Vitória (ES), edição de 01 de setembro de 2006    
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Bate Papo: Toquinho ao teclado



Leonardo Viso


  
Foto: Divulgação
  
Toquinho e Yamandu repetem em Vitória parceria do show "Violões do Brasil"

A música popular brasileira tem em sua história parcerias marcantes que tornavam determinados artistas em irmãos siameses, sendo difícil desassociar um do outro. Roberto e Éramos Carlos, Caetano e Gil entre muitos outros. Alguns conseguiam a proeza de serem xipófagos em mais de um caso. Um célebre exemplo é Vinicius de Moraes que poderia ser ora Vinicius e Tom, ora Vinicius e Toquinho. E mesmo 26 anos após a morte de Vinicius, sua parceria com Toquinho ainda é forte.

No próximo sábado (02), Toquinho sobe aos palcos capixabas para se apresentar com o violonista Yamandu Costa. É a primeira vez que eles se apresentam juntos no Estado. Em entrevista exclusiva para o Século Diário, por e-mail, Toquinho fala um pouco do seu trabalho em conjunto com outros artistas, da relação que tem como as novas tecnologias e trabalho para crianças.

Século Diário - Toquinho, primeiro queria que falasse um pouco sobre seus projetos e parceiras que vêm desenvolvendo hoje (quais são e com quem)?

Toquinho - A carreira prossegue na constante realização de shows. Em julho, apresentei-me na Itália e na Espanha: foram 18 shows em 32 dias, sinto um grande prazer nessas excursões. Estou com planos de novas parcerias, com o escritor Antonio Skármeta (autor do livro "O carteiro e o poeta").

SD - Qual sua opinião sobre as novas tecnologias que vem mudando a relação das pessoas com arte, no caso a música, como MP3, Ipod? A questão da música disponível na internet.

T - Acho que isso é uma evolução irreversível. O CD já está virando um artigo de luxo, mudando o conceito que as pessoas tinham de "ter um disco". Agora, você compra um CD porque gosta muito de uma música ou de um determinado artista, já que quase tudo está disponível pela Internet. O que é bom, contudo, prevalece. É na qualidade do trabalho que devemos investir, sem nos preocupar com o suporte.

SD - Um dos problemas para os artistas, hoje, é a questão de direitos autorais e pirataria. Como você lida com esse problema? Isso interfere no seu trabalho?

T - Sei que os direitos autorais que são recolhidos e distribuídos aos autores não chegam nem à metade do que realmente se deveria receber, mas o sistema de arrecadação é falho, não abrange todo o país, apesar dos esforços das associações de autores e das editoras. Quanto à pirataria, a sensação, como consumidor, é de que se está dando dinheiro a alguém com uma certa criatividade e que nos mostra que (polêmica à parte) podemos comprar um disco muito mais barato do que nos oferecem. Como autor e intérprete, evidentemente, penso de outra forma.

SD - Como é a influência do cotidiano na sua criação? Como o Toquinho do dia-a-dia interfere no Toquinho músico? Há essa diferença?

T - Meu ritmo profissional embala-se no ritmo de minha vida.O cotidiano acelera ou retarda meu trabalho, no disco ou nos palcos. Posso passar cinco anos sem gravar um disco ou gravar cinco CDs em um ano... O bom é não se preocupar com o tempo.

SD - Pretende retomar a carreira de música infantil? Você ouviu o disco da Adriana Partimpim? Acha que há diferença no trato para com as crianças entre os dois trabalhos (seu e dela)?

T - Por enquanto, ainda não pretendo retomá-la, apesar de estar, com Elifas Andreato, maturando uma nova idéia. Esses projetos exigem temas com os quais se possa trabalhar o lúdico e o responsável ao mesmo tempo, despertando na criança a alegria de absorver o caráter da mensagem a cada música. Portanto, apesar de objetivar a criança, e por causa disso também, são projetos que têm de ser trabalhados com muita seriedade. Quanto ao trabalho da Adriana, ainda não tive o prazer de ouvi-lo integralmente, só algumas músicas que tocam no rádio. Ela, artista muito competente, certamente fez algo de bom para as crianças.

SD - É complicado falar da sua carreira sem deixar de citar Vinicius de Moraes. Como é para você essa associação? O que achou do documentário que foi lançado sobre o Vinicius?

