"Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece."
( Aldous Huxley)
O currículo profissional de Rubens Gomes, ou simplesmente Rubinho Gomes, como é mais conhecido, é recheado de várias experiências inusitadas. Atualmente, Rubinho é um dos editores do jornal "A Gazeta", mas já passou por "A Tribuna" e pelo exinto (e lendário) "O Diário", famoso por abrigar uma verdadeira "escolinha" de jornalismo do Espírito Santo.
Antes de saber que, de uma forma ou de outra, enveredaria pelos caminhos jornalísticos, em diferentes funções, de substituto de contínuo a superientendente, Rubinho Gomes foi jogador de futebol de salão, especialmente do Fluminensinho, de Vitória. Foi nessa mesma época de paixão e ação no futebol que o garoto começou a entender o que seria militância política, direita e esquerda, ditadura: assistiu à prisão e à liberdade do pai, Rubens José Vervloet Gomes.
Ao ser libertado pelos militares, Rubens, um dos herdeiros do Hotel Majestic, que havia sido construído em 1926, transformou o prédio, no Centro da Capital, no Colégio Brasileiro, em 1966. Em 2006, Rubinho Gomes e seus irmãos transformaram o prédio em Centro Cultural Majestic, ainda passando por um processo de reforma na sua estrutura física. O primeiro projeto em andamento do Centro Cultual é o História Viva, cujo objetivo é resgatar a memória afetiva da cidade de Vitória.
Nesta entrevista, Rubinho Gomes resgata a sua própria memória, conta os principais momentos da sua trajetória no jornalismo, sem deixar de passar pelos momentos pitorescos, cômicos e até perigosos. Confira.
Século Diário: - São quarenta anos de Jornalismo. Como foi que o jornalismo começou mesmo na sua vida?
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Foto de: Ricardo Medeiros
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Rubens Gomes: - Na verdade, eu vinha de uma militância política, vinha do movimento estudantil... Ao mesmo tempo, eu jogava no Fluminensinho. Eu jogava futebol de salão no Fluminensinho, no Clube da Rua Sete, onde a gente morava. Meu pai foi uma das principais vítimas do regime militar. Em 1964, ele ficou preso, junto com aqueles quarenta que ficaram presos no Corpo de Bombeiros, no dia do golpe. Ele foi um dos líderes da resistência. No dia primeiro de abril de 1964, botou o alto-falante em cima da kombi dele, foi para a rua, em frente à escadaria do palácio, com Hermógenes Fonseca, Manoel Santana, do Sindicato dos Estivadores... Eu acompanhava isso muito e acompanhava a trajetória política de papai, desde 1958, quando eu tinha sete anos de idade. Primeiro, eu acompanhei a trajetória dele no Santo Antônio Futebol Clube, que foi tricampeão - 53, 54, 55... Aí, em 1956, ele começou a construir o estádio. Em 1958, foi inaugurado o estádio Rubens Gomes, com o nome dele, em Santa Inês, na Glória, em Vila Velha. Logo em 1958, ele foi candidato a prefeito de Vitória pelo PTB, apoiado pelos comunistas... Então, eu ouvia toda aquela história. Minha família tinha uma ligação com a família do doutor Carlos Lindemberg, que era o governador. Embora de partido diferente do de papai, em função de Raul de Oliveira Neves, pai de Toninho Neves e Ademar Neves, um dos principais ideólogos comunistas no Estado.
- Estava nos bastidores da militância...
- Sim, da militância política. Quando houve o golpe, eu tinha treze anos e acabava de, em fevereiro, ter sido hóspede do Jango. Maria Teresa... A família do Jango veio para a Praia da Costa passar o réveillon e ficou todo o verão. E nós, vizinhos da casa, da residência oficial da Praia da Costa, onde Maria Tereza ficou com João Vicente e Denise, os filhos do casal. Fomos para lá para brincar com os brinquedos de João Vicente, na verdade... (risos). Aqueles brinquedinhos eletrônicos... Tomar Pepsi Cola... (risos) Maria Teresa convidou alguns meninos: eu, os dois filhos do Celso Bonfim, que é irmão daquele Orlando Bonfim Neto, desaparecido político do jornal "Novos Rumos"... Os sobrinhos do Orlando, quer dizer, os filhos de Celso Bonfim, que também residia na Praia da Costa. E um outro menino, que era vizinho deles na Praia da Costa. Então, fomos quatro convidados. Passamos o mês de fevereiro de 1964 como hóspedes presidenciais. Entre o palácio do Catete, no Rio, nas Laranjeiras, e a Granja do Torto, em Brasília, o cineminha no palácio do Alvorada... Há um episódio, assim: Jango dirigindo um carro pelas ruas de Brasília com os meninos, para a gente ir ao cinema. Havia caído um temporal enorme, ele entrou numa poça d'água, o carro virou três vezes... Rodou, não capotou. Enfim, foram emoções fortes que eu vinha trazendo, vinha acumulando. Bom, houve o golpe. O golpe foi, realmente, muito traumático para mim, para minha família, mas, ao mesmo tempo, já gerou uma militância. Eu fiz aí o primeiro jornal, chamado "Vanguarda Estudantil".
