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Foto: Joselito Feitosa
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O cheiro de mato em pinceladas atômicas de neve, uma neve que nunca vai existir, a não ser que o tempo agradeça a si mesmo, como forma de contemplação absoluta. E nunca vai se descrever, nem num romance. Quanto calor abençoado. Estar em Cajazeiras é sentir algo imprevisível, mas esperado de outra forma, num sentir descoberto. Um acalanto. É decisão, de qualquer forma, até de dormir.
Perguntei, certa vez, a Seu Tico, o que o levou a ser tão obstinado por briga de galos. Ele me olhou, respirou levemente, contemplou o firmamento. Estou diante de um profeta, arrisquei. É para me divertir, que é bom, e apostar, que é bom também. Respirei fundo, tão fundo que deu para sentir minha expectativa. Onde Deus está para Tico? O vento uivando, algumas partículas de ansiedade: era Seu Francisco de Assis cujo sobrenome eu nem perguntei, mas que, antes de pensar em qualquer familiação, hesitei.
Estar em Cajazeiras é decidir sobre ver ou não o Sol se pondo no Açude Grande. Olha, se eu fosse você, veria. Sim, pois de manhã, bem de manhãzinha, o galo canta, canta, canta, canta, numa sinfonia desesperadora e feliz ao mesmo tempo, um tempo de neve que nunca vai existir. Também um tempo guardado na memória de cada um, mesmo que seja galo, galinha, gente, Tico ou ninguém.
Uma sinfonia galinácea, das melhores, é a aposta que se faz todas as manhãs, antes de o Sol se despedir do Açude Grande e contemplar bichos de outro mundo, do outro lado, outras brigas. Enquanto isso, alguém pode crer que se galo cantar em horário imprevisto, uma catástrofe. Agora mesmo Seu Tico deve estar fora de si, de tanto prazer que ele sente em preparar seu time. Deve estar esquiando, numa montanha de neve que nunca vai existir.
Se eu pudesse, compraria Beto, o galo preferido do fazedor de rinha. Como não se briga sozinho, como não é possível nevar em Cajazeiras, como não é possível mudar certos hábitos sem o mínimo de tempo, Tico Francisco agora faz questão de não saber da beleza do Sol se pondo. Prefere criar mais companheiros para Beto. Todos brigam, bem felizes, satisfeitos e desengonçados.
Eles cantam, sim. Mas o ritmo é de guerra. Alguns guardam o grito para a vitória na rinha, ao bicarem escandalosamente o adversário, no pescoço, um beijo de morte, um pão bolorento na vitrine. Quero matar o tempo, melhor. Estou esquiando. Até nem os colocaria numa panela, num almoço, numa comemoração. Conviveria com eles, ensinando-os a orar. No idioma deles, a quietude, até se transformar em canto.
Beto, Vermelho, Caquinho, Chula e Pião compõem o time mais estranho e imprevisível. Não é bem uma equipe. É como se todos os outros fossem reservas no banco e Beto fosse o grande fenômeno, num tempo só. Seu Tico, o treinador. Se eu pudesse, aliás, roubaria o time inteiro, seqüestraria Tico por alguns minutos de fim de tarde somente para contemplarmos o que é tão imprevisível: a nave solar, com seus toques ruborizados, à espera. Um chute na canela do treinador, que foi expulso de uma hora para outra. As pinceladas e os arroubos do Sol são tão silenciosos que se tornam impactantes. Quem nunca se engasgou com um exemplo de silêncio venha me dizer.
O Sol está ali dizendo, ora laranja, num choque de impermeabilidade. Sem planos para além-sertão. Ora cor-de-rosa, num sanduíche de sensações. Para que brigar, Seu Tico? É por dinheiro também, um tostão de sangue. Quanto custa um galo desses tão metido a valente, ele não disse. Tratou como brincadeira. Não respondeu, mas talvez soubesse o que perguntar. Aí também não perguntou. Em poucos segundos, soltou um riso. Coçou a virilha. Poderia coçar a consciência. Silêncio. O ringue está aberto. O time briga entre si, como numa comunhão terrorista. Que coisa feliz para Tico, que de generoso tem tanto: os galos todos nutridos com o melhor das sobras de comida recolhidas da vizinhança.
