Vitória (ES), edição de 07 de setembro de 2006    
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Notas estrangeiras
Andy Garcia faz com "A Cidade Perdida" sua anistia pessoal



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


Se algo de efetivamente novo aparece naquele que cruza uma fronteira, que categoria de emoções lhe serão agregadas quando essa fronteira for a de seu próprio país, quando esse caminho for feito de maneira definitiva, sem previsão de retorno, forçando o estrangeiro a se tornar familiar, tendo o lugar natal cortado qualquer espécie de parentesco e vínculo? Pois é exatamente esse sentimento do exilado que impregna "A Cidade Perdida", de modo tão profundo e disseminado que nada no filme de Andy Garcia possa negar essa origem - das implicações políticas tramadas pelo roteiro até a mais simples encenação dramática, posição de câmera, presença ou ausência de música, tudo ali se refere a esse ponto-de-vista interior que foi, abruptamente, jogado para fora, e que dessa posição nova tenta voltar o olhar àquilo que um dia lhe fora próximo. No caso de "A Cidade Perdida" esse trajeto do olhar sofre duas influências decisivas. A primeira delas é que esse retorno a Cuba, pretendido pelo filme, é, na prática, impossível.
  
Foto: Divulgação
  
Fechada àqueles que saíram logo após a queda do regime de Fulgêncio Batista, durante a ascensão de Fidel Castro, e fechada também às investidas da indústria cinematográfica americana, esta Cuba não esconde nunca que foi "inteiramente filmada na República Dominicana", como dizem os letreiros dos créditos finais. Não que a direção de arte do filme tenha falhado em recriar os ambientes da ilha e que isso denuncie esse deslocamento físico da história do lugar que é para o lugar que se parece com aquele que é. Andy Garcia aqui assume essa impossibilidade da Cuba real como um fator intrínseco à própria idéia do exílio, e transforma tudo aquilo que filma não no país que deixou para trás, mas no país que levou consigo, o país da memória, o país do sonho. A Cuba de "A Cidade Perdida" existe somente no próprio filme, e não tanto uma fuga do confronto com a realidade da ilha, mas um choque direto com a realidade daquele que foi exilado dela poderá vir daí.

Por isso chamar "A Cidade Perdida" de autobiográfico diz muito pouco a respeito da materialidade do filme. Há sim uma coincidência de destinos entre o Fico Fellove da encenação e o Andy Garcia que o põe em cena, mas a preocupação com os fatos aqui parece ser menor (ainda que não seja nula, longe disso, bastando lembrar as reconstituições dos grandes momentos políticos dos anos 50, todos eles vistos de dentro dos palácios de governo e dos quartéis-generais dos revolucionários). Mais que a identidade de modo, Garcia busca a identidade de sentido, e dizer que seu filme é fruto primeiro de seus sentimentos como personagem da história (do país e de si mesmo) é tão claro como clara é a idéia de que todos os autores tiram daí o produto de sua arte, no que toda obra produzida seria, em algum grau, autobiográfica. Aqui nos encontramos com a segunda influência fundamental à construção dessa cidade perdida: a língua corrente na Cuba de Andy Garcia não é o espanhol, mas o inglês. Parentes, populares, e até mesmo Che Guevara e Fidel falam inglês, muitas vezes nem mesmo preocupados em disfarçar um sotaque latino para aproximar as falas da idéia de uma matriz castelhana. Mais do que uma imposição da prática de mercado em que o filme se insere, financiado por um grande estúdio americano e visando exatamente o público daquele país, arredio a qualquer tipo de língua estrangeira ou legendagem, fica a impressão que, mesmo se fosse uma produção independente, sem nenhum tipo de obrigação com lucros ou bilheteria, e portanto livre para manter o espanhol nos diálogos, Andy Garcia teria optado pelo inglês. Esse ruído central na reconstituição de seu país aparece como síntese de todo o espírito do exílio: o deslocamento da idéia de "minha pátria é minha língua" se radicaliza, pois não há língua (apenas um código estrangeiro adotado como tal), nem mesmo pátria (apenas a memória de uma). A cidade de Andy Garcia se perde exatamente no meio do caminho entre a terra natal e a terra futura, e seu filme parece preso a essa condição de eterna transitoriedade.

