Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Impõe-se um levantamento epidemiológico na Grande Vitória
'O poder público não age contra as poluidoras'





Cristina Moura


"Está todo mundo anestesiado. Está todo mundo acostumado."
(Freedy Guimarães)

Às 10 horas da manhã desta sexta-feira (27), a reportagem de Século Diário migrou para uma região considerada ainda um espaço "menos poluído" da Grande Vitória, que acaba sendo a ressonância de um comboio de gases e outros elementos nocivos à saúde, ao meio ambiente.

A região é o bairro de Fradinhos, aos pés de uma reserva que se digladia, incessantemente, com o avanço da massa urbana, para não dizer pequenos palacetes ou mansões aos moldes do "desenvolvimento", termo ainda questionado por ambientalistas, como o nosso entrevistado deste final de semana, o advogado Freedy Guimarães, presidente da Acapema (Associação Capixaba de Preservação ao Meio Ambiente), fundada em 1979.

A casa de Freedy, também o seu escritório e ponto de encontro de beija-flores, colibris, micos e espécies ainda resistentes à proliferação de construções, foi o palco da nossa trilha jornalística, em busca de uma análise pontual sobre a preservação do Espírito Santo, tendo como foco a Grande Vitória.

Enquanto um singelo joão-de-barro procurava mansamente algum alimento no chão, podíamos sentir a diferença da respiração: o ar, mais fácil de ser sorvido. Ao relatar alguns pontos importantes da sua luta ambientalista, Freedy não escondeu a sua indignação quando falou na falta de celeridade da Justiça, no sentido de atender à demanda de petições sobre questões de degradação do meio ambiente.

De posse de alguns documentos, dos quais alguns cedidos à reportagem, o presidente da Acapema discorreu sobre temas intrigantes: desde a infiltração das grandes empresas, como Vale, CST e Aracruz, em campanhas eleitorais, assim como colocando sob suspeita a posição da Findes e de alguns órgãos de imprensa. Bem que ele nos avisou que seria uma entrevista à luz da "filosofia ecológica". Confira.

Século Diário: - De que forma a Acapema está reagindo diante de um Estado que propala desenvolvimento?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Freedy Guimarães: - A Acapema foi fundada em 1979. De 79 em diante, o objetivo essencial da Acapema, num primeiro momento, naquela ocasião, foi estabelecer os fundamentos da luta ambiental. Inicialmente, Vitória, agora podemos dizer que é o Espírito Santo inteiro, estava sob o início de um processo de industrialização. Nessa ocasião, em 79, não havia ainda no Brasil uma vocação de luta ambientalista porque era uma coisa que tinha se iniciado em 1972, com a Conferência de Estocolmo. Então, nós tivemos, digamos, sete anos depois, no Estado do Espírito Santo, a primeira ação ambientalista, juntamente com mais duas outras capitais no Brasil, que também, nessa mesma época, estavam criando as suas ONGs. A partir dessa ocasião, a Acapema começou a atuar de forma educativa: mobilização da sociedade, entrevistas, o início de um trabalho de conscientização para o que significaria essa.. vamos dizer... revolução industrial, no planalto de Carapina, porque tudo começou com a construção das unidades da Vale do Rido Doce no planalto de Carapina. Nessa ocasião, no início da construção, onde não haveria norma nenhuma no que se referia ao meio ambiente, a não ser o Código Florestal, mas não era uma legislação voltada para um desenvolvimento industrial. Então, a Acapema teve como primeira ação uma reação contra o projeto de implantação de lixo nuclear no município de Aracruz. Inclusive, quem mobilizou essa história foi Rogério Medeiros. Daí para a frente, nós começamos a ter um maior campo de ação, considerando que a questão ambiental se tornava ponto de agenda. Com o passar dos anos se tornava ponto de agenda da sociedade. Com a implantação da Vale do Rio Doce no Pólo de Tubarão, primeira usina, nada relativo à questão ambiental foi desenvolvido. Ou seja: a primeira usina da Vale já era uma usina recuperada, não era usina "zero quilômetro". Ela foi montada depois de ter sido desmontada nos Estados Unidos e trazida para cá e remontada, o que significa que essa usina, a usina 1, que está sendo agora, inclusive, objeto de "up grade", da Vale, junto da proposta da construção da oitava usina... Essa usina aí, na minha visão, eu não sou técnico, não sou especialista, mas na minha visão é uma unidade obsoleta. Então, ela sempre vai ser uma unidade cujo impacto no meio ambiente será muito grande, haja vista que ela é uma usina que não tem dispositivo nenhum e tudo tem que ser adaptado, considerando a questão do meio ambiente. Posteriormente, vieram as outras usinas, a usina 2, 3, 4... e, a partir, então, do desenvolvimento da consciência ambiental, a sociedade capixaba começou a reagir, até porque estava coberta de razão. Tínhamos uma usina que jogava toneladas e toneladas de pó, e quem mora em Vitória e quem mora no continente, naquela época, se lembra muito bem o que se passava ao lado da Ferro & Aço, que vivia coberta de pó vermelho. As comunidades começaram a reagir, já que havia o respaldo, leis começaram a ser criadas, normas de emissões começaram a ser criadas, mas havia uma resistência muito grande, face uma propaganda de que a implantação de um pólo industrial traria a redenção econômica para o Estado do Espírito Santo e traria também empregos... Esse mesmo discurso que a gente ouve...

