Vitória (ES), edição de 13 de novembro de 2006    
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Sarau de literatura erótica



Da Redação


O sarau é um espaço aberto. Livre. Onde os convidados e demais participantes apresentam textos e congregam a paixão pela poesia. Em Poesia & Prazer, que ocorre nesta quinta-feira (9), na Livraria Huapaya, em Jardim da Penha, Vitória, o foco são os escritos eróticos e pornográficos, poesia e prosa, aliadas na leitura do prazer, do tesão, do coito, do desejo.

Além de poemas, o público contará com projeção de vídeos, pocket shows musicais, além de performances e intervenções de artistas convidados.

Entre os convidados estão intelectuais, profissionais das artes cênicas e da música, poetas e artistas plásticos. Nomes confirmados: Anne Ventura, Amelie, Daniel Bosi, Danielle Leonel, Douglas Salomão, Ítalo Campos, Luis Eustáquio, Fabricio Noronha, Milson Henriques, Reginaldo Secundo, Rosi Andrade, Caê Guimarães, Erly Vieira Jr. O microfone também é aberto a quem desejar participar.

O Sol na Garganta do Futuro, grupo que há 5 mistura música, texto e um pouco de farinha de trigo, apresenta show especial no evento. "Serão mostrados poemas inéditos, além de re-leituras de autores consagrados, como Carlos Drummond" - afirma o gritarrista Hugo.

Quem também vai misturar música e poesia no evento é Dori Santanna, professor de música da FAMES, o violinista fará a mistura ao som de cantigas populares. Outra apresentação é o instrumental "1 + 1 = 1", dos músicos Francisco Augusto (sax) e Gabriel Moreira (violão).

Serão apresentados uma seleção de curtas e imagens - não necessariamente eróticas - diálogos com o corpo, o espaço e as cores. Entre eles estão raridades como uma série de 37 pequenos filmes do importante grupo Fluxus - vídeos de George Maciunas, John Cale, Yoko Ono, entre outros.

Além dos trabalhos internacionais do Fluxus, diversos trabalhos de vídeo-arte brasileiros também serão exibidos. Espaço também para vídeos de animação. A celebre animação paulista Deu no Jornal, de Yanko del Pino, é a grande estrela da noite.

A programação termina com a exibição de cenas do filme 9 Canções, do inglês Michael Winterbottom.

Estará exposto durante o evento uma série de desenhos do goiano Pitágoras. O artista participou recentemente da polêmica e censurada exposição Erotica - Os Sentidos da Arte, que contou com gravuras, pinturas, esculturas, fotos, vídeo, instalação e objetos arqueológicos, apresenta obras de artistas consagrados como Pablo Picasso, Auguste Rodin, Tunga, Lygia Pape e Rosângela Rennó.

O professor César Huapaya, performer, encenador, Doutor em Estética e Etnocenologia, coordenará um grupo de artistas da performance trabalhando a temática do evento. As apresentações acontecerão a qualquer momento durante o evento.

Texto do curador Haony Huapaya

POESIA E PRAZER

O erotismo enquanto modalidade do discurso literário, por mais desprezado e combatido que se apresente, se faz permanente na história da literatura. Também no pensamento, vários intelectuais se dispuseram a sistematizar reflexões sobre o erótico na poesia. O escritor mexicano Octávio Paz (1914-1998) já disse que "a relação entre o erotismo e a poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal".

Essa presença marcante não é diferente na produção da lírica brasileira. De Gregório de Matos seiscentista ao contemporâneo Glauco Mattoso, sobram-nos exemplos da habilidade de autores brasileiros que caminharam pelo erótico. A atitude, quase sempre de transgressão, é produto elaborado de determinada visão de mundo do seu tempo; marca, portanto, o olhar do poeta sobre sua sociedade e costumes. Dessa forma, uma apresentação de composições que tenham como força vital de construção o erótico é, na verdade, um registro das variáveis do pensamento e suas representações. O crítico Roland Barthes (1915-1980) observa que "a linguagem é uma pele", o contato do poeta com o mundo é a sua linguagem. Então, o texto erótico é resultado da combinação ser e mundo, é direito do sujeito lírico de afirmar seus desejos e amores e é possibilidade de registrar, "como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras" (BARTHES), as experiências com o mundo.

Paulo Leminski e seu exercício da linguagem, Ana Cristina César e a delicadeza de disfarces, Glauco Mattoso e seu fetiche, Hilda Hilst e a pulsão corporal, João Cabral e a sobriedade no trato amoroso, Adélia Prado e a mística religiosa, Carlos Drummond e seu refinamento poético, Oswald de Andrade e sua irreverência apresentam ricos exemplos, no século 20, de experiências diferentes no trato do erotismo.

Ler essa diversidade e tratá-la sem a hipocrisia do moralismo que torna obscuro o fazer literário que fuja ao comportado são tarefas de todo leitor crítico. E principalmente é experiência que atiça e enriquece o mundo da poesia e do prazer.

Raoni Huapaya - é professor de Literatura Brasileira.

Saiba mais!

Clique aqui e acesse o site da Livraria Huapaya


 

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