Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Nada de radicalismos, nada
de rancor, nada de mágoas

'Apoiarei o governo nos acertos
e o combaterei nos erros'





Cristina Moura


"Devemos aprender a ficar tranqüilos em meio às atividades, mas vibrantes e alertas quando em repouso."
(Ditado inglês)

Depois de quase se tornar prefeita de Cariacica, a advogada e procuradora Aparecida Denadai (PDT) foi eleita para uma vaga na Assembléia Legislativa. Conhecida por se tornar combativa frente a um assunto delicado, o assassinato do seu irmão Marcelo, Aparecida se diz uma pessoa pronta para encarar os problemas do Estado ao lado do povo, não importando por onde ecoe a voz do governador Paulo Hartung: "Serei até governista quando o governo fizer algo em favor do povo. Mas o combaterei nos seus erros."

Há alguns meses, Século Diário conversou com Aparecida Denadai sobre os preparativos para a campanha de 2006. Na entrevista deste final de semana, porém, o clima é outro: é diante de uma deputada eleita com 21.065 votos no Estado. Número que não a faz esquecer das bandeiras que ergueu, desde a sua primeira campanha eletiva: Saúde, Segurança e Educação. São estas as bandeiras que ela promete continuar erguendo na tribuna da Assembléia.

O companheiro de luta e de partido Sérgio Vidigal ganha da deputada um reconhecimento singular. Aparecida não esconde a sua admiração pelo ex-prefeito da Serra, tratando-o como uma figura pronta para o diálogo com o reduto governista, sem mágoas, sem ressentimentos. Confira o que diz a deputada, que pretende ser "imparcial" e "independente" no plenário. Ao mesmo tempo, cobrando Justiça.

Século Diário: - O que a população pode esperar de sua atuação parlamentar?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Aparecida Denadai: - Estamos vivendo um outro momento. Após a eleição, agora é outro momento. Aí vem a repercussão dos projetos que temos que apresentar e uma nova vida... Hoje, a responsabilidade é redobrada porque muita gente confiou e confia em mim. Então, eu tenho que chegar no Legislativo e fazer a diferença porque hoje o povo está descrente, desapontado, magoado com a classe política. Eu falo não só dos projetos que temos que apresentar para melhorar a vida das pessoas, mas da responsabilidade de resgatar essa credibilidade do Legislativo, que hoje está parecida com morte. Hoje as pessoas não acreditam. Político virou sinônimo de bandido. Política virou sinônimo de coisa errada. Acho que uma das responsabilidades do Legislativo, além de fazer muito do que o povo está esperando, é resgatar isso. Senão, fazer política nesse Estado...

- A campanha, como foi para a senhora? É claro que ganhar é bom (risos)... Mas o processo, em si, como se desenrolou?

- Desigual. O processo eleitoral deste ano... Que não foi só nesse ano, não é? Nos anos anteriores também. Quem faz política nesse país é quem tem o poder econômico na mão. Na mão, é muito mais fácil. Quem não tem, passa pelo caminho das pedras. O caminho das pedras foi o meu caminho. É um caminho difícil, campanha sem dinheiro, campanha desigual. No meu município, especificamente, eu fui vítima do poder econômico estampado, escancarado, compra de votos... Eu tive até, no dia da eleição, a sensação de que eu nem ganharia. Tamanho foi o poder econômico que se armou. Mas Deus foi tão bom comigo que ainda me honrou com 21.065 votos. São vinte e uma mil e sessenta e cinco pessoas que não venderam o voto, que depositaram em mim um voto de confiança. Isso para mim é motivo de orgulho muito grande porque eu tenho a consciência, eu tenho a convicção de que não usei dinheiro para comprar nenhum desses votos. Na verdade, elas se convenceram de que eu era a melhor opção naquele momento. Então, a minha responsabilidade é redobrada para essas pessoas porque elas não receberam dinheiro de mim. Elas depositaram em mim a confiança. Hoje tenho que responder e mostrar o meu trabalho, muito mais do que aqueles que usaram o poder econômico. Quem usou o poder econômico comprou e pagou pelo voto. Então, tá tudo certo. Agora, comigo não: eu não comprei voto, eu não paguei por ele e as pessoas estão esperando de mim trabalho. E é isso o que eu quero fazer.

- Estão criadas algumas expectativas quanto à sua atuação no plenário da Assembléia. Uma delas, de que seria a voz da oposição. Como a senhora imagina essa atuação, diante de um governo forte, que foi reeleito com votação expressiva?

- Enquanto houver um cidadão sendo assassinado, enquanto houver um cidadão morrendo na porta de um hospital público sem atendimento, enquanto houver um cidadão sem acesso à educação... vai haver sempre espaço para a oposição. Por que? Porque quando a gente fala de oposição não é uma oposição radical, desmedida e radical, não. É você ser voz daquelas pessoas que não têm voz. É ser a voz de uma família que teve seu filho assassinado e que precisa fazer Justiça e que o Estado tem a obrigação de fazer. É você ser a voz de uma família que teve alguém morto na porta de um hospital público, sem atendimento. Oposição para mim é isso. Não é uma coisa desmedida e irresponsável.
  
Foto: Ricardo Medeiros
  
É ser a voz dessas pessoas. Atualmente, é muito mais fácil fazer política estando do lado do poder econômico, que sempre tem as benesses do poder, sempre as distribuições de cargo... Tudo o que trouxer de bom está do lado do poder. Estar do lado do povo é sempre muito ruim porque você não tem as benesses que o poder oferece. Então, hoje, quero ser uma parlamentar imparcial. Estar ao lado do governo quando o governo apresentar propostas que atendam à população... Posso até lhe afirmar que, nesse caso, serei governista. Vou ser da ala governista... Posso até afirmar que vou defender a bandeira do governador, do governo, dos projetos do governo. Mas, quando a população estiver sofrendo por alguma omissão do governo, aí você vai ver uma parlamentar fazendo oposição, sendo a voz dessas pessoas, defendendo com afinco e com tudo aquilo o que um parlamentar tem que ser. Exemplo: quando um deputado ganha a eleição e se diz da oposição ou da ala governista, nesse momento ele perde a imparcialidade para ser um deputado do povo. Eu nem sei ainda o que é que o governador vai fazer... Como é, então, que eu vou dar um cheque em branco para ele? E se a ação do governador for contra o povo? Então, quer dizer que, quando eu me declaro da base governista e se ele tem uma ação contra o povo, não vou poder ficar do lado do povo, vou ter que ficar ao lado do governador porque sou da base aliada. Eu nem quero ser da base aliada nem quero ser uma oposição radical. Eu quero ser uma parlamentar independente, imparcial, e que vai estar ao lado do governador quando os projetos forem bons e vai estar contra o governador quando os projetos forem ruins para o povo.