aponta um outro caminho. Com este terceiro filme depois da queda das torres prova que ele, definitivamente, nunca esquecerá.

E-mails para o colunista: rod_ol@yahoo.com.br


 

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