Perguntei se eles cantavam de manhãzinha. Claro, respondeu, quase denunciando minha ignorância no assunto. Eu não imaginava que cantavam como os outros que não brigam. Cantam sim e querendo brigar de novo, respondeu o agenciador. Fiquei muda por um tempo, o mesmo tempo desconhecido e silenciado pelos galos pacíficos. Se eu pudesse, além de comprar Vermelho, Caquinho, Chula e Pião e, lógico, Beto, o mais arrebatador e brigão, deixaria todos de castigo, sem briga. Ao mesmo tempo, um tempo que jamais será de neve em Cajazeiras, um tempo de nunca adeus ao Sol, obrigaria Seu Tico Francisco a reconhecer a natureza com o que ela tem de melhor, gratuitamente, sem rinha, sem controvérsia, apenas o respeito pela sobrevivência.
O senhor vive disso, afirmei mais ou menos perguntando. Ele olhou, ajeitou o boné com a propaganda clara de um político, e sorriu outra vez. Não, respondeu. Sou aposentado há muito tempo, completou. Pigarreou. Cuspiu. Fiquei satisfeita com a resposta, o que me deu um tempo para pensar numa outra pergunta, ao mesmo tempo em que tive a certeza de só agüentar neve pela televisão ou num belo filme qualquer. Tive a certeza de não poder convencer Tico de que a convivência pacífica com a sinfonia galinácea de manhãzinha seria bem melhor, num tempo em que ele poderia ser mais solidário com sua aposentadoria.
Senti medo de todos eles, mas, principalmente de Beto, o fenômeno. Ainda não consigo admitir gratuitamente fenômenos assim, em clima de rinha, educados para atacar, educados para um show sem grandes efeitos especiais, sem tempo para terminar. Fenômenos construídos e preparados são perigosos mesmo.
As unhas deles são enormes, esqueci de mencionar. Também não apresentam aquela crista vermelha e suntuosa. Cada crista é arranhada, quebrada, ferida, repartida, triste, longe do Sol de pondo. Longe da paz. Os apostadores também se comportam como Vermelho, que briga com um tempo de sobreaviso, aquele quando a gente mulher espera a menstruação, todos os meses, com ou sem briga, com ou sem Sol.
Um dos apostadores, suado, com a camisa do Botafogo no ombro esquerdo, parecia cansado, mas não para apostar em Chula, uma espécie de absurdo encarnado, depenado aos montes e com um olhar sanguinário. Um time que se arranha por instinto. Por acaso é assim o bicho humano. Por instinto, argumenta. Por instinto, sobrevive, num tempo em que jamais saberia fazer outra coisa.
Seu Tico, por favor, troque esses galos todos por uma bicicleta. Não sugeri, não foi bem sugestão. Ele parou um pouco. Não riu mais, sentiu-se ofendido. Uma bicicleta não compra um time inteiro. Muita estupidez, essa minha. Engoli aquele clima de guerra por um bom tempo, até o tempo de chegar em Cajazeiras, ter consciência que não quero ver neve a não ser de longe ou miticamente, que sofro com um reumatismo tão estranho quanto o dorso de Pião, um galo-caramujo. E que não posso convencer o treinador.
Sim, e que questiono se o leitor nunca pensou em torcer numa rinha, mesmo não apostando. Se já, ótimo, vou ficar em silêncio. Vou admiti-lo como torcedor que não conhece mesmo o Açude Grande e o Sol que por lá se põe. Muito menos curte com rigor ou devoção a sinfonia de manhãzinha. Uma sinfonia que não deixa de ser uma disputa, mas harmônica, com crista e tudo.
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