Vitória (ES), edição de 14 de julho de 2006    
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O Sol, o Sol, a Terra, o Sol...

Da Redação




  
Foto: Ricardo Medeiros
  

Na quarta (25) de tardinha o artista plástico Nelson Felix ainda estava inquieto com sua exposição Camiri, que será aberta nesta quinta-feira (26) no Museu Vale do Rio Doce, em Vila Velha. Andava pra lá e pra cá, o celular tocando de dois em dois minutos: era uma tal de Aline. O texto de apresentação, aqueles grandes gravados nas paredes das exposições, era a pedra do seu sapato, ainda não estava pronto. O repórter quase fica na mão.

Camiri são esculturas de ferro e mármore que compõem uma única obra com mais de 30 toneladas que estavam tomando o espaço do museu e, por vezes, violando seus limites. Nelson Felix, neste novo trabalho, traz de volta a questão da eclíptica, o alinhamento do eixo do Sol em relação à Terra, que se dá numa angulação de 23º, simbolizando o ponto perfeito, o lugar ideal.

"Sabe quando os poetas dizem que vão fazer um canto 'Ah, eu vou fazer um canto pra Lua, um canto pro Sol'? Então: essa obra é um canto para uma imperfeição que existe na Terra, mas que gera belezas", interpreta Nelson sua própria obra. A Terra não gira perpendicularmente ao redor do astro-rei, mas, como já dito acima, numa angulação de 23º. Bem... mas que belezas? "As geleiras, as estações do ano, ocorrem em razão dessa imperfeição", completa Felix.

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Camiri, entretanto, é bem mais do que uma grande obra "alinhada à perfeição": é o resultado concreto, material, das esculturas com uma ação simbólica do escultor, que partiu do museu em busca do ponto perfeito, a 23 graus, e chegou a Camiri, na Bolívia, de onde fez uma foto olhando para o local da exposição; de volta ao museu, fez outra, olhando para Camiri. Nelson afirma que este deslocamento, que leva a obra para fora, para além das limitações físicas do espaço, é a grande força da mostra.

Mas não foi fácil parar o homem. De início, ele pediu: "Espera dois minutinhos. Tô resolvendo a questão do texto, que tem que ir lá pro Rio [de Janeiro]". Mas concordou em posar pelo menos para as fotos. Em certos momentos, até orientou o fotógrafo: ficou deslumbrado com a imagem de uma pessoa sobre um anel de 2,30m de diâmetro, lixando-o. "Tira essa foto! Tá uma imagem bonita!". "Depois você me envia por e-mail?", pediu.

A obra que dá nome à exposição é composta de 40 vigas de ferro e três peças de mármore de Carrara: dois cubos vazados, esculpidos pelo artista em seu ateliê, e o anel com 2,30m de diâmetro, feito a partir de um único bloco de mármore, em Verona. Nas esculturas Nelson utiliza o mármore inteiro, sem emendas, e dele retira o que não quer.

As vigas irão cortar o espaço do museu: nas duas primeiras salas, estarão em paralelas, parede a parede; na última, terão uma inclinação de 23 graus, e em diagonal irão se sucedendo até o final. Dois cubos de mármore vazados estarão suspensos e apoiados nas vigas da primeira sala; na outra, um mar de vigas e o anel de mármore. As esculturas produzirão ranhuras nas paredes, no espaço físico do museu, forçando a situação, mostrando uma certa premência. Além dessa obra, que ocupará todo o galpão de exposições, uma série de 22 desenhos (esferográfica, prata e lacre sobre gravura em metal) feitos sobre o projeto, será exibida no segundo andar da sede administrativa do museu.

Camiri dá seqüência a trabalhos iniciados em 1988, como (Museu de Arte de São Paulo), onde uma das peças está alinhada pelo "eixo do sol", ficando "torta" no espaço; e a Série Árabe (2001) - Cavalariças do Parque Lage, que se refere a uma outra torção no espaço, onde as esculturas, deslocadas em 23 graus, o ignoravam, não mais cabiam nele, furando paredes ou torcendo a si mesmas.

Finalmente Nelson senta e pára. A tal da Aline liga de novo. Atende. Mas a inquietude do artista plástico frustrou a conversa com o repórter: "Cara, pega o release e senta o pau!". "Mas eu tenho que ter umas 'aspas' sua. Sabe como é o jornalismo..." Virando-se para uma moça perto dele: "Vai lá dentro e pega um livro pra ele." Ao repóter: "No livro tem um monte de 'aspas' minhas. Pode pegar o que você quiser". O livro é Nelson Felix - Camiri, de Ronaldo Brito, uma edição caprichada sobre a exposição, que será lançado na abertura da mostra.

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
O artista

Sua última exposição foi Trilogias (2005, Paço Imperial, Rio de Janeiro e Museu de Arte de São Paulo), considerada pela crítica como uma das dez melhores do ano, documentada no livro Trilogias - conversas entre Nelson Felix e Glória Ferreira editado pela Pinakotheke. A Série Árabe - Cavalariças, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, em 2001; e Grafite, escultura apresentada em exposição no Museu de Arte de São Paulo, 1998, são marcos na carreira do artista, assim como Grande Budha (1985/2000) - árvore e garras de latão no Acre, Mesa (1997/1999) - extensa chapa de ferro e 22 árvores, em Uruguaiana, e os dois trabalhos do Vazio Coração, que imprimiram fortes tendências simbólicas à arte contemporânea.

Nelson Felix, carioca, formou-se em arquitetura em 1977 e iniciou estudos com Lygia Pape e Ivan Serpa no início da década de 70. Sua primeira exposição ocorreu na galeria Jean Boghici em 1980, no Rio de Janeiro. O artista foi residente da Curtin University, em Perth, e na Karratha College, em Karratha, na Austrália. A Cosac & Naif publicou em 1998 o livro Nelson Felix, com texto de Rodrigo Naves.

Serviço
A exposição Camiri, de Nelson Felix, ficará de 26 de outubro a 11 de fevereiro de 2007 no Museu Vale do Rio Doce, Antiga Estação Pedro Nolasco, s/n, Argolas, Vila Velha. Horários: de terça a domingo, das 10h às 18h. Às sextas, das 12h às 20h. Entrada franca. Informações: 55 27 3333-2484


 

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