Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Perseguido e tolhido em sua liberdade, ele
denuncia a ONG Espírito Santo em Ação:

'As grandes empresas querem
dominar o Espírito Santo'





Cristina Moura


"A grandeza de um homem depende da intensidade de suas relações com Deus."
(Saint-Exupéry)

Emil Schubert, sua esposa, Arlete, mais os filhos do casal, Fernando e Thiago, formam uma "quadrilha". Apesar de angustiado com o cerceamento a que a Justiça lhe o forçou, o pastor Schubert consegue ser espirituoso e otimista, diante de um assunto para ele tão espinhoso. Não somente para ele, mas para todos os que apoiam a causa indígena. Ou seja, que estão posicionados em favor dos índios das tribos Tupinikim e Guarani, na região de Aracruz.

A "quadrilha" é o sutil trocadilho que o pastor faz, nesta entrevista, quando diz que ele e mais três, portanto quatro membros da sua família, estão todos envolvidos na luta, que tem como ponto de combate algo que Schubert não mensura, mas arrisca que tem à frente a força da empresa Aracruz Celulose. Por decisão judicial, o pastor luterano não pode entrar nas terras indígenas, alvos de conflito com a empresa. Caso ele desobedeça a decisão, terá que desembolsar R$ 100 mil.

O pastor é um crítico veemente das empresas que interferem na vida política do Estado financiando campanhas eleitorais. Ele se refere, evidentemente, às grandes empresas, como Aracruz Celulose, Vale do Rio Doce e Companhia Siderúrgia de Tubarão (CST). E vê na criação da ONG Espírito Santo uma espécie de biombo para que essas empresas poluidoras atuem de forma organizada na área política. Suas palavras: "A Espírito Santo em Ação reúne todas as grandes empresas e o objetivo principal deles é defender os interesses das empresas e, certamente, essas empresas se cotizam, para que não uma apenas, mas que todas tenham um valor condizente para que essas pessoas que eles querem eleger sejam eleitas. Então, a Aracruz Celulose, quando aparece com R$ 100 mil na campanha do Paulo Hartung... certamente, jogou um pouco para a Visel, a "polícia" da empresa, a segurança... deve ter jogado para lá alguns mil e aparece uns tantos outros aí... É um grupo que se formou no Espírito Santo e que domina, no momento... que quer dominar o futuro e todas as manifestações, inclusive não só políticas, mas na área ambiental."

Como entrevistado deste final de semana, Emil Schubert avalia a situação dos índios, lutando contra um bloco que tem a empresa como porta-voz e o apoio dos governantes. O pastor, nascido em Santa Catarina, faz na entrevista uma exposição da sua adesão aos movimentos populares. Adesão que ocorre, efetivamente, desde 1974, quando ele começou a militar junto os fiéis da Igreja Luterana, em Santa Maria de Jetibá. Ao explicar que sua luta não é de hoje, o pastor reconhece que não vai se calar porque não pode se calar: o argumento está no Evangelho. Mas um pouco pode ser captado nestas próximas linhas.

Século Diário: - Como o senhor avalia atual situação da luta pelas terras indígenas?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Pastor Schubert: - A luta dos indígenas no Espírito Santo, e também, naturalmente, em outros estados, é um exemplo para muitas lutas que estão acontecendo e que, nos últimos anos, até houve um retrocesso, houve uma parada. A luta daqui, do Espírito Santo, é uma luta especial porque já vem de muitos anos e está agora chegando aos "finalmente", porque há uma promessa, tanto do ministro da Justiça quanto do presidente da República, uma promessa pessoal de que essa terra, que ainda falta demarcar, uma terra já constatada como terra indígena, que esta terra vai ser demarcada. E vai ser demarcada, segundo eles, até o final deste ano.

- Essa promessa havia sido feita antes das eleições do primeiro turno...

- Essa promessa foi feita quando Lula esteve aqui inaugurando em Viana uma estação de energia e, depois, no aeroporto, onde se encontrou com lideranças indígenas, e, depois, quando, a pedido de Lula, veio o ministro da Justiça para o Espírito Santo, e aqui reafirmou. Ele veio junto com o presidente da Funai e reafirmou esse compromisso que tem o governo atual de demarcar essa terra este ano, 2006.

- O senhor está otimista em relação a isso?

- Eu estou otimista. Em primeiro lugar, por causa da longa luta que os índios têm, sempre tiveram, têm continuadamente lutado por sua terra, para que tenham o espaço necessário para sobreviver, para a sua cultura... Até para reflorestar! Porque aqui no Estado está tudo ocupado por eucalipto. Todos aqueles hectares foram ocupados por eucalipto, as aldeias estão cercadas por eucaliptos. Eu tenho certeza que essa terra vai ser demarcada porque eu acredito na luta do povo indígena junto com os apoios que estão nessa luta também. E o presidente Lula, que eu acredito, tenha falado sério. E no ministro.

- O senhor ainda está proibido, por força da Justiça, de andar pelas terras indígenas na região do município de Aracruz...

