Vitória (ES), edição de 30 de janeiro de 2006    
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Nos "primórdios"



Oscar Vasconcelos
Atualizado toda terça-feira, às 16 horas


Se fosse para definir em uma palavra apenas, eu diria "espetacular"! Em todos os sentidos possíveis. "Primórdios", além de ser nome do novo show de Marina Lima que finalmente chegou ao Canecão, significa "origem", "fonte", o "ponto inicial" de algo, certo? Certo, eu vi no dicionário. Exatamente a partir dessa definição, eu sinto que esse título pode sutilmente passar duas mensagens distintas, aponta dois caminhos. Primeiro, o de encontro, reconhecimento e revalorização do que foi percorrido e, segundo, algo que se inicia a partir de agora, como se zerasse o "contador" e começasse tudo de um jeito novo e diferente, sendo o primórdio do que virá.

A expectativa geral para o show era alta, por tudo que se falou de positivo sobre a temporada paulista e o belo disco - "Lá Nos Primórdios" (2006) - gerado em conseqüência dele. E eis que após o anúncio da casa surgem modelos/bailarinas desafiadoras amparadas por um jogo de luzes e movimentos sincronizados e pela voz distorcida de Marina recitando um texto, adaptado por Alvin L, que tenta definir a arte. Na seqüência, de vestido preto, emergindo da imensa escuridão pelo canto do palco, com uma dose de "tensão", ela começa definitivamente com "Três". Timidamente, no mesmo clima, fixa o microfone no pedestal, emenda a ciranda "Valeu", e arrisca uma dança bem "de leve". Esse "primeiro ato", se encerra com uma magistral interpretação (inclusive teatral) de "Nervos de Aço" (Lupicínio Rodrigues), é um grande momento e o primeiro em que a platéia ovaciona a cantora. O "segundo ato" se inicia com uma Marina de postura e pegada roqueira, usando jeans básico, rasgando o palco com guitarra em punho, muita energia e movimento. Veio "Difícil" em sua versão mais nervosa, meio "tributo" à White Stripes e por fim a nova "Entre As Coisas". Público completamente seduzido e vem o "terceiro ato" e duas novidades. Vestidos vermelhos suspensos no palco, surge Marina e num momento "chapliniano" ao ser surpreendida pelo microfone que está sem volume, brinca, faz gesticula, faz mímicas enquanto fala sabendo que não está sendo ouvida. Quando tudo se acerta, ela se justifica, pede desculpas, e recomeça a "cena", sob muitos aplausos. Acaba "Vestidinho Vermelho" e já temos o cenário para "Anna Bela", preparado com a "sauna gay" feminina, as modelos como estátuas semi-nuas servindo de fundo para a bela canção. O próximo ato resgata o poema "Cobra" na versão do disco "Fullgás" (mas naquela época foi batizado de "Cícero e Marina", enfim...), e agora serve de introdução para "Bang Bang" (sucesso na voz de Nancy Sinatra, incluída na trilha de "Kill Bill") enquanto o telão exibe imagem de um casal de crianças que representa os dois irmãos, no palco apenas a cantora e a guitarra de Fernando Vidal. Daqui para o final, ela dá uma boa mexida no "baú", toca "Virgem" e "Acontecimentos" e traz um passado mais recente com "Paris-Dakar", o palco repleto de globos espelhados e Marina dançando "na pista" com um vigor de fazer inveja a muita gente. O momento mais "politizado" do show se deu com "$Cara" cuja letra é uma "direta" e depois com "Meus Irmãos" e a exibição de um vídeo - que praticamente ficou em primeiro plano nesse número, pois a cantora ficou de perfil/costas para o público como que "assistindo junto", tendo sua sombra projetada no canto embaixo do telão - com uma bela edição de imagens das mais diversas injustiças e misérias sociais e que, com reforço da letra da canção, fazem refletir profundamente. Com a aproximação do encerramento, ela emenda a autobiográfica "Pierrot", numa de suas melhores execuções já vistas e em seguida, no mesmo clima, com uma força extraordinariamente verdadeira, "Para Um Amor No Recife" (Paulinho da Viola), parece ser uma real confissão e um aviso latente, tipo: "olha eu passei um grande sufoco mas acabou! tô aqui dando a volta por cima definitivamente e quando vocês menos esperarem eu volto!" Teatralmente Marina sai do palco e entra sua gravação de "Ela e Eu" (Caetano Veloso) acrescida de violinos. No primeiro "bis" e que "oficialmente" seria o encerramento do show, temos mais uma vez a execução de "Três". Ao final, agradecimentos gerais, pedidos de desculpas por algumas falhas técnicas, a declaração sobre a alegria de estar de volta ao Canecão e para finalizar em grande estilo um versão de "Fullgás" bem "mexida" e para fazer todo mundo se mexer. Show definitivamente encerrado, luzes se acendendo timidamente mas todos esperando um "algo mais", quando pareceu que nada aconteceria, ela voltou e repetiu mais duas, "Paris-Dakar" e "Ainda É Cedo".

Como já comentei lá em cima, foi um grandioso show de uma artista ímpar da nossa música. É muito bom vê-la inteira em ação, se reinventando sempre com muita classe, domando o palco com estilo único, transbordando energia e sensualidade. Tomara que o retorno seja em breve.

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