"Fique calado quando não tiver nada a dizer; quando a paixão genuína te mover, diga o que tens a dizer, e diga com calor."
(D. H. Lawrence)
Nossa entrevista deste final de semana é com uma colega de profissão, Maria Elena Azevedo. O nosso objetivo foi abordar a construção da matéria "Um crime e seu entorno", publicada no site "Congresso em Foco", de Brasília, no último dia 30 de março de 2007. O tema começou a instigar a repórter, desde o início do caso, após o assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, em março de 2003.
Pode-se dizer que Maria Elena passou mais de três anos amadurecendo a sua matéria. Durante esse trajeto, até a publicação do texto, a repórter foi conseguindo documentos, até que, ao se debater com a omissão de parte da imprensa capixaba, tomou outro rumo. Resolveu, por um período indeterminado, deixar o trabalho de assessora da deputada Iriny Lopes e partir para a apuração dos fatos que levaram ao assassinato do juiz.
A jornalista chegou a oferecer a matéria para uma revista de São Paulo, mas não houve acordo. Foi aí que ofereceu o material para o site, por sinal editado por um capixaba, Sylvio Costa, que gostou do que leu, desde que fossem ouvidas mais algumas fontes. Maria Elena topou e realizou um trabalho digno de elogios por parte da classe jornalística. Ser jornalista, para ela, é sinônimo de coragem, ainda mais quando se trata do que elegeu como paixão, o jornalismo investigativo.
Confira a entrevista e, ao final, acesse a matéria de Elena na íntegra.
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Foto de: Ricardo Medeiros
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| Viva Lena Azevedo!
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Século Diário: - Como foi que você começou a juntar as informações, até construir a matéria?
Maria Elena Azevedo: - Fui para Brasília em 2003, pouco antes do juiz Alexandre morrer. Mas eu já acompanhava um pouco da Missão Especial quando esteve aqui. Quando o Alexandre morreu, que eu estava em Brasília, fui para lá e, como jornalista, muita gente me dava muito documento. Promotores me deram documentos... Quando Alexandre morreu, várias fontes me mandaram documentos. Aquela prisão dos militares, a história da arma... Aquilo já existia desde 2003. Então, a minha "diversão" em Brasília era pegar esses documentos e ficar estudando. Não tinha documentos desse caso específico, mas também outros. Para se entender a lógica do crime organizado por aqui. É claro que são várias partes que se interligam.
- Um quebra-cabeças...
- Um quebra-cabeças. Isso mesmo. Mas o caso específico do Alexandre me incomodou desde o início e começou a me incomodar mais em 2004. Nos bastidores, todo jornalista sabia do depoimento de Júlia Eugênia, sabia do depoimento do Thor, e isso não saía na imprensa. Uma vez chegou a sair, mas muito discretamente e porque a defesa, não sei se do coronel Ferreira ou do juiz Leopoldo, tocou. Aí teve questão de segredo de justiça no caso e, mesmo saindo na imprensa, saiu sem pé nem cabeça. Não sei teoricamente qual era a motivação do vice-governador à época, Lelo Coimbra, ou do governador. Interesse direto ou indireto na morte do Alexandre. As matérias não explicavam isso. E isso me causava um certo incômodo. Eles colocavam os pedaços dos depoimentos e não explicavam nada. O básico da investigação da polícia é que crime tem que ter motivação. Aliás, aquilo que apareceu no jornal não dava nenhuma dica. Só confundia, na verdade.
- Ao mesmo tempo que silenciavam, confundiam.
- Exatamente. Quando não era possível silenciar. A imprensa foi o foco nessa questão política e econômica. Então, quando queriam silenciar, cortavam-se os depoimentos, de forma que não tivesse lógica nenhuma. E não tinham mesmo. Então, eu tinha parte dos depoimentos, tinha fontes. Como jornalista, não posso deixar de ter fontes, não é? A relação com a fonte é uma relação de confiança. A fonte deu um depoimento, uma declaração, então se estabelece uma relação de confiança. Entrar num assunto desses não é com qualquer um. Veio 2005 e, aí, houve uma pressão da sociedade. Havia duas linhas de investigação que eram patéticas, para dizer pouco. Uma culminava com latrocínio, que não tinha nenhuma sustentação. A segunda falava em crime de mando, mas não apresentava os mandantes.
- Não levaram em consideração o depoimento, por exemplo, da personal trainer...
- Não levaram em conta nada. Diziam que era crime de mando, mas não apontavam o mandante, quem era o pagador do crime. Aí, com essa pressão surgiu o Leopoldo. Até aí, a tese está perfeita: Leopoldo, Ferreira, Calu... Eu tenho absoluta certeza, pelo que já li, pelo que já vi, pelas pessoas as quais entrevistei que eles têm, de fato, envolvimento no crime. Só que aquilo não parava ali. Jornalista conversa muito com jornalista pelos bastidores, então...Esse incômodo foi o que me moveu. Eu estava fazendo assessoria de imprensa e, portanto, não estava na mídia. Cheguei até a passar para a imprensa, para algumas revistas de fora, para ver se eles se animavam a publicar, mas... É uma história muito complexa para quem é de fora entender. Não é fácil explicar esse esquema todo.
- São muitas peças.
- Muitas peças de um quebra-cabeças, realmente. Aí, desde o final do ano passado, eu estava com vontade de voltar a escrever e em assessoria isso não era compatível com o trabalho que eu estava fazendo.
- Outra dinâmica.
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Foto de: Ricardo Medeiros
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- É. Eu já havia falado com a Iriny que eu estava querendo deixar a assessoria por um tempo, pelo menos por um tempo, para voltar a escrever. Eu sinto falta disso. As matérias, quando eu lia... Eu via que elas não estavam do jeito que eu achava que poderiam ficar. Então, há essa frustração. De repente, você dá um material legal para alguém, mas a matéria nunca fica do jeito que você acha que ela poderia ficar. Eu falei que ia me afastar da assessoria, nem que fosse por um tempo, para voltar a escrever matérias. Daí, foi tudo numa boa e eu comecei a apurar esse caso. Era uma oportunidade de tocar num assunto que me incomodava há anos e eu não via resposta, um tratamento satisfatório por parte da imprensa. Eu já tinha os documentos e comecei a fazer um mapeamento. Pensei: 'Com quem eu vou conversar, que seja alguém que não me ponha em risco também.' É um assunto delicado. Dependendo da fonte que você entrevistar, essa fonte pode falar para outra pessoa que pode colocar sua vida em risco. Mapeei fontes. É aquela coisa de escolher muito bem as fontes e fazer aquilo de uma forma bem sigilosa também, bem discreta, até se chegar a uma certa versão da história. Aí, fui checando com outras pessoas também. Bom, se três pessoas colheram o depoimento do Thor, eu tinha que, na verdade, checar informações. Bater as declarações, saber se se confirmava aquilo que eu tinha condições de, minimamente, provar com documentos. Com esse tipo de matéria, você fica suscetível juridicamente. Eu trabalhei numa forma de ter uma retaguarda jurídica e também não deixar o site numa enrascada.