- Proibido sim, por causa do apoio que a gente vem dando à luta indígena, principalmente na época da ocupação da Aracruz Celulose, pelos índios... Nós não entramos na fábrica, mas, fora, na rua, demos apoio a essa manifestação. A partir disso, houve um apelo da Aracruz Celulose, como ela tem feito constantemente, à Justiça, e a Justiça, mais do que depressa, fez um interdito proibitório, não só a mim, mas a mais pessoas dos apoios. Proibiu qualquer presença, tanto na terra como... enfim, você praticamente está excluído, está fora, porque a Aracruz Celulose se considera dona de toda a região! Então, você está completamente excluído. Inclusive, se eu ando na rua, há pessoas que me interpelam porque estou lá, como tem acontecido quando veio a TV da Alemanha e eu estava acompanhando o pessoal para traduzir e fui interpelado por um funcionário da Aracruz, disse o que eu estava fazendo lá e que eles também queriam ter espaço para se manifestar. Quando, de fato, já tinham espaço para se manifestar um dia inteiro, o dia anterior, à nossa ida lá para Aracruz.

- O senhor se sente tolhido, então...

- Eu sou pastor da Igreja luterana e a Igreja luterana festejou ontem (dia 31) o dia da Reforma. Desde a Reforma, que foi quando Lutero colocou na parede da igreja 95 teses, nas quais defendeu uma posição em relação aos temas religiosos da época, mas mostrando, assim, que o que nos move, o Evangelho, não pode ser cooptado. O Evangelho não se deixa dominar, nem por indústrias enormes, capital, pelo governo e por qualquer outra coisa. Nós temos o direito de nos manifestar livremente, e é isso que estou fazendo. Tenho a liberdade, como cidadão, brasileiro, cidadão capixaba... Eu recebi o título de "Cidadão Capixaba"... Eu tenho o direito de me manifestar a favor dessa cultura indígena e dos povos indígenas, das suas qualidades de vida, apesar de todos esses movimentos que acham... inclusive da Justiça, que dizem que eu ajo por motivação política, meramente política. Eu me considero livre para me manifestar, apesar de tudo isso.

- Para o senhor, o que a Justiça disse sobre "motivação política"?

- Que a minha motivação seria uma motivação dos movimentos de esquerda... Eu, aliás, já fui acusado toda vida, de que sou comunista. Isso desde a ditadura militar. Eu comecei em 1974, em Santa Maria de Jetibá, no meu trabalho. Desde aquela época, eu fui visitado pela Polícia Federal, constantemente, porque eu dizia que todas as pessoas têm o direito de viver dignamente. Todas as pessoas têm o direito à vida. E uma vida com condições de se desenvolver como pessoas humanas. Então, por isso, eu fui chamado pela Polícia Federal, nunca fui preso, mas duas vezes eu tive que "comparecer", em Vitória. Eu fui ameaçado, no sentido de "nunca mais" falar sobre isto, que isso não seria tema da igreja, que a igreja deveria se manter na "sacristia". E, por isso, eu, desde aquela época, estou "acostumado" a sofrer essas constantes... não são diretamente ameaças, mas são tentativas de me calar. E eu não quero me calar porque eu não posso me calar. O Evangelho me anima a falar sobre aquilo que eu creio e que eu acho que são os direitos das populações aqui no Espírito Santo, os índios, os quilombolas... A gente está também participando dessa luta dos quilombolas, e eu não quero me calar por causa disso. Eu não sou um político, no sentido de participar de partido político. Eu participei, há muitos anos atrás, quando o MDB foi formado. Aí eu participei de um curto período no MDB. Não sou filiado político, mas eu tenho as minhas concepções de que a igreja tem uma função política, sim, não no sentido de apoiar "este" ou "aquele" partido, mas no sentido de lutar com os partidos para que a vida no Brasil seja mais justa, tenha mais possibilidade de se desenvolver. Todo mundo.

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
- Então está descartada essa possibilidade de algum dia o senhor se candidatar a algum cargo eletivo...

- Olha, duas vezes fui eleito como presidente da Ceasa (Centrais de Abastecimento), época em que houve eleições para presidência da Ceasa. Fui eleito duas vezes... Sem dúvida, eu teria condições para me eleger para outros cargos na época, mas não é esse o meu caminho. O caminho para o qual fui chamado e para o qual fui ordenado na igreja é o caminho de Jesus, o caminho do Evangelho.

- Existem alguns deputados evangélicos, estaduais e federais... "Bancadas evangélicas"...

- Olha, à "bancada evangélica" sou muito crítico porque não existe "bancada evangélica"... Existem partidos no Brasil, não existem bancadas católicas e evangélicas, não sei o quê e não sei o quê. Existem partidos, nesses partidos existem programas, e cada candidato, independente da sua filiação a uma igreja, deve entrar nesses partidos e lutar dentro desses partidos para que eles sejam os mais comprometidos com as almejadas mudanças. Uma bancada evangélica que não tem compromisso, a não ser com sua própria igreja, é uma bancada fajuta, que não tem nenhum futuro nesse país. É uma coisa ultrapassada antes de começar.