"Aqueles que tratam de política e moralidade
separadamente nunca compreenderão nenhuma das duas."
(Jean Jacques Rousseau)
Nosso entrevistado deste final de semana, o economista Guilherme Lacerda, apresenta um vasto currículo. É diretor-presidente da Fundação dos Economiários Federais (Funcef), terceiro fundo de pensão em patrimônio do Brasil, vinculado à Caixa Econômica Federal. É professor doutor licenciado do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Também é membro do Conselho de Administração da América Latina Logística (ALL), desde junho de 2006.
Foi presidente do Conselho de Administração da Brasil Ferrovias e Novoeste Brasil, de maio de 2003 a junho de 2006. Foi secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Indústria e Comércio da prefeitura de Belo Horizonte (1993/1994), diretor de Operações do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) (1995/1998), secretário de Planejamento do Estado do Espírito Santo (1998) e secretário de Finanças da prefeitura de Vila Velha (2000/2003).
Mas, no seu currículo, apresenta-se também uma característica que o Estado conhece. Lacerda é um dos nomes fortes das articulações do PT. Nesta entrevista, ele deixa em aberto uma possibilidade que se aproxima: a de disputar a prefeitura de Vila Velha nas próximas eleições. Em 2006, ele quase teve seu nome lançado para deputado federal, mas acabou se decidindo por outro tipo de política: a dos bastidores, das visitas a lideranças e redutos do partido. Partido, aliás, que, segundo o economista, precisa continuar chamando a sociedade para discutir a importância da organização na política, assim como da unicidade ideológica.
Século Diário: - O PT no Espírito Santo, que tinha uma expectativa com um nome para governador, o do deputado Cláudio Vereza, acabou embarcando na candidatura do governador Paulo Hartung, ficando num isolamento em relação aos antigos aliados, que eram os prefeitos da Serra e de Vila Velha. Parece-nos que isso está prejudicando as candidaturas proporcionais do partido. Como é que o senhor analisa isso?
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Foto: Ricardo Medeiros
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Guilherme Lacerda: - Realmente, há um primeiro ponto a ser colocado. O Brasil, isso vale para todos os estados, mas vamos nos referir ao caso do Espírito Santo... O Brasil tem problemas, o maior de todos é o problema da organização política. Então, se você olhar os quadros no Estado você vê as composições mais díspares. Não tem uma unicidade ideológica, não tem uma referência de histórico de atuação entre os partidos. Nós temos uma miscelânea e, nesse sentido, acabam sendo prejudicados diversos segmentos que procuram se organizar. Acho que não ter um candidato a governador e não ter uma definição clara de parcerias, de composições políticas, acaba prejudicando, inclusive na cabeça do eleitor. O eleitor, cada vez mais, vai se definindo por nomes de pessoas e não por partidos. E como nós sempre tivemos historicamente uma referência muito grande em termos partidários, em termos de programa, isso acaba sendo penalizado. Acho que o Espírito Santo é um exemplo claro disso. Nós temos aqui uma salada de frutas para todos os gostos.
- Tudo girando em torno de Paulo Hartung, que conseguiu, com a candidatura de Renato Casagrande, que é do PSB.... O lucro seria do PSB e não do PT...
- É verdade que já não é a primeira vez que o PT fica nessa situação. Podemos dizer, é a terceira vez que nós nos colocamos sem ter uma referência em termos de governador. Na eleição anterior, tivemos para senador apenas. Então, isso traz uma situação deficiente. Eu acho que, apesar de tudo, temos que jogar peso fundamental na campanha do Lula, porque, no meu entendimento, o determinante maior das transformações do Espírito Santo, transformações nos diversos quadrantes, a base econômica central aí, foi a mudança que ocorreu no País quatro anos atrás. Quando o presidente Lula foi eleito, abriu-se uma nova etapa para o Espírito Santo. É verdade que há outros vetores, como vetores de gestão... Mas é preciso ressaltar a importância do presidente Lula. Eu acho que o capixaba, se tivesse realmente uma clareza da situação, o capixaba que gosta do Espírito Santo, não deixaria de votar no Lula. Lula foi fundamental para a mudança do Espírito Santo.
- Lula não precisaria de Hartung. Lula tem quase 50% dos votos do Espírito Santo. Então, o PT daqui poderia dispensar Paulo Hartung porque teria Lula. Seria o momento mais oportuno para que o PT crescesse. No entanto, o PT jogou com as suas necessidades, que é reeleger Coser.
- Passei o último final de semana rodando, fui para o interior, fiz contatos, ajudando companheiros do Estado, e percebo que a referência em torno do presidente Lula é muito grande. Da grande maioria das pessoas que nós abordamos, uma percentagem muito pequena teve uma resistência, uma indisposição com o nosso convite de reflexão política. E, é verdade também, Lula, por diversas razões, acabou se colocando numa posição muito maior do que o Partido dos Trabalhadores. Essa negociação que ocorreu em nível de estadual, de não termos um governador, foi uma negociação que tem que ser considerada no âmbito, inclusive, da disposição das pessoas, lideranças que nós temos e que tinham disposição de sair, avaliaram que não seria viável. No máximo tenha vontade de ser candidato, tem que ter uma condição política. O partido aqui vem se reconstruindo. Conseguimos eleger cinco prefeituras, duas na Grande Vitória, mas o partido ainda está numa fase de reconstrução que não permitiu esse salto para uma candidatura a governador. Evidentemente, também, isso é definido em função de desejos, de projetos de determinadas lideranças. É uma conjunção de fatores. Acho que estamos empenhados em fazer de tudo para mostrar à sociedade que, apesar da resistência da elite, apesar da resistência dos bem nascidos, dos grupos bem mais situados na sociedade, eu vejo que é fundamental para o Espírito Santo e é fundamental para uma boa gestão do Espírito Santo, seja quem for, seja quem estiver à frente, que o presidente Lula ganhe e tenha um bom mandato.
- Há a posição de "neutralidade" do governador. Vocês tinham uma de expectativa que o governador subisse no palanque do Lula?
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Foto: Ricardo Medeiros
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- Nosso papel é cobrar da sociedade e das lideranças que estamos envolvidos, que estamos dando um apoio, não estamos coligados. Estamos dando apoio. Então, há uma coligação que tem partidos com um outro candidato a presidente. É uma situação muito atípica. É um candidato a governador que tem uma coligação e que tem o nosso apoio. Eu acho que precisamos construir uma lógica política com mais clareza, certo? Pelo menos, eu acho que essa não-vinculação, essa verticalização trouxe muitos prejuízos para a organização partidária no Brasil. Você tem um partido que tem o apoio de um segmento, que tem apoio do outro, acaba tirando a clareza político-partidária e programática porque são duas propostas totalmente diferentes, em nível de presidente da República. São duas propostas totalmente diferentes. Infelizmente, essas diferenças chegam à sociedade com essa clareza porque há essa mistura partidária, uma coligação de um lado e um apoio de outro, outro do outro.