- Emprego e renda.

- Emprego e renda. Naturalmente, outras unidades, além da da Vale Rio Doce, todas foram implantadas. Veio a CST, implantou o Auto Forno 1, diga-se de passagem, esse Auto Forno já foi, dentro de um esquema de audiências públicas e já foi dentro de um contexto de participação da sociedade. Porém, mesmo que, por exemplo, a CSR, Unidade Auto Forno 1, tenha sido implantada e, dentro do processo da implantação e do licenciamento, pela primeira vez se estabeleceram condicionantes... Uma das condicionantes da CST Auto Forno 1 até hoje não foi cumprida, que se chama Unidade de Dessulfuração. O que é? É uma unidade na qual se processa a retirada dos gases que existem no carvão mineral, um componente do aço. Essa unidade de dessulfuração, digamos, que em qualquer unidade do planeta seria a primeira exigência para que a unidade principal fosse construída, ou seja, em qualquer unidade, primeiro construiria uma unidade de dessulfuração, depois construiria a planta. Cinqüenta e nove gases, possivelmente sendo 27 cancerígenos, jogados na atmosfera dia e noite, sem parar. A CST construiu a sua planta 1, inaugurou e não construiu a Unidade de Dessulfuração. Não houve reação das autoridades! Veio a segunda unidade da CST, não poderia se conceder essa licença à segunda, visto que a lei é clara quando diz que: se existe condicionante não cumprida, nova licença não pode ser concedida. Nova licença foi concedida, a CST assumiu a responsabilidade de construir a dessulfuração para a Unidade 2, foi até na presença do Ministério Público Federal, todo mundo presente, e a unidade 2 foi construída, inaugurada... e a dessulfuração da Unidade 2 não foi construída. Estou falando da CST, estava falando da Vale do Rio Doce, mas é tudo um mesmo contexto. A Unidade 3 da CST está sendo construída, a licença foi concedida, e a Unidade de Dessulfuração da 1 e 2 não foi construída... A licença foi concedida.


  
Foto: Ricardo Medeiros
  
- E a sociedade, diante disso?

- A sociedade reage através das ONGs, ela reage através de posicionamentos claros... Porém, quem tem que agir são as autoridades do meio ambiente, ou seja, a Seama tem que agir, o Semam tem que agir, ou seja, prefeitura e governo do Estado. Mais do que isso, o Ministério Público Federal tinha que agir, o Ministério Público Estadual tinha que agir, mas ninguém age. Por quê? Não custa dizer que estamos falando de grandes multinacionais. Estamos falando da Vale do Rio Doce, a segunda maior mineradora do mundo. Estamos falando da Aracruz Celulose, hoje a maior produtora de celulose branqueada do mundo. Estamos falando da CST, provavelmente, em breve, na fusão com a Arcelor, vai se tornar a maior siderúrgica do planeta. Então, naturalmente, um poder desse atua politicamente. Sabemos que o presidente da Vale do Rio Doce é amigo do Lula, freqüenta o gabinete do Lula. Ora, se temos violação de princípios legais e na implantação de projetos industriais no Espírito Santo... E isso está sendo reportado, permanentemente, através de petições para os órgãos controladores, através de ofícios... E se nada acontece é porque algum poder maior não deixa.