Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2006    
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Eu também sei fazer crítica cultural



(mas evito porque me dá coceira)











Gabriel Menotti

Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas







Semana atrás fiquei me segurando para não comentar um ou outro fiasco, e foram tantos, que ocorreram por essas cercanias. Mordi a língua e passou, mas não perdi a vontade de dizer besteira, e por isso resolvi praticar um exercício o qual sou terminantemente contra, que é falar de filme. Um filme que não está passando em cinema nenhum, assim vocês não correrem o risco de ver, comparar e se desiludir mais um pouquinho.*

É Tulse Luper Suitcases, The Moab Story (2003), que à primeira vista parece um capítulo eventual da filmografia de Peter Greenaway. O filme que retoma estratégias já exaustivamente trabalhadas pelo diretor em outras obras, como o uso de coleções como topografia narrativa (vide O Livro de Cabeceira) e a sobreposição de frames como forma de montagem (como em A Última Tempestade).

Acontece que são precisamente essas estratégias que tornam Greenaway um prototípico representante do que o Lev Manovich (www.manovich.net) chama de cinema de banco de dados, promessa de uma outra linguagem cinematográfica que as novas mídias se destinariam a cumprir.

A diferença é que, já em The Moab Story, essa outra linguagem não mais se encontra em estado de latência. O filme opera os bancos de dados como as poderosas formas simbólicas que de fato o são, e de maneira até mais sofisticada que certos trabalhos de arte-tecnologia, mas pela sua negação.

Isso fica claro se o considerarmos não historicamente, em relação às outras obras de Greenaway, e sim como parte de um sistema que envolve não apenas a instituição cinematográfica, mas uma série de objetos e produtos que se dispõe perpendicularmente por diversas mídias.

O filme é senão uma pequena parte de The Tulse Luper Suitcases (www.thetulselupernetwork.com), projeto de Greenaway que engloba três longa-metragens, uma série de TV, 92 DVDs, livros, CD-ROMs, websites e algumas apresentações de live images. Todo esse conjunto se presta a reconstituir a vida de Tulse Luper, arqueólogo e "prisioneiro profissional", a partir de suas 92 valises, que contêm coleções dos mais diversos tipos.

Mas, da mesma forma que uma vida não cabe em valises, o foco do projeto não se revela em cada um desses objetos, e sim como organização que lhes dá coerência, na relação que estabelece entre as mídias às quais eles se integram.

O banco de dados quintessencial - as valises de Luper, os catálogos de sua vida, sua vida mesmo - nunca nos é oferecido sem impedimentos. Temos que acessá-lo através dessas diversas interfaces, que limitam cada qual à sua maneira a experiência do espectador-usuário. Assim, Greenaway evidencia tanto a integridade do banco de dados quanto das diversas formas de operá-lo.

É somente reunindo as percepções limitadas por cada mídia que podemos deduzir a vida de Luper. Essa dedução não é automática; implica numa múltipla negação de interfaces, que por sua vez depende de reconhecer o funcionamento e as características específicas de cada uma. Ao contrário de projetos festejam a confluência de mídias, The Tulse Luper Suitcases funciona graças à sua nítida separação.

*Mas tem no Emule. Foi lá que eu consegui

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E-mails para o colunista: gabriel.menotti@gmail.com

 

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