Ficamos entre o musical clássico das seqüências no clube de Fico Fellove e o registro realista das cenas de guerrilha e ataques revolucionários, entre o drama íntimo da família que se desfaz com a ruína da Cuba antiga e a ficção épico-alegórica que tenta dar conta da História com H maiúsculo, e mesmo os saltos bruscos de uma freqüência narrativa à outra acabam eventualmente se suavizando por se mostrarem, desde sempre, como expressões legítimas dessa transitoriedade. Andy Garcia já se assumira como o terreno dessa confusão, dirigindo o filme, interpretando o protagonista, escrevendo a trilha sonora. Quando seu personagem entra definitivamente no jogo da revolução, não por ímpeto político, mas por uma contingência moral, pela tentativa de resguardar sua família, de tirá-la do meio do caminho, tentativa essa frustrada no fim das contas, Fellove/Garcia assumem integralmente o olhar da câmera. O ex-boêmio, empresário do entretenimento, agora clandestino em seu país, prestes a imigrar, destinado a um subemprego na América, compra uma câmera de filme Super8 e começa a registrar as imagens da transição. Se até ali "A Cidade Perdida" mantinha um certo equilíbrio narrativo, preocupado em desenvolver tramas e personagens, um tanto assustado com certas representações (se Fulgêncio Batista e Che Guevara são incorporados por atores, aparecem inteiros na tela, com rosto e expressões, nunca vemos integralmente Fidel Castro, sempre aparecendo de costas, enquadrado em diagonal de modo a apenas percebermos sua existência, mas ainda difícil de ser encarado de frente), ao mesmo tempo preocupado em ser correto com as várias faces históricas de que pretender dar conta, no momento em que a imagem do filme vira a imagem que o próprio protagonista faz de sua nova vida, Andy Garcia se expõe por inteiro, empresta sua figura ao filme, de modo a tornar impossível qualquer dissociação, sai da autobiografia e chega na autoria.

  
Foto: Divulgação
  
As gravações caseiras dos topos dos prédios de Nova York, os fotogramas da paixão que teve que deixar para trás na fuga de Cuba, o medo, as lágrimas, a alegria, está tudo lá, e "A Cidade Perdida" não esconde que quer - mais que isso - que precisa se emocionar com aquilo. A seqüência final, lente da câmera e olhos do espectador igualmente mareados, é uma declaração de princípios, uma declaração de amor que assume todos os problemas exibidos nas duas horas anteriores, dizendo que a idéia de uma resolução dessas confusões nunca foi realmente pretendida. "A Cidade Perdida" queria mesmo ser espaço para o testemunho de um artista sobre aquilo que o move a seguir fazendo o que faz, e nessa seqüência final Garcia/Fellove, pela primeira vez, usam o espanhol pátrio. O som das palavras de um poema declamado pelo diretor/personagem se junta ao mambo de Israel "Cachao" López, um dos inventores do ritmo, igualmente exilado, sobre quem Andy Garcia fizera um documentário em 1993, sua primeira direção no cinema. Cachao comanda uma orquestra, e Garcia simplesmente dança aquela música, passos improvisados na subida de uma escada, e é como se todo o filme fosse uma preparação para esse número final, momento em que o projeto estético de "A Cidade Perdida" se soma ao projeto pessoal de seu diretor, expressões inseparáveis desse filme-diário, falível, às vezes atrapalhado, mas que pede a cada minuto por um abraço daquele que o vê. A dança de Garcia torna insuportável a distância: ou repele o espectador indisposto ou garante, junto àquele que apostou em suas inconstâncias, o mais longo e apertado abraço que se possa dar.

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