"Pai, sabia que em Manguinhos não tem inverno?". É a pequena Tami, toda enrolada por roupas de lã para se proteger do frio do Sul, sugerindo que a gente aproveite o feriadão da Independência para dar uma escapada ao Espírito Santo.
Surpreso com sua sabedoria - tem apenas quatro anos que chegou a esse mundo velho sem porteira -, indago de onde ela tira tanta convicção sobre o clima de Manguinhos se esteve apenas uma vez, por alguns dias de julho 2004, na bucólica praia capixaba. "Em Manguinhos não tem inverno", ela repete, com a certeza dos inocentes.
Não se discute com uma criança. Convencido de que é preciso respeitar as fantasias infantis, sob pena de substituí-las por traumas, decido não lhe dizer a verdade sobre a real existência do inverno em Manguinhos e no Espírito Santo. Um dia, quando estiver maiorzinha, ela descobrirá sozinha que o frio também chega até os capixabas, mas com outro nome - vento sul. E que dura três longos dias, no más. Às vezes, nem isso.
No Sul, onde o frio começa em abril e se prolonga até outubro, ninguém acredita que em pleno mês de julho se pode tomar banho de sol e dar um bom mergulho no mar no Espírito Santo. Os capixabas sabem que não é incomum banhar-se no inverno.
De minha parte, posso dizer que há décadas busco uma explicação satisfatória para o fenômeno da quase inexistência do inverno no território capixaba. Quando eu era criança, algumas décadas atrás, muitos boletins meteorológicos terminavam com uma frase misteriosa: "...e a frente fria dispersou-se no Espírito Santo".
Desde tenra idade, portanto, sempre quis saber qual o estranho poder do estado capixaba para conseguir desmanchar sucessivas frentes frias. A resposta, bem, essa depende de investigações que pretendo realizar em época mais propícia, com a ajuda de pesquisadores e instituições capixabas. Um dia, instalado quem sabe num chalé de madeira, entre a serra e o mar, capiscarei finalmente o mistério das correntes marinhas que banham as costas capixabas.
Por enquanto, cabe-me registrar minha vasta e lamentável ignorância climática, no que me igualo à maioria dos habitantes da Terra nesse início de século. Neste momento, a duas ou três semanas da primavera, um frio de um dígito centígrado nos acua dentro de casa, dando a entender que o velho Inverno chegou para dar um basta nessa anarquia meteorológica. Até quando?
Na prática, desde fins de julho a Primavera já se insinuava em nosso cotidiano. Enganadas pelo calor, as laranjeiras soltaram suas flores. Em agosto já se viam pessegueiros em flor. E os passarinhos se assanhando, loucos para acasalar-se.
Agora, com essa onda tardia de frio, pode ser que as geadas de setembro acabem com os frutos da primavera precoce, mas disso tudo resta um consolo: parece que a Natureza não está tão desarranjada assim. Mesmo um pouco atrasada, ela se manifesta e vem talvez colocar os pingos nos is.
Por isso ninguém se assegure de que já ganhou. Tem algo realmente estranho nessa pasmaceira eleitoral, como se o tempo estivesse para mudar. Veja como as nuvens se movimentam. Observe a próxima frente fria.
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