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Foto: Divulgação
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Onde fica o Acre? A pergunta não é preconceituosa, jamais! É só um jeito de tentar reavivar na memória o que conhecemos deste Estado, tão distante do Espírito Santo. Calma! A diretora e produtora carioca Nicole Alfranti certamente me interromperia - e me interrompeu! - nesse momento. "Você está enganado! O Acre é muito mais perto do que você pensa", afirmou.
Para o índio Benjamin André Sherê Katukina, 33 anos, pertencente à tribo Katukina (520 membros), região norte do Acre, perto do município de Cruzeiro do Sul, o Acre fica exatamente a 14 horas do Rio de Janeiro. De avião, logicamente.
Sherê, como prefere ser chamado, vem ao Espírito Santo pela primeira vez. E não chega por essas terras para se encontrar com outros índios do Estado ("eu não conheço nada deles", afirmou), mas sim para participar e apresentar o vídeo
Noke Haweti, produção que ele dirigiu e que conta um pouco mais da história da sua tribo, selecionado para o Vitória Cine Vídeo.
Em difícil entrevista ao
Século Diário por conta de problemas com o seu telefone celular, Sherê falou sobre o seu povo e sobre a experiência de gravar um filme. A entrevista foi realizada numa manhã de quinta-feira, enquanto Sherê se dirigia ao aeroporto da cidade de Rio Branco, onde estava preste a ir ao Rio de Janeiro, última parada antes de chegar a Vitória.
"Com esse vídeo, eu quero é registrar a cultura, pensar num material didático para os nossos meninos na tribo e também mostrar isso aos alunos não-indígenas e outros povos", já começou dizendo quando apresentei o motivo da entrevista.
Falante e muito feliz, por sinal, Sherê comentoua que no momento, a maior preocupação da sua tribo é a rodovia BR-364 que corta as proximidades da aldeia, devastando trechos enormes da Floresta Amazônica.
"Nós precisamos manter nossa cultura viva. As pessoas têm que nos conhecer, conhecer nossa medicina e todas as coisas boas que temos aqui", revelou seus desejos em seguida. E é sobre esse ponto, o da cura, que trata o vídeo
Noke Haweti.
A história começou assim: A diretora carioca Nicole Alfranti sempre foi envolvida com questões indígenas. Nos anos 90, chegou a morar durante anos no Acre, realizando trabalhos de capacitação audiovisual com índios de diversas tribos. Isso resultou em diversos projetos sociais.
Um deles foi voltado à tribo Katukina. "Não é uma das tribos mais conhecidas da região de lá, por isso mesmo eu quis me aproximar deles, descobrir o que eles tinham a dizer", conta Nicole. "Sempre trabalhei com cinema antropológico e étnico. Quis passar isso aos índios, por isso, deixei quase toda parte de direção e produção nas mãos deles", diz a produtora.
Com a ajuda de Luis Carlos Saldanha, Nicole voltou ao norte do Acre novamente e passou a oferecer oficinas de vídeo para os índios. Nas aulas, Sherê era um dos mais animados. Com naturalidade, assumiu a direção do vídeo e outros 20 índios da sua tribo tomaram conta da realização da produção.
Todos os passos da gravação foram decididos de forma democrática entre os índios. O resultado disso é um lado sensível na história sobre o Sapo Kanbo, parte mais forte da tradição dos índios Katukina. "Do sapo Kanbo se extrai um veneno que é aplicado na pessoa para que ela fique com uma saúde maravilhosa e para que tenha sorte na vida", comenta Nicole, que já usou o veneno em ritual na própria tribo Katukina.
O vídeo apresenta o modo de vida dos Katukina, o ritual com o sapo Kanbo, bem como os relacionamentos que acontecem entre os membros da tribo. A gravação das imagens durou 20 dias e o vídeo foi finalizado em aproximadamente cinco meses. "Foi maravilhoso. Chegamos na aldeia e eles construíram de surpresa uma aldeia cenográfica apresentando como era a tribo há 100 anos!", emociona-se Nicole.
O processo de edição e finalização foi realizado no Rio de Janeiro, na produtora de Nicole, mas com a participação atenta de Sherê. Seria difícil realizar essas fases no Acre, já que a produção de audiovisual está apenas começando. "Não me recordo se já finalizaram algum filme em película. Está tudo no início e por isso mesmo recebemos apoio de todo mundo", comenta a produtora.
Se foi difícil isso tudo? Sherê acredita que não. "Foi muito divertido e prazeroso. Quando se fala da própria cultura, tudo é mais fácil e mais feliz", finaliza.
Serviço
Noke Haweti, de Benjamin André Sherê Katukina, será exibido nesta sexta-feira (17), ao meio-dia, no Cine Metrópolis, Ufes.
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