Todo mundo sabe que beleza e feiúra são conceitos relativos. E não seria eu, este cronistazinho de arrabalde, quem iria dizer diferente. Ser belo ou ser feio são coisas que podem variar de lugar para lugar, de contexto para contexto, de cultura para cultura.
Certamente que o conceito de beleza, para as "mulheres girafas", da África, que esticam o pescoço a partir da colocação de aros superpostos, é bem diferente do dos índios brasileiros que esticam o lábio utilizando aros de madeira cada vez maiores. Será diferente, também, na opinião dos brasileiros, onde o bumbum feminino é o fetiche nacional, e dos americanos, onde as tetas são a preferência. E por aí vai.
-É bonito isso?
A frase ecoou no meio de uma discussão a respeito de beleza e feiúra. O papo tinha esquentado, já tinha gente levando a voz, de modo que a pergunta soou como um alerta, um aviso de que o negócio já estava passando da conta.
Bonito vai, feioso vem, "Boniteza não põe mesa", "Quem ama o feio bonito lhe parece", "O amor é cego", e o assunto parecia não encontrar um fecho, uma conclusão, ameaçando outra vez caminhar para a ignorância.
Mas bastou um sinal de mão do ribeirinho e pescador Bastchão Bedurri, amigo considerado e conselheiro de toda aquela gente rude e simples das barrancas do Rio Doce, para que um silêncio quase que imediato tomasse conta do grupo.
-Bonito, hem? Um monte de amigos, tudo gente querida, quase brigando por causa de um assunto desses, sem pé e sem cabeça.
Parecia que tudo tinha serenado, mas Jeromo Tripé não se conformava, e meteu uma ironia:
-Uai, Bedurri, mas então é bonito ser feio?
Bedurri achou um jeito todo seu de resolver a parada de um jeito bem-humorado, sugerindo que a feiúra também tem lá seus encantos:
-A feiúra tem muito mais valor do que a beleza.
Diante do susto geral, o sábio pescador emendou, com seu sorriso mais menino:
-Claro, gente. Quanto mais a pessoa vai envelhecendo, a beleza só vai diminuindo. E a feiúra, não, cada vez aumenta mais.
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