E agora presidente?




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Assim como em 2002, agora a sociedade brasileira conferiu, mais uma vez, inequívoca maioria e grande capital político ao presidente Lula: 60,8% dos votos, com uma diferença superior a 20 milhões de votos em relação a Geraldo Alckmin.

Mais ainda, Pesquisa do Instituto Vox Populi, realizada entre os dias 23 e 24 de outubro, às vésperas do segundo turno, mostrou que nada menos do que 85% dos brasileiros "vão torcer para o segundo governo dar certo" (CARTACAPITAL, 01/11/06).

De que vitória político-eleitoral estamos falando? Quais são os desafios do presidente Lula para o segundo mandato?

Com argúcia e informações vindas de pesquisas qualitativas e quantitativas, Marcos Coimbra enfatiza que, dentre as muitas razões que explicam a vitória de Lula, uma seria fundamental e é muito singela: "Lula ganhou porque, para a maioria da população, não estava na hora de mandá-lo de volta para casa, com apenas quatro anos de mandato". Ou seja, não conceder a Lula a "outra" metade do mandato seria como um golpe para o povo. "Fazê-lo seria como admitir que não existe alternância possível no Brasil, não a mera alternância política, mas a alternância de classe", a noção de que um presidente pode vir do povo (CARTACAPITAL, p. 27).

Esta é, digamos, uma razão profunda de voto. Que vai implicar no estímulo à alternância de poder e, mais do que isto, à renovação e circulação das elites. Alternância e renovação de elites são, como todos sabem, ingredientes fundamentais para a consolidação de qualquer democracia.

Além destas "razões profundas" de votos, advindas da força simbólica da liderança popular do presidente Lula, é claro que temos razões mais palpáveis para explicar a vitória. A principal delas sendo a de que o eleitor votou com o bolso, isto é, votou na continuidade do projeto econômico-social do governo Lula. Tanto as classes médias, quanto as classes "D" e "E"...

Assim, a sociedade decidiu que as (graves) questões éticas têm que ser tratadas, apuradas e concluídas pelos órgãos de investigação e pela Justiça brasileira, para além das eleições.

Com estas eleições, as bases sociais do presidente Lula ampliam-se e incorporam agora novos protagonistas, além das classes médias.

Embora a maioria dos analistas ainda teime em se referir aos chamados "grotões" como símbolos e sinônimos de "voto de cabresto", no velho estilo do coronelismo, estes votos do interior do Brasil, principalmente do norte e do nordeste (mas não apenas), significam, vale notar e repisar, uma espécie de "revolução molecular" que está em curso.

Pequenos agricultores, pequenos comerciantes locais, e novos cidadãos participantes de novas iniciativas de programas sociais do governo (Bolsa Família e outros). Tudo isto forma uma força transformadora que repele o paternalismo, multiplica articulações autônomas, constrói novos protagonistas. E acaba tirando a mediação tradicional dos políticos locais na busca do voto de cabresto. Não é à toa que o PFL encolheu no Nordeste e no Norte do país.

De tabela, tudo isto abala a crença sobre a importância dos "formadores de opinião" e da suposta transmissão de informações e de valores do centro para a periferia, do urbano para o rural, das classes médias para as "classes menos favorecidas". Como enfatizou o antropólogo Otávio Velho: "o que houve foi uma inversão de mão e uma extensão, por meio de mecanismos moleculares que pouco conhecemos, daquele que já havia sido, no primeiro turno, o voto preferencial da chamada periferia. Foi ela que mostrou, assim, sua capacidade de influência e indicou a possibilidade de reduzir os riscos da polarização Norte-Sul vaticinada por alguns" (Folha de S. Paulo, 31/10/06).

É esta base social mais ampla - sintonizada não apenas com o carisma e o peso simbólico do presidente Lula, mas também com seus programas de governo - que confere a possibilidade de ascensão do fenômeno político do "Lulismo", ou do "Lulopetismo", como na expressão cunhada pelo sociólogo Chico de Oliveira.

Neste contexto, o PT ainda cresce e se fortalece eleitoralmente, mas torna-se politicamente menor do que o "Lulismo"...Passa a ser um núcleo em torno do presidente, no contexto de uma coalizão politicamente dominante que vai incorporar o PSB, o PCdoB, o PP, o novo PL, o novo PTB e, principalmente, o PMDB.

Ao lado da costura desta coalizão, com papel crucial para o PMDB, o presidente Lula também deve costurar apoios dos 17 governadores que estiveram com ele, formando uma coalizão em sentido horizontal (com os partidos) e em sentido vertical (com os atores políticos regionais, isto é, os governadores) .

Caminha-se, então, para um tipo de arranjo político engenhoso e completamente sintonizado com as características e peculiaridades do sistema político brasileiro, que combina ainda muita fragmentação partidária com forte poder do regionalismo e do federalismo.

Neste quadro de "hegemonia compartilhada", o presidente Lula terá que ter, também, forte diálogo com dois protagonistas importantes da cena política brasileira, vale dizer, os governadores Aécio Neves, de Minas Gerais, e José Serra, de São Paulo, que articulam forte base parlamentar no Congresso Nacional.

Com a tecitura desta rede de articulação política e de governabilidade, o presidente poderá enfrentar os grandes desafios que estão colocados e que requerem uma Agenda de Estado pactuada de forma contínua e permanente.

Principalmente, o desafio da mudança de patamar da taxa de crescimento; da possibilidade de implantar o chamado "déficit nominal zero"; da continuidade da melhoria dos índices de desigualdade, e da absoluta prioridade à educação e à inovação.

Para renovar as esperanças.