"Minha força reside apenas na minha tenacidade." Pasteur
(Paul Valéry)
Nossa entrevistada deste final de semana foi chamada várias vezes de radical, inflexível e intolerante. Ela não se importa. A deputada Brice Bragato (PSOL) se despede do Poder Legislativo com a marca de voz autêntica, mesmo incomodando, mesmo instigando o bloco da situação a revidar. Ela diz ter saído da "eleição mais desqualificada" que já viu na sua vida. "O eleitor foi comprado antes para sair de casa para votar. Rios de dinheiro correram nessa eleição. Foi o maior derrame de compra de votos que já vi."
Como militante de esquerda, Brice foi ativista antes de ser deputada, nas lutas a favor dos índios, dos negros e de outras minorias que sentiram apoio na sua participação, não somente em plenário, mas nas ruas também. Ao governador Paulo Hartung, deu o título de "imperador", dentro da sua convicção de esquerda, sua postura ideológica. Postura que a fez sair do PT e construir o PSOL no Estado.
Brice não conseguiu ser eleita com sua nova bandeira, mas admite que já imaginava o resultado, principalmente por ter tido a coragem de fazer tal mudança partidária. A nova composição da Casa não lhe parece novidade. Será ainda pior ou, como enfatizou, está ficando cada vez pior. Esta entrevista foi concedida a Século Diário no último dia 10, antes de o PSOL começar a se posicionar de maneira mais decisiva em prol da reeleição do presidente Lula.
Século Diário: - Como a senhora se despede do Poder Legislativo?
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Foto: Nerter Samora
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Brice Bragato: - Primeiramente, com a consciência do dever cumprido. Isso me dá a condição de dizer que sempre fui procurada, pois sempre estive presente nas sessões. Estive presente, não faltei, ajudei a cassar nas urnas os mensalistas que viviam com os conchavos políticos, de conluio, de acordos com José Carlos Gratz. E também com orgulho de ter tido a coragem de fazer uma mudança ideológica. Não estar mais com o PT e a situação que ele criou e buscar um partido que é jovem, nos proporcionando outros mecanismos.
- Como a senhora foi se ambientando no PSOL, um novo partido?
- Eu acho que o PSOL é um projeto extremamente novo, extremamente novo para todos nós. Todos nós estamos nos ambientando, pois é uma nova família que se constituiu, buscando dialogar com todos os quadros no País, buscando um equilíbrio de forças. Isso é importante também, essa ambientação, depois do resultado das eleições. Eu acho que 2007 será um ano estratégico para formar novos participantes dessa luta. Primeiro porque tem um Congresso, o primeiro do PSOL. Segundo porque um presidente que pode até repetir, estou falando de Lula, mas com uma nova postura, com uma nova força de esquerda, que seja o PSOL não só um partido de oposição, mas que articule a oposição, para cobrar que esse governo envergue mais suas forças à esquerda, já que é extremamente parecido com o governo Fernando Henrique.
- Como a senhora avaliou a reação dos seus colegas parlamentares em relação à sua mudança de partido?
- Eu acho que todo mundo ficou com medo de eu perder a eleição. Reafirmando o que eu disse à época, aliás o que sempre digo, o meu projeto político não é apenas eleitoral. O mandato é um instrumento de trabalho. Como a opção é programática, ideológica foi profunda, eu sabia que corria o risco de perder a eleição, mas eu preferi não ir contra os meus princípios. Por isso, estou orgulhosa de ter tido essa coragem.
- Mesmo depois do resultado, continua a militância...
- Claro. Não há vinculação entre a minha militância e o meu projeto político eletivo. Eu comecei a militar muito antes de ser deputada. Eu militei muito antes, militei durante os mandatos e os intervalos de mandatos. E minha intenção é continuar militando. Quero militar muito mais porque eu sou livre perante a institucionalidade. Sou agora pela luta de classes uma ativista mais livre porque não tenho que estar aqui, com essa cara de deputada, que quer fazer "isso", não pode porque é deputada, quer fazer "aquilo", não pode porque é deputada, por ter toda uma conduta pré-moldada, é figura pública... Vou provavelmente, sendo bastante conhecida, mas sou assistente social, advogada, funcionária pública, socialista, militante da luta de classes, militante do PSOL... é isso que eu quero fazer, além de tudo para tentar sobreviver. Comida para os meus filhos e para mim.
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Foto: Nerter Samora
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- A senhora veio se colocando na Assembléia como uma voz autêntica na linha da oposição, voz que, por algumas vezes, também foi interpretada como radical. Quem será que vai ecoar essa voz na Casa, nessa nova composição após as eleições?
- Me desculpe a falta de modéstia, mas eu acho que ninguém. Mulher que gosta de gritar, ou seja, de falar alto e gritar, há muitas. O que faz a diferença é o cunho ideológico. Ser de esquerda, ser classista, ser socialista, ter coerência com esse valor, com esse princípio. Isso faz a diferença. Eu acho que me mantenho, desde quando iniciei a minha militância política como uma marxista, uma mulher de esquerda, autêntica, firme nas convicções, que não tem só blá-blá-blá. Não me primo pela fala, me primo pelo conteúdo, pela coerência.