"A conquista de si próprio é a maior das vitórias."
(Platão)
Um enigma, um mito, um mistério? Os conceitos se perdem quando aplicados à jornalista Maura Fraga, que detesta formalidades. No início da conversa, ela logo avisa: "Sou uma pessoa simples". No seu apartamento, na Praia do Canto, cercada de documentos sobre a sua história, recebeu a equipe de Século Diário, na última quinta-feira (16), e fez questão de dizer que se sentia "em casa", em se tratando do jornal.
É que Século Diário foi um dos veículos que saíram em defesa da liberdade de expressão da jornalista, que esteve em prisão domiciliar devido a um processo movido pelo ex-governador Max Mauro. À época, Maura era colunista de #A Gazeta". Esta história mereceu um livro, que está sendo preparado, ainda sem previsão de lançamento. Também rendeu o apoio de vários órgãos e veículos à jornalista, perseguida jurídica e politicamente.
Mas este é apenas um dos livros. Maura Fraga prepara mais dois. Um deles sobre a sua vida profissional, principalmente nos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O outro será dedicado ao campo da ficção, por onde também trafega a jornalista e escritora. Serão, portanto, três livros que estão prestes a entrar no prelo, cada um com sua dinâmica e, podemos afirmar, com um público já à espera. Nesta entrevista, Maura conta alguns episódios que estarão nas obras.
Século Diário: - Quem é a jornalista Maura Fraga?
| |
Foto de: Ricardo Medeiros
|
|
|
|
Maura Fraga: - Bom, sou uma pessoa comum, de hábitos incomuns, que gosta de ler, escrever, e que gosta de ser jornalista. Eu sempre digo às pessoas que dizem "eu estou jornalista" o contrário: eu sou jornalista! Eu não consigo tirar essa veste de jornalista, nunca tirei. Tenho 38 anos de profissão e nunca parei de trabalhar. Então, eu sou, essencialmente, jornalista. Vinte e quatro horas por dia, não é o meu emprego... É a minha vida. E, agora, para mostrar essa paixão que tenho pelo jornalismo, eu resolvi escrever. Nunca escrevi livros porque eu sempre achei que poderia incorrer numa pretensão muito grande. Eu acho que ninguém deve se arriscar de estar escrevendo livros por escrever. É se arriscar, não é? Você escreve uma bobagem aí, uma banalidade, e fica por isso mesmo. Talvez por ser tão rigorosa comigo, eu tenha demorado tanto: trinta e oito anos. Nesse período, todos os colegas que conheço escreveram muito... (risos), mas eu me detive, parei um pouco outro dia e falei: "Bom, eu vou elaborar um trabalho. Três livros. Um só não cabem as coisas que quero contar. Então, fiz o seguinte: estou preparando um sobre história, quer dizer, as coisas que vi como jornalista no Espírito Santo e em outras regiões, outros estados onde vivi. Outro é sobre o processo que sofri, uma punição por ter exercido a minha profissão. Foi uma coisa dolorosa, mas também, ao mesmo tempo, uma coisa muito enriquecedora, porque se desdobrou muito, durou um ano e meio, e nesse período eu pude conhecer a imprensa capixaba, pude conhecer o apoio internacional, eu pude me conhecer, pude até perceber o valor que eu tinha para as outras pessoas. Foi tão bom ver jovens me defendendo, pessoas adultas, pessoas de outras regiões, de outros veículos... Então eu decidi: "Isso eu vou contar, de uma maneira séria, e em separado..." Para que os jornalistas mais novos vejam a que ponto somos sujeitos a ataques e como podemos nos defender. O terceiro livro é ficção. Eu gosto de escrever contos, já ganhei concurso de contos, já escrevi peça de teatro, já ganhei primeiro lugar no Festival de Teatro do Espírito Santo com a peça chamada "Os Homens Verdes" (1969) e eu tinha como parceiro Amylton de Almeida. Como Amylton se constituiu logo uma pessoa muito famosa, ficou como se a coisa fosse dele, mas a peça era minha e ele colaborava. Mas fiquei como co-autora, sendo que o co-autor era ele... (risos). A peça foi presa, ganhou primeiro lugar no Festival de Teatro do Estado do Espírito Santo, que trouxe julgadores de fora, mas não pôde ser encenada porque foi época de ditadura e a censura não permitiu. Aliás, outro episódio que vivi com essa coisa de censura foi que ganhei um festival de música, o primeiro Festival Universitário de Música Capixaba. Eu fiz uma música, com parceria de uma amiga chamada Marilda e um rapaz chamado Ariosvaldo, que foi preso no Congresso da UNE, o último que a UNE fez no País. Aí fizemos uma música de protesto, ganhamos o terceiro lugar no festival universitário e, no dia seguinte, a música foi proibida. Foi proibida junto com a música de Vandré. Foi muita coincidência porque naquele dia "eles" estavam apertando mesmo. Então, foi proibida a nossa música. Não pudemos tocar. Quem fez o arranjo foi Maurício de Oliveira. Todas as minhas músicas Maurício fez arranjo...
