Compra pra me ajudar





Tavares Dias


Três da tarde. A Praça Oito fervilha.

É o funcionário público de uma das muitas repartições existentes na área. É a estudante que retorna do Arquivo Público, na Cidade Alta. É o grupo de turistas que desceu a Escadaria Maria Ortiz e agora se dirige para o Porto de Vitória.

Também tem o homem que procura chapéus na Flor de Maio. Tem os clientes do grande número de agências bancárias, onde enormes filas serpenteiam até os caixas.

Sem contar os fregueses do comércio varejista que vão e vêm ao longo da Avenida Jerônimo Monteiro, entre a Praça Oito e Praça Costa Pereira.

E os camelôs que lotam calçadas e ruelas, apregoando a grande novidade chinesa, o novo utensílio de cozinha, o brinquedo que encanta os olhos dos meninos e meninas que passam levados pelas mãos dos pais.

E os marinheiros? Desembarcam de navio de guerra brasileiro atracado ao cais em frente ao Palácio Anchieta e lotam a área, aos magotes, com suas fardas brancas e sua urgência de amor comprado.

Mas naquela tarde tem também o velho socialista, com sua formação humanista, seu deslustrado sonho de um mundo de irmãos. E uma criança que oferece vales-transportes.

-Tio, compra pra me ajudar?

Já viu muitas vezes a cena. É a vida dando polimento ao futuro maior abandonado. O menino insiste, a súplica nos olhos é de cortar o coração.

-Compra, tio. Dois por um e cinqüenta.

O coração do velho socialista não agüenta. Afinal, tem uma história de luta, de coerência de pensamento. Já foi contra dar esmola, é contra a exploração do trabalho infantil, mas ultimamente anda pensando que é melhor ser assistencialista do que deixar morrer de fome.

-Tá bom, filho. Dá dois aí.

Enquanto abre a carteira, o velho socialista segue pensando, amargurado, no enorme contingente de crianças vivendo em situação de risco neste Brasil que já conhece sua segunda geração de moradores de rua.

O susto é enorme. Mal pode ver os olhos súplices se transformando em olhar de gavião, de águia, de rapinante.

O bote é certeiro. Com insuspeitado vigor, o menino já dispara com a carteira do velho socialista na mão.

Chispa na direção da Escadaria Maria Ortiz, da Cidade Alta, quem sabe o Morro do Moscoso, ou o da Fonte Grande, depois o Forte, o Romão, o Cruzeiro.

Tem asas nas perninhas finas e miúdas, nos pezinhos sujos e descalços.

Lá vai, rumo ao Mercado da Vila Rubim, onde trabalha, o velho socialista, filho desamparado da mesma terra madrasta que não reconhece o menino que vende vales-transportes.
A amargura, agora, divide espaço, em seu coração, com um desconfortável sentimento de inutilidade.