T - Vinicius era um homem que primava pela gentileza, principalmente com as mulheres. Preocupava-se com os amigos, muitas vezes ajudando-os até materialmente. Tinha uma forte ligação com a família, embora convivesse constantemente à mercê de sua poesia, impulsionado pela paixão. Dedicou sua vida à procura da mulher perfeita, do parceiro ideal, do verso adequado, da música mais bem elaborada, do amigo de todas as horas, sempre envolvido pela aura do Poeta. Para nós, a música vinha sempre atrás da vida. Fazíamos do trabalho uma grande brincadeira, curtíamos cada acorde, cada frase da letra, cada viagem. O disco, o palco, os músicos, o show, tudo era saboreado com gosto de festa. Quanto ao documentário, muito interessante e emocionante. Vinicius foi uma figura carismática, emocionada e intensa. É muito bom revê-lo; são recordações extremamente felizes.

SD - Em que momentos, hoje, você acha que músicos como o Vinicius mais fazem falta?

T - Apesar de ter sido um músico intuitivo excepcional, compositor de "Tomara", "Serenata do adeus", "Pela luz dos olhos teus", entre outras canções, é na poesia que Vinicius faz muita falta, especialmente porque muitas das letras de música de hoje perderam a fantasia, que Vinicius sabia muito bem manejar.

SD - Fale um pouco sobre sua parceria com o Gianfrancesco Guarnieri e sobre a perda dele?

T - Com Gianfrancesco, fizemos a música da peça "Castro Alves pede passagem", em 1971, além da música "Um grito parado no ar", que foi quase totalmente censurada - só sobrou o refrão... Além disso, fizemos música para a peça "Botequim". Estes três momentos de nossa parceria ficaram registrados num LP, lançado pela RGE em 1973. Guarnieri foi ator, diretor, teatrólogo, escritor, uma figura das mais importantes da resistência aos anos duros da ditadura, um símbolo da cultura brasileira desde a metade do século passado. Fica a lembrança do homem generoso, do amigo constante.

SD - Sobre a geração atual: ela bebe pouco ou muito uísque, ou seja, ainda há criatividade na música?

T - Claro que uma geração como a da bossa nova foi especial, mas há muita criatividade em nossa música popular. O brasileiro é extremamente musical e alguns de nossos novos artistas, como Zélia Duncan, Lenine, Zeca Baleiro, Samuel Rosa, Vander Lee, mantém a tradição de uma música popular brasileira de qualidade.

SD - Qual será o repertório e formato do show em Vitória? Já tocou aqui antes? Fica quanto tempo na cidade?

T - Quase todo ano vou a Vitória, sempre com alguma novidade. Agora, este show "dividido" com Yamandu, que fará a primeira parte. Depois, nos encontramos no meio do espetáculo e no final. Serei acompanhado pelo meu parceiro musical mais constante depois de Vinicius de Moraes, o baterista Mutinho, e pelo baixista Ivani Sabino, meu companheiro de mais de 20 anos de palco. Ficarei na cidade até domingo.

SD - O que conhece do panorama musical do Espírito Santo?

T - Infelizmente, quase nada. Sei que Roberto Carlos nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, e fez uma linda música sobre a cidade...

SD - Já tocou com o Yamandu antes?

T - Já me apresentei com o Yamandu em várias ocasiões, especialmente em um show, que chamamos de "Violões do Brasil", produzido pela Circuito Musical, que fizemos junto com meu saudoso professor Paulinho Nogueira.

  
Foto: Divulgação
  
Ao lado do grande parceiro Vinícius de Moraes
SD - Por fim, fale um pouco sobre os projetos futuros.

T - Neste segundo semestre, lançarei o kit (CD+DVD) "Passatempo", que conta o retrato de uma época musical que marcou minha infância e adolescência, a década de 1950, com músicas como "Eu sonhei que tu estavas tão linda", "O xote das meninas", "Eu não existo sem você", "Quero beijar-te as mãos", entre várias outras. Há também, nos extras, duas entrevistas especiais - com Cauby Peixoto e com Ângela Maria, grandes ídolos daqueles anos dourados do rádio.

Serviço

Show de Toquinho com apresentação especial de Yamandu Costa. Sábado (02), às 22h, no Ginásio Salesiano/Dom Bosco. Os ingressos custam R$ 320 (mesa para quatro pessoas) e R$ 80 ingresso individual. Estudantes e clientes Vivo que apresentarem o cartão Vivo Vantagens têm desconto de 50% na compra de ingressos, à venda nas Óticas Paris, telefone 3324-1555.


 

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