Os capixabas e o mar





Ubervalter Coimbra


Os oceanos estão morrendo. Em todo o planeta, são conhecidas 150 zonas mortas, uma delas no entorno da Baía de Guanabara. Eram três as zonas mortas há 50 anos.

Matam os oceanos a deposição de nutrientes, principalmente por esgotamentos sanitários domésticos e industriais sem tratamento. Os nutrientes permitem a proliferação de algas, e as águas ficam inabitáveis, exceto para bactérias. Os oceanos estão contaminados por plásticos, muitos deles pequenos, que os peixes comem e morrem por intoxicação. Estão contaminados por resíduos de agrotóxicos. As águas dos mares estão cada vez mais ácidas. Poluentes atmosféricos também contaminam os mares. Há generalizada irresponsabilidade quando se trata da proteção dos oceanos.

Nós, os capixabas, damos a nossa contribuição para esta degradação universal. As poluidoras do ar estão aí, funcionando a todo vapor. Por falta de investimentos dos governos federal, estadual e municipais, os dejetos produzidos por 67,63% dos moradores da Grande Vitória não têm tratamento e vão poluir o mar. Dos 1.496.845 moradores da região, apenas 391.208 têm suas casas ligadas ao sistema de esgotamento sanitário, um índice de cobertura de 32,37%. Não é de se estranhar que a presença de golfinhos na baía de Vitória seja apenas lembrança de um tempo nem assim tão distante, digamos, de três décadas.

Sem sistemas de tratamento de esgoto sanitários, e onde também são lançados esgotos industriais não tratados, sem contar a contaminação por agrotóxicos, os rios capixabas são os mais poluídos do Brasil. No ranking nacional, o Espírito Santo ocupa o terceiro lugar na degradação dos seus recursos hídricos, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os rios também estão assoreados, pois a destruição da vegetação nativa no Estado foi intensa e ainda ocorre nos fragmentos florestais. Há rios mortos, como a foz do rio Marinho. Outros, como o Rio Doce, o maior do Estado, já têm trechos intermitentes durante alguns meses do ano.

A este resumo, acrescente-se o fato de que a pesca predatória vem dizimando espécies outrora abundantes. Praticamente não se pesca o peroá, a sardinha, o robalo. O maior banco camaroneiro do país, no litoral norte capixaba, está se esgotando. Os dados do Programa de Avaliação do Potencial Sustentável dos Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva (Revizee), cujo resultado final acaba de ser divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), apontam a sobrepesca.

É neste contexto dramático, que cada um deve dar sua colaboração. Desde o pequeno gesto de jogar o lixo no lugar certo, e não no meio da rua, até manifestações públicas de cobrança para que sejam formados comitês de bacias hidrográficas.

E não esquecemos de que é necessária a criação de zonas de proteção no litoral capixaba para que as espécies ameaçadas possam se reproduzir. Neste caso em particular, é preciso cobrar que o Ibama e o MMA deixem de lado a burocracia e criem logo a Área de Proteção Ambiental (APA) Costa das Algas e o Refúgio de Vida Silvestre (Revis) de Santa Cruz. É preciso que se exija a criação imediata do Parque Nacional Marinho das Ilhas do Sul Capixaba e a Reserva Extrativista Marinha (Resex), esta no litoral norte.

É o mínimo que cada um de nós tem de fazer. E já!


Contato: ubervalter@seculodiario.com