- Um alternativo.
- Era alternativo. Botava lá protestos contra os militares, piadinhas com os militares, notícias e tal. Era um jornal mimeografado, "Vanguarda Estudantil", que já puxava o movimento pela Uese (União Espírito-santense de Estudantes). Quando foi fechada, fundamos a Uese Livre e, em seguida, fundamos a Umes (União Municipal dos Estudantes Secundaristas). Fui o primeiro presidente da Umes. A Uese funcionava onde atualmente é um prédio abandonado na Rua do Vintém. Foi até cenário do filme "Caput", do Paulo Torre.
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Foto de: Ricardo Medeiros
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Um curta-metragem feito na época. Funcionava o CEU (Centro dos Estudantes Universitários), a UEE (União Estadual dos Estudantes), antecessora do DCE (Diretório Central dos Estudantes) e a Uese, dos secundaristas, que ficava no térreo. Então, as três entidades tinham o prédio que funcionava legalizado. Quando o regime foi fechando, 1966, 67... Fecharam as entidades, aí fizemos a Uese Livre e um congresso clandestino lá no estádio Rubens Gomes, que estava abandonado na época. Consegui, armamos uma estrutura incrível. Veio Ronald Mansur, que era delegado de Cachoeiro... Antônio Claudino de Jesus, de Colatina... Cipriano... Paralelamente, eu jogava futebol de salão no Fluminensinho. Comecei, então, a ser convidado para escrever sobre esporte amador em "O Diário". Fiz meus primeiros artigos na seção Esportes, assinados Rubens Manoel Gomes. Eu era muito amigo do Paulo Torre, que havia sido convidado para ser revisor de "O Diário". Inicialmente, depois passou para repórter. Quando ele passou a repórter, eu fui chamado para ser revisor no lugar dele. Fiquei dois meses como revisor, logo arrumaram outro e arrumaram um lugar para mim na Redação. "O Diário" estava vivendo um processo da chamada "escolinha", que foi criada... Na verdade, o grande incentivador foi o empresário Edgard dos Anjos, que era um dos arrendatários. "A Gazeta" era vinculada ao PSD, vinculada ao então senador Carlos Lindemberg. Os jornais tinham forte vinculação política. "O Diário" era vinculado ao governador Francisco Maciel de Aguiar, o Chiquinho, que estava no poder, estava sendo deposto. Aí assumiu Rubem Rangel. Os militares forçaram a renúncia do Chiquinho. E, por isso mesmo, talvez, o jornal estava arrendado a três empresários: José Carlos Monjardim Cavalcante (Cacau), Fernando Stelbner (Jacaré) e Edgard dos Anjos. Eles levaram o Plínio Marcchini, que foi o grande mestre da escolinha. Lá já estava Marien Calixte, Maurílio Cabral Perpétuo, Rogério Medeiros... Rogério Medeiros fazia a coluna política, chamada Panorama. Aí, começamos, então, a modernizar o jornal. Edgard me conseguiu um estágio no "Jornal do Brasil", no Rio de Janeiro. Fiquei três meses lá. Foi quando conheci Fernando Gabeira. Gabeira fazia pauta de manhã...
- Como foi a experiência?
- Foi maravilhoso! Eu tinha que entrar a uma da tarde, mas entrava às sete da manhã. Quando conheci Gabeira, disse logo: quero fazer pauta com você. Eu chegava às sete da manhã, Gabeira já estava lá desde às seis. Era a época do mimeógrafo. Então, eu dispensava o contínuo e eu é que ficava levando as laudas de pauta para o setor de reprografia, para imprimir as pautas dele. Aí, à tarde, com Juvenal Portela, pegava mais uma pauta. Foi maravilhoso.