Vitória (ES), edição de fim de semana
 
'Não haverá disputa para o governo do Estado'
Hartung já tem sua vitória consolidada





Renata Oliveira


"A esperança é um empréstimo que se pede à felicidade".
(Rivaro)

O presidente da Câmara Municipal de Colatina, Geninvaldo Lievore (PT), faz parte de uma classe política que ainda acredita na recuperação da esquerda no País. Ele está certo de que o governador Paulo Hartung terá votação expressiva na região norte do Estado, sua área de atuação. A conversa dele com Século Diário girou, primordialmente, em torno das eleições no norte do Estado.

Lievore é bastante ponderado em relação ao Senado. Embora apóie o candidato Renato Casagrande - que é do mesmo partido de seu aliado no município, o prefeito Guerino Balestrassi (PSB) -, ele sabe que o páreo entre o socialista e o ex-governador Max Mauro será duro. Principalmente na sua região, mas acha que a estrutura oferecida a Renato e o apoio do governador Paulo Hartung possam decidir em favor do seu candidato ao Senado.

Nesta entrevista de Lievore, três vezes vereador em Colatina (atualmente preside a Câmara de Vereadores), o leitor vai conhecer também a arte de um homem de esquerda sobreviver politicamente num eleitorado conservador e fazer alianças conservadoras. Lievori, que pertenceu à corrente da deputada Brice Bragato no PT, não a acompanhou na ida do bloco para o PSOL. Ficou no PT e é hoje o petista de maior expressão no norte do Estado, de onde espera sair eleito deputado estadual.

Século Diário: - Como o senhor vê a sucessão estadual. A disputa pelo governo do Estado, mas regionalmente. Como está esta disputa na sua região, Colatina?

  
Foto: Riokan
  
- Já está consolidada. Paulo Hartung tem a maioria dos votos na região. Como ele já esteve em Colatina, como senador e agora como governador, isso tem influência na região. Como está também para presidente da República na região. Eu tenho trabalhado muito a agricultura familiar e o Lula está muito bem. Não há disputa para presidente e para governador, já está consolidado. Nesses 30 dias, nem uma tsunami vai alterar essa relação. Não há nem disputa, na realidade você não vê muita disputa nesta questão majoritária.

- O governador tem visitado o interior e a receptividade em relação a ele tem sido muito boa. O senhor acredita que esse bom desempenho dele se deve a essa presença maior dele nesta campanha ou já vem de longa data?

- O Paulo Hartung tem uma simpatia muito grande por parte da população. E ele tem ido a Colatina, principalmente depois que Guerino foi eleito. Ele tem uma relação muito permanente com o prefeito lá na região. E ele tem feito diversas obras, o governo mais presente no interior. Onde ele chega tem unanimidade. A resistência é minoritária no interior. De lideranças, sindicalistas, lideranças religiosas... ele tem uma...ele é bem querido.

- E a oposição?

- Olha, a oposição... nós temos alguns focos de oposição na cidade, principalmente do PDT, um grupo que tem feito campanha para o Max Mauro e para o Sérgio Vidigal. Mas não abala o quadro do governador na região.

- O governador não terá dificuldades, mas o páreo para senador não é fácil nem em Colatina nem em lugar nenhum do Estado. A pesquisa do Ibope mesmo mostrou isso. É claro que o senhor apóia a candidatura do Renato Casagrande, que é do seu grupo, mas como está essa disputa em Colatina, com o velho Max na rua pedido voto e conquistando eleitor?

- É uma surpresa, até porque o Max está na memória do eleitorado. Tem uma referência, que está difícil para o Casagrande bater isso. Essa é a grande dificuldade que eu vejo. Podemos ganhar com Casagrande por causa de todo o apoio do governador, dos prefeitos e lideranças políticas... pode reverter isso, mas Max está muito consolidado.

- Mesmo ele estando fora da mídia há tanto tempo?

- Mesmo ele estando fora da mídia, na região ele está consolidado. Não que esse quadro não possa ser revertido, há possibilidade de reverter essa eleição com envolvimento. Aí tem disputa. Para senador, nós vamos ter uma bonita disputa no Espírito Santo, porque são dois nomes que devemos respeitar. Vamos ter uma bonita disputa. Eu acredito que o Casagrande ganhe.

- Isso é seu coração que está dizendo...

- É meu coração que está dizendo (risos).

- Mas o que eu vejo é que o fenômeno do Max Mauro, é que ele não tem estrutura partidária. Ele está consolidado no eleitor diretamente. Como o senhor mesmo disse, ele está na memória do eleitor. Então não é fácil reverter um quadro desses. Mas o que o senhor está dizendo está correto, porque a eleição radicalizou mesmo é aí...

- Radicalizou... e é onde vai ter disputa, porque nos cargos proporcionais, deputado federal e estadual, não há disputa, porque todo mundo está fazendo campanha.

