Vitória (ES), edição de 05 de outubro de 2006    
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A guerra do drama
"Free Zone" e a impossibilidade de sua própria existência



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


A primeira imagem de "Free Zone" é típica de uma espécie de exposição de personagens muito cara a um cinema humanista na concepção e clássico da execução de sua narrativa. Vemos Rebecca com o rosto inteiro na tela, dentro de um carro com a janela aberta e olhando para fora. O alongamento desse plano, sem cortes, deverá revelar as emoções que essa moça sente diante daquilo que observa, e assim, em um minuto e meio, já teríamos acesso à toda a construção psicológica e dramática da personagem, conscientes de suas limitações e das possibilidades de atuação diante de tudo o que a trama lhe impusesse dali para adiante. Mas esse primeiro plano de "Free Zone" dura muito mais que isso. A idéia de saciar o espectador acostumado à informação se perde cada vez mais a medida que a dúvida, e não a certeza, se forma a partir do rosto de Natalie Portman. Não sabemos o que vê do lado de fora do caro, nem porque chora, e nem mesmo saberemos quem de fato é essa pessoa que chora dentro de um carro. No filme de Amos Gitai estamos, desde o começo, condicionados ao desconhecimento. Do humanismo de cátedra sobra muito pouco quando as emoções se configuram num regime sem os códigos de reação normais (chora por isso, sorri por aquilo, e isso tudo faz parte do humano que este personagem é). Não que as protagonistas de "Free Zone" apareçam desumanizadas, pelo contrário. O que interessa à Gitai aqui é justamente pensar o modelo de apreensão dessas humanidades, por parte do filme e por parte do público, e até onde elas são válidas num ambiente como o da guerra. Assim temos, nesse apresentação de Rebecca, a apresentação de um problema: como contar as histórias da guerra sem submetê-las às noções narrativas clássicas, ou mesmo às modernas? Ou, ainda mais, como dramatizar um evento já tão dramático por si?

  
Foto: Divulgação
  
Gitai sempre usou o conflito entre Israel e os estados árabes como tema de seus filmes. Nos casos bem sucedidos, mais que a radiografia de um conflito ou a representação pessoal de dramas coletivos, o diretor israelense conseguia mesmo capturar traços dessa realidade e torná-los a própria matéria de sua ficção - o melhor exemplo é "O Dia do Perdão", que entre o tratado de amizade dos soldados na trincheira e o manifesto político acaba optando por uma terceira via, existindo como um grande filme sobre os sons que uma guerra produz. Como todos os ruídos de "O Dia do Perdão", que se aglomeram na banda sonora tão impactantes como tão completamente indistintos, hélices de helicópteros com gemidos de feridos, motores de jipes com tiros de fuzil, cada um exigindo do espectador sua atenção ao mesmo tempo que entregando informação quase nenhuma sobre sua procedência ou destino, também as três mulheres que acompanhamos em "Free Zone" estão ali simplesmente por pertencerem àquele lugar, mais ainda, são donas da imagem, no sentido de que são produtos da guerra tanto quanto os ruídos, e por isso mesmo abdicam de qualquer dramatização extra. Rebecca, Hanna e Leila não precisariam de um filme, e não precisam de "Free Zone" para poderem existir; elas acontecem todo dia nas fronteiras israelenses. Aqui a inversão de princípios percebida por Amos Gitai: exigir que esses personagens se exibam aos olhos famintos do espectador é absurdo demais, esperar delas algum tipo de exposição é ignorar que suas histórias existiam muito antes da possibilidade do filme e seguirão existindo muito depois que ele acabar. Se o drama da guerra é real, a guerra do drama, pelo drama, é simplesmente estapafúrdia.

Resta, então, acompanhá-las. Em "Free Zone" todas as tentativas de fabulação acabam se frustrando ou sendo interrompidas pela contingência. No road-movie por excelência, aquele que revela tanto sobre o que está fora da estrada quanto sobre o que corre dentro dela, vemos a motorista Hanna levando Rebecca rumo à tal zona livre, e o passado de Rebecca, aquilo que a fez estar onde aparece agora, surge numa longa cena superposta à sua imagem no banco do carona. Nesse flashback temos mostras claras de tudo o que poderia nos explicar Rebecca, e ainda assim saímos dele sabendo nada a mais, e talvez até um pouco menos do que sabíamos sobre a moça antes disso. Mais adiante, o mesmo princípio fabulador será utilizado quando Hanna conta a tragédia acontecida a seu marido, vítima de uma explosão. Por último, será o misterioso "Americano" aquele que tentará dar alguma consistência narrativa à sua própria existência, mas no meio do relato a interrupção pela descoberta da fuga de seu filho, um extremista, impedirá que seu contorno enquanto personagem de ficção seja traçado. "Free Zone" se debate com sua própria existência, e disso tira momentos de uma emoção estranha, quase nova. Aprendemos a olhar essas mulheres sem que precisemos sabê-las. A própria existência delas no quadro, as imagens de seus rostos, já deveriam bastar. O resto todo é uma tentativa cada vez mais equivocada de dar grandiosidade narrativa àquilo que quer simplesmente deixar de ser notória enquanto espetáculo real (e eventualmente fictício, com todos os filmes que se produzem a respeito). O final aberto, mais que fetiche modernista, é o reconhecimento do tamanho reduzido de nossa vontade de conclusão em relação a um assunto que ainda não se permitiu ter um final. Ficamos com Rebecca, Hanna e Leila, cantando em coro uma música pop que toca no rádio do carro, e da beleza cafona desse momento ficam também os sons dessas três vozes, mais três ruídos adicionados à trilha sonora de uma guerra que destrói a narrativa, mas que não destruirá nunca a vontade de estarmos ao lado de seus narradores.


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