Liderança vacilante




Uma liderança política, forjada no exercício do poder e confirmada nas urnas, só pode mostrar seu peso e sua influência se for exercida em plenitude, doa a quem doer e sejam quais forem as conseqüências.

Exemplo eloqüente dessa necessidade foi dada, nas eleições, pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que assumiu a candidatura de Geraldo Alckmin, quando ela ainda se mostrava inviável pelos números das pesquisas, e ao lado dela permaneceu até a contagem do último voto.

Hoje, de consciência leve e com a certeza do dever cumprido, o governador mineiro mantém a coerência e manifesta seu apoio ao tucano de maneira clara e insofismável.

Aécio saiu, por certo, engrandecido do pleito, não apenas por ser um campeão de votos, mas também por fazer valer sua liderança, demonstrando coerência e coragem. Minas Gerais também se engrandeceu com o ato de seu governador. Isto é absolutamente certo.

Já aqui no Espírito Santo os meios políticos se mostram perplexos e atônitos com o distanciamento do governador Paulo Hartung, outro campeão de votos, da eleição presidencial. Um distanciamento injustificado, porque o atual partido do governador, o PMDB, não apresentou candidato a presidente da República e se dividiu entre apoiadores de Lula e Alckmin.

Ele poderia, assim, escolher entre um e outro já no primeiro turno, pois em seu amplo arco de alianças se acomodaram, entre outras correntes políticas e partidárias, o PT e o PSDB. A peemedebista Rosinha Garotinho, governadora do Rio, enfrentou muitas resistências mas a elas não se dobrou quando resolveu apoiar Alckmin.

Voltando às primeiras linhas deste comentário, é licito afirmar, a esta altura, que o governador capixaba está se recusando a cumprir um dever que sua liderança impõe. Um dever político, que, no seu caso, alia-se a outro gênero de dever - o dever moral do reconhecimento ao apoio que recebeu do presidente Lula. Apoio que foi vital, fundamental mesmo, para consolidar seu projeto à frente do Executivo capixaba.

Era de se esperar que desse apoio explícito à reeleição de Lula, como têm enfatizado lideranças petistas estaduais e nacionais. Teria ele, obviamente, liberdade para escolher outro caminho sem comprometer sua liderança, mesmo que resolvesse ignorar a dívida de gratidão com o presidente.

Mas, em reconhecimento à atenção que o presidente da República dispensou a seu governo e ao Espírito Santo, era de se esperar que ficasse ao lado de Lula.

O que está parecendo inaceitável aos olhos da população capixaba é que o governador se mantenha dúbio e vacilante nesta hora. Sim, porque qualificar de neutra sua posição é apenas um exercício retórico.

O muro - local onde a colunista Tereza Crivinel, de "O Globo", colocou o governador - não é abrigo adequado a um líder na completa acepção do termo.