- Este episódio vai estar no primeiro livro...
- Vou contar, sim, como jornalista. Aí é que está: a nossa atividade jornalística era muito ligada à atividade cultural. A gente trabalhava e fazia música, participava de festivais, peças, shows... Eu era cantora... Era tudo. (risos)
- Uma militante na área cultural.
- É que a gente aproveitava todos os escapes, tudo o que existia, todas as alternativas, para protestar, para contestar a ditadura. Era a nossa forma. Como fazer isso? Criando. E acabava que éramos "punidos" também.
- E depois da ditadura? Como ficou a jornalista?
- Continuei sendo jornalista levando a profissão a sério. Mas, como você sabe, as coisas erradas permanecem. Então, se elas permanecem e se somos observadores, participamos. Uma coisa que vou pedir autorização ao Clóvis Rossi para colocar a epígrafe do meu livro: "Ser tudo e continuar sendo, testemunha ocular da história do meu tempo, tem vantagens e desvantagens." Então, sou testemunha ocular do meu tempo.
- O que o leitor poderá encontrar como "vantagem e desvantagem"?
- Eu diria o seguinte: foi encontrar situações e pessoas extraordinárias, ter podido, não sei qual é a pretensão, ter feito alguma coisa pela sociedade. Sem cobrar nada, certo? Sem ser ressarcida por isso. É obrigação da gente. O jornalista tem um compromisso com a sociedade sim, com a transformação da sociedade. Não me identifiquei especificamente com algum setor, mas sei que estive voltada para a política. Engraçado, minha primeira matéria foi sobre política: entrevistei um candidato. Chamava-se Carlito Von Schilgen, se dizia candidato a governador, era parente do Carlos Lindemberg. Foi minha primeira matéria sobre política. Eu era muito novinha... Tinha começado a minha carreira n'O Diário. Eu fui levada para O Diário por Paulo Torre e Rubinho Gomes. Eu os conheci numa festa da Fafi, a Faculdade de Filosofia da Ufes, que tinha uns bailes aos sábados. E eu conheci os dois "meninos". Eles gostaram de mim porque eu era muito inteligente. Eu sempre fui muito inteligente. Ninguém diz isso, mas eu fui a primeira repórter daqui, do Espírito Santo. Nasci em Vitória, comecei em 1968, antes do AI-5. Quando foi editado me atingiu. Fui a primeira menina a trabalhar em redação. Cheguei lá, havia os meninos. Aquela garotada... Meninos de catorze, dezesseis anos de idade... Eu cheguei, eles bateram palmas... (risos) E o diretor era Monjardim Cavalcante, que pediu para eles não xingarem. Eu era uma menina, não é? Dias depois, disseram: "Nossa... Essa menina está xingando mais que todos os meninos juntos..." (risos). E eu fiquei lá, isso foi em 1968. O Diário era uma escolinha. Nós tivemos Cláudio Bueno Rocha, Rogério Medeiros, Vinícius Paulo de Seixas... Eram grandes profissionais. Marien Calixte... Eram pessoas que nos conduziam. Na redação, uma imensidão de jovens. Depois, vieram as moças também: a Bete Feliz... O Diário, a gente chamava de "escolinha". D'O Diário, eu andei trabalhando pela Tribuna. Fui várias vezes d'A Tribuna.
