"O poder sem abuso perde o encanto."
(Paul Valéry)
O Brasil precisa de uma reforma política urgentemente, medida que melhoraria o cenário das eleições, em todos os níveis. Século Diário conversou com a socióloga Viviane Medeiros Chaia, que citou alguns dos fatos que dependem dessa reforma. Segundo ela, as determinações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) transformaram a disputa em algo morno, sem torcida, sem emoção.
Representante do Instituto de Pesquisa Nexus, de Belo Horizonte (MG), Viviane analisou também o perfil do eleitor, que se comportou diante das pesquisas pré-eleitorais baseado nas denúncias veiculadas pela imprensa e acabou sendo levado a decidir pela venda do voto, na última hora ou no dia da eleição. "A imprensa foi muito eficiente dessa vez...denunciou os escândalos e provou. O papel da imprensa foi fundamental...".
O peso da mão do governador Paulo Hartung também foi avaliado pela socióloga, que ainda destacou os nomes que para ela foram surpreendentes nessas eleições: tanto os que souberam aproveitar a participação decisiva do governador quanto os que permaneceram como opositores e venceram com o argumento da prestação de serviços à população. Confira.
Século Diário: - Qual a sua avaliação sobre os arranjos desse cenário político que está se formando no Estado a partir do resultado das eleições?
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Foto: Nerter Samora
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Viviane Medeiros Chaia: - No Estado há uma força hegemônica, que são Paulo Hartung e seus aliados, e conta com uma oposição muito incipiente. Os Max saíram muito arranhados. Não elegeram senador e perderam dentro do município deles, que é Vila Velha. Sérgio Vidigal, que seria uma alternativa para o Estado... Era de se esperar que ele não ganhasse, mas ele, apesar de não ter ganhado, não perdeu. Ele venceu no município dele e fez a bancada que ele queria fazer, fez a mulher dele (Sueli Vidigal) e outros deputados estaduais. É difícil falar como eles vão se arranjar porque hoje Paulo Hartung é um titã da política capixaba. Então, é difícil quem não queira estar ao seu lado. Manato mesmo, na sua última declaração... Era um opositor e virou aliado dele. Mas acredito que na Assembléia existem algumas forças que farão oposição a ele ou que estarão no campo da oposição, como Aparecida Denadai, que deve assumir uma posição bem independente. Perde-se Brice Bragato, mas entra Aparecida, que é a política com qualidade, fazendo uma atuação como deputada independente. Eu acho que esse grupo que não conseguiu se eleger, que vai ter que arranjar posição, e o grupo que não conseguiu se reeleger, que não faz parte desse grupo de Paulo Hartung, como Nilton Baiano, Feu Rosa e outros. Esse grupo não está eliminado, mas está enfraquecido, já que não elegeu vários deputados.
- E sobre o processo eleitoral em si, sobretudo no que diz respeito à infiltração do poder econômico?
- Eu diria o seguinte: com essas proibições do TSE, considero que foi uma eleição atípica. Ela foi diferente de algumas anteriores. Com essas proibições, a intenção do TSE era de coibir o uso de dinheiro, da máquina pública, enfim... fazer com que as campanhas se igualassem mais, tivessem menos clientelismo, menos compra de votos. Com isso também ele tirou o brilho da campanha. Ao proibir de dar brinde, ele proibiu o eleitor de manifestar o seu próprio voto. Então, foi uma campanha morna, uma campanha sem empolgação, sem emoção, justamente em função de todas as proibições, dos showmícios que levavam as pessoas para a rua e que juntavam torcidas políticas de grupos políticos. Eu acho que o principal foi isso, o eleitor não poder manifestar o seu voto. "Eu não posso vestir a camisa do meu candidato, eu fui proibida de vestir a camisa do meu candidato." Então, a partir do momento que você não pode ir para a rua expressar o seu voto, as pessoas se afastaram da política. Tirou a emoção das campanhas, aquela coisa da torcida, da emoção. Além disso, há uma sucessão de escândalos no Brasil. Não que nunca tivesse tido escândalos no Brasil. Só que dessa vez a imprensa foi muito eficiente, denunciou e provou. O papel da imprensa foi fundamental na cobertura dos escândalos, mas houve um engarrafamento de denúncias. É "mensalão", é "mensalinho", é "sanguessuga", e o eleitor fica atordoado. E o brasileiro, a gente sabe, não tem uma memória muito longa. Então, se você analisar a rejeição nas urnas, os denunciados foram todos rejeitados, os "mensaleiros" nem tanto. O que prevaleceu foi o escândalo recente. O último então, da foto dos dólares, do dinheiro, acabou levando Lula para o segundo turno. Isso aí também influenciou nessas eleições. Acho que na política capixaba houve uma renovação razoável.