- Não há o embate direto, a polarização...

- Não há o embate direto. Mas aí o embate vai ser no Senado mesmo.

- Colatina. Aliás, vocês que já foram radicais, estão lá de braços dados com os conservadores de Colatina. E isso é interessante porque o Lula também está fazendo isso. Até o vice do Balestrassi, o Leonardo, que era um radical hoje está moderado, preparado até para ser prefeito. Vocês fizeram uma avaliação política de quem foi para o macro. Saíram do micro e foram para o macro. Como é essa convivência com o prefeito Guerino Balestrassi, que é um empresário e que tem uma boa imagem. Como vive essa aliança lá?

- A política é um aprendizado. O que eu aprendi nesses 25 anos de militância foi respeitar, inclusive os adversários, e fazer alianças. O PT em Colatina tem uma história, como poucos municípios do interior no Espírito Santo. Disputou para prefeito em 1982, elegeu um deputado estadual em 1986, disputou para prefeito sozinho, eu digo sozinho em 1988 e disputou em 1992. Depois disso, em 1996, fez a primeira aliança, nós começamos a apoiar o PPS, que tinha um candidato que não tinha nada nem de popular nem socialista, mas nós apoiamos, que foi o Eval Galazi, que foi depois para o PFL, para a turma do Gratz e deu no que deu. Mas o PT fez uma aliança, apoiou lá uma coligação com o PPS, PSB... foi ali que nós elegemos dois vereadores. Aí nós começamos. Eu fui eleito vereador em 96, junto com o Tadeu Marino, um companheiro do PSB. Então nestes quatro anos de gestão, de 97 a 2000, nós tivemos um embate muito grande na cidade, chegando ao ponto de eu ser o vereador mais votado da cidade em 2000, com 2.560 votos, segundo colocado com 1.400 votos e que, sobre esse acúmulo de forças nos propiciou em 2000 podermos dizer... olha, tinha três candidatos... Dilo (Dilo Binda), Eval e Marcelino (Marcelino Fraga). Nós ousamos e fomos lá, buscamos um professor, um pequeno empresário, que se filiou no PSB, e pensamos: vamos ter que ter uma alternativa. E começamos o PT e o PSB construir essa alternativa, com menos de meio por cento nas pesquisas, e diziam que o nosso candidato era "laranja", que nós iríamos ajudar a eleger Dilo Binda, que nós tínhamos que tirar nossa candidatura. Ouvíamos isso na rua. Nós fomos, o prefeito muito disciplinado...eu preciso falar com tantas pessoas, entrar nas fábricas, tenho o apoio do setor empresarial mais avançado da cidade lá, o professor da universidade, o empresário, de família humilde, mas já articulava, um bom articulador, ele é um político que hoje, ele articula, ele abre bem, articula bem com o governador, então é até uma surpresa para a gente.

- Vocês podem fazer o sucessor dele, o PT? O vice pode ser? O nome do senhor também estava cotado para ser o sucessor do Balestrassi...

  
Foto: Riokan
  
- Com certeza, os nomes colocados lá. O meu nome aparece, o nome do vice, mas nós vamos precisar ver que nome aglutina mais forças, porque nós estamos num processo de transição, de acumular forças... no País. Porque há uma cultura política de desinformação, de falta de conhecimento de o que é política. Então, quando você está num país com uma dimensão dessas você tem que saber qual a estratégia que você deve usar. A eleição de prefeito, claro tem mérito dele, do PSB, mas você tem, eu digo, 60% de mérito do PT. E alguns companheiro do PSB não acreditavam na eleição dele e nesse caso ficaram com o Eval. Nem todos do PSB estavam no palanque do prefeito em 2000. O PT estava unido. Elegemos dois vereadores, eu e a companheira Heloísa Pilão, em 2000. Só tinha um e passou a ter dois. Nem o PSB acreditava, tanto é que lideranças do PSB estavam com o adversário, Eval Galazi, que na pesquisa... saiu na quinta, porque eles não foram no debate, aí transferiram... como o Eval estava no último lugar, então esse grupo na última hora, eles trocaram de camisa, porque nós tínhamos chance e eles não queriam deixar o Marcelino ganhar. Porque nós ganhamos com 400 votos a eleição. Foi um negócio inédito ganhar aquela eleição. Foi surpresa mesmo, fenômeno. Tinha que registrar, nossa ousadia, sem dinheiro, ganhar uma eleição.

- E agora o Marcelino foi um grande adversário de vocês...

- Sim, ele é um grande adversário nosso.

- Ele é um dos elementos que fez vocês se juntarem, porque se vocês não se juntassem o Marcelino tomava conta da política em Colatina...

- Com certeza.

- Essa também seria uma luta titânica se o Marcelino não tivesse sido pego na questão do sanguessuga.

- Com certeza.