- Sempre em política.
| |
Foto de: Ricardo Medeiros
|
|
|
|
- Sempre em política. N'A Tribuna, fiz política. N'O Diário, fiz polícia também, não como repórter, mas como redatora. Eu adorava. Fiz Dona Margot, que "recebia" as cartas... Dona Margot eram aquelas cartas que as pessoas escreviam... Nós mesmos criamos, depois todo mundo escrevia (risos). O Diário era uma escola: a gente ganhava ou não ganhava salário. Então, aprendemos muito. Caser foi diretor de lá, hoje da Tribuna. Miriam Leitão foi de lá... J Casado... Os jornalistas grandes, que hoje estão por aí, quase todos foram de O Diário. Depois de lá, fui para O Globo. Na década de setenta, mais ou menos. Naquela época, a ditadura estava apertando muito, mas muito mesmo. E o Globo estava cheio de "comunistas". Todas as pessoas que sofriam perseguição no País corriam para o Rio de Janeiro e eram empregadas por Roberto Marinho. Porque Roberto Marinho era um homem inteligente. Ele empregava os comunistas porque para ele era muito bom ter aquela gente ali. Então, eu trabalhava numa redação onde tinha Nelson Rodrigues... Não "comunista". Estou falando dos talentos. João Saldanha... Aguinaldo Silva, que era meu "copydesk". Ele corrigia minhas matérias e me elogiava muito sempre. Tinha Merval Pereira Filho... Paulo Coelho, que era muito meu amigo, depois virou "mago"... Leda Nagle... Bom, era uma redação de gente muito inteligente. Tim Lopes era um dos meus melhores amigos. A gente saía para Ipanema, ele ia lá em casa, colhíamos notícia... Então, era uma redação muito boa e ali eu aprendi muito. Fiquei muito tempo n'O Globo. Agora, eu saí porque quis, certo? Um belo dia, me deu saudade de Vitória, eu voltei. Fiz lá umas matérias que eu acho importante e eu quero resgatar. Por exemplo: fiz uma matéria sobre a volta de Caetano Veloso ao Brasil. A primeira entrevista quem fez fui eu. Eu e Caetano nos encontramos. Ele tinha vindo do exílio. Naquela época, ele e Gil estavam em Londres. Nós nos olhávamos, um para a cara do outro... (risos) Eu olhava para ele e ele para mim. Os dois tímidos (risos). Ele também estava! (risos)... Eu fiz a matéria sobre ele, falando de uma onda de nostalgia que estava imperando no País. E Tárik de Sousa, que era crítico de música do Jornal do Brasil, fez uma crítica acho que sobre "Araçá Azul", disco que Caetano estava lançando. Eu achava muito interessante trabalhar em O Globo porque o doutor Roberto Marinho deixava que nós almoçássemos no mesmo restaurante que ele... (risos). Então, era assim: ficávamos, na hora do almoço, aquele bando de gente desordeira, e ele ficava num canto, com um grupo de amigos, Hermenegildo de Sá Cavalcante, que gostava muito de Proust... O restaurante era relativamente pequeno. O filho dele trabalhava na redação com a gente, o Roberto. Era diagramador. Então, O Globo foi um lugar que gostei. Lembro da última entrevista, com Pixinguinha. Eu fui na casa dele. Fomos fazer uma matéria de bairro. Dessas matérias corriqueiras de bairro... E fomos na casa do Seu Pinxinguinha. Ele morava em Inhaúma, num conjunto residencial. Chegamos lá, ele tocou "Carinhoso"...