- A Assembléia tem uma resposta para isso...
- Tem uma resposta. Veja que foram reprovados todos os envolvidos nos escândalos, como Gazzani, Fátima Couzi, Zé Ramos, Zé Tasso... Foram todos varridos da Assembléia. E também há a entrada de novos políticos. No Brasil também existe um outro problema na política que é o denuncismo. Se denuncia, se acusa as pessoas, depois tem que se provar que não é culpado ou não. Se acusa muito sem provas e depois o político sofre rejeição, mesmo se conseguir provar, mas já não tem a mesma aceitação. Veja o resultado de Nilton Baiano.
- Vamos lembrar que o leitor-eleitor guarda a manchete na cabeça...
- Sim, guarda a manchete e acabou. Não adianta provar que gato não é lebre, que você guardou e pronto, fica a tarja, fica a manchete. Isso é muito pesado. Em função dessas coisas todas, elegeram-se os novatos. É a hora do "novo". Há toda uma renovação nesse sentido, não só com a volta de políticos antigos, como Élcio Álvares. Há dois pólos aí: políticos antigos que fizeram pelas comunidades, pela população, como é o caso de Élcio, que retornam, e políticos novos, que têm um serviço prestado à comunidade, como é o caso do Cabo Josias da Vitória, que é um policial militar da área ambiental, da região de Colatina, que presta serviços relevantes à comunidade. Então, essas pessoas que têm uma prestação de serviços à comunidade... Eu acho que elas foram brindadas pelas urnas.
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Foto: Nerter Samora
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O cabo fez uma campanha sem dinheiro. Houve campanhas ricas, visivelmente ricas, como foi a campanha de Lelo Coimbra, de César Colnago, de Luiz Paulo... Campanhas que tinham muita visibilidade, como a de Renato Casagrande. Campanhas tinham muita visibilidade porque tinham dinheiro. Essas pessoas foram eleitas não por elas. Não estou aqui tirando o mérito delas, mas foram eleitas muito mais pelo padrinho delas, que é Paulo Hartung e mais essa máquina enorme que foi usada. Tivemos campanhas caras. Também foram eleitas pessoas com campanhas simples, como o próprio Élcio Álvares, a campanha de Cabo Josias, a campanha do Vandinho... Vandinho, vereador da Serra, que teve uma campanha extremamente modesta. O próprio Jardel dos Idosos, Doutor Hércules... todos com menos recursos, mas são pessoas que prestam serviços à comunidade. Existe hoje também, com base nas pesquisas qualitativas que fizemos e observamos as classes C, D e E. São as classes sociais que necessitam do serviço público. Não é o caso de quem tem um plano de saúde, que tem os filhos que estudam em escolas particulares. Mas a maioria da população, das classes C, D e E necessitam, posso dizer que são consumidoras do serviço público. Elas necessitam do transporte coletivo, elas necessitam da escola pública, da saúde pública. Então, essas pessoas que são consumidoras do serviço público dependem muito mais da política e dos políticos a seu favor do que das classes A e B. São pessoas que distinguem o político como "o cara que entra para se dar bem", "faz só por ele e vai embora" daqueles que fazem pelo coletivo, que trabalham em prol da comunidade. Então, são essas pessoas que trabalham em prol da comunidade que foram brindadas nas urnas. É o caso de Élcio Álvares, que quando governador desenvolveu ações para pessoas de baixa renda, atendendo essas pessoas. Quando ele foi governador, eu era criança (risos), mas os pais lembram, os amigos lembram, as pessoas da época lembram e votam. Josias luta pela questão ambiental na região de Colatina. E outros, como Jardel, Vandinho, Hércules... São pessoas que têm serviço prestado à comunidade. Essas pessoas foram brindadas, principalmente pelas classes C, D e E.