Vitória (ES), edição de 17 de abril de 2007    
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Rastros da Tropicália



Henrique Alves


  
Foto: Divulgação
  
Sabe-se lá quando vai acontecer de novo: em duas semanas, Vitória recebeu três das mais representativas cabeças de uma dos principais movimentos artísticos brasileiros, o Tropicalismo. No dia 30 de março, uma sexta-feira, Jorge Mautner se apresentou na Estação Porto. Duas semanas depois, Caetano Veloso veio nos mostrar seu novo trabalho, . Foi na última quinta-feira (12). No dia seguinte, Tom Zé fez show na Estação Porto.

Para que esse efêmero, mas intenso, calendário cultural tão específico e atípico em nosso estado não passe em brancas nuvens, vamos aqui fincar em nossas memórias passagens dos shows que merecem destaque.

Mautner, 30/03/07

- Dos três, Jorge Mautner é o único de quem tínhamos lembrança de uma passagem recente pelo ES. Em 2006 ele já tinha estado por aqui. Mesmo assim foi bom vê-lo tocar, cantar, declamar. Nem é preciso dizer que foi muito bom vê-lo cantar Maracatu Atômico, ainda mais acompanhado por Nelson Jacobina, co-autor da canção junto com Mautner e seu parceiro de palco naquele dia.

- Na parte final do show, a platéia, que estava sistematicamente espalhada pelo galpão, concentrou-se em frente ao palco. Numa ação espontânea, de repente a frente do palco estava cheia de gente. Todo mundo cantando e dançando. Surpreendeu inclusive o próprio Mautner.

Caetano, 12/04/07

- Como foi na semana passada, a memória ajuda. Primeiro: o Ginásio Dom Bosco estava cheio. A pista, as mesas, a arquibancada. A incidência roqueira no novo show de Caetano ficou clara: quem escolheu a pista se deu bem, pois rock n' roll é ficar de pé no gargalo. Caetano estava pertinho lá em cima.

- Por isso, não por acaso, a pista era composta em sua maioria pela juventude alegre e feliz.

- Os músicos são precisos, econômicos, minimalistas. Tudo condizente com a "incidência roqueira do novo show de Caetano".

- O figurino do baiano também se encaixou nesse espírito rock. Caetano estava apenas de calça jeans e camisa pólo. Aquela com poucos e matemáticos buracos. A pólo, não: de um azul surrado, estava evidentemente puída nas pontas das mangas e na gola.

- Antes de mais nada: o show foi ótimo.

- O baiano estava em boa forma. Andava e corria de cá para lá e de lá para cá atiçando o público, chamando para participar da festa.

- Nine Out of Ten (Transa, 1972) foi dedicada a Jards Macalé.

- Caetano cantou quatro músicas que são peças raras em seu repertório: a já citada Nine Out of Ten, You Don't Know Me, do mesmo disco, Fora da Ordem (Circuladô, 1991) e O Homem Velho (Velô, 1984).

- Quem conhece, bem, Fora da Ordem percebeu: o compositor substituiu "ianomâmis na floresta" por "curdos na montanha". Miséria é miséria em qualquer canto.

- Os "sucessos", daqueles que agradam a todos os gostos, foram: Sampa, Desde que o samba é samba e London, London. Mas todas sem violão, com roupa nova, só guitarra-baixo-bateria. Desde que o samba é samba, por exemplo, começou só com uma guitarrinha ao fundo. Aos poucos os instrumentos entraram.

- Nada em Caetano é à toa. O show visita muitos gêneros. Sem falar no rock, tivemos o uma pitada de frevo com Chão da Praça (Moraes Moreira/ Fausto Nilo), passamos raspando no rap com Fora da Ordem, cuja bateria deu bastante peso e força ao refrão, uma pitada de tradição em A Voz do Violão (Francisco Alves/ Horácio Campos) e blues-rock da jovem-guarda Como Dois e Dois, que ele compôs para Roberto Carlos.

- A Voz do Violão foi o único momento em que Caetano esteve só no palco, ele, um banquinho e um violão.

  
Foto: DomingosGuimaraens
  
- Do novo disco, Rocks ("Você foi mó rata comigo!") foi uma das mais cantadas pelo público. Destaque também para Outro, que abriu o show, Minhas Lágrimas e Odeio.

- O ponto negativo foi o burburinho na única conversa dele com o público. Caetano falando e muita, muita gente conversando.

- O tema da conversa foram suas impressões sobre o Governo Lula. Quando declarou que não votaria em Lula, como o fez em 2002, muita foi ao delírio. Mas houve vaias também. Menores, mas se fizeram presentes.

- O apagão aéreo pegou Caetano. Logo após o show ele, a banda e algumas pessoas da produção partiram para o aeroporto. Nem pararam no hotel direito. Mas a presa foi em vão. Entre 0h e 1h ele esperou seu vôo para a Bahia, onde dois dias depois se apresentaria.

- No aeroporto, o engraçado é que as pessoas passavam e nem percebiam. Afinal, não é todo dia que Caetano Veloso está em Vitória.

- Mas aos poucos elas foram percebendo. Timidamente se aproximavam: um aperto de mão, uma foto, um autógrafo. Ele, simpatica e pacientemente, atendeu a todos os pedidos.

- Quem não teve coragem de se aproximar, só olhava de longe e, surpreso, apontava: "Olha o Caetano! Olha o Caetano!".

- O baterista de Caetano, Marcelo Callado, já esteve em Vitória com sua outra banda, a Canastra. Foi num show com o Dead Fish no Saldanha. Mas, ele avisa, o som da Canastra não tem nada a ver com o punk-hardcore dos capixabas.

- Callado toca em trocentas bandas. Uma outra é a Lafayette & Os Tremendões, comanda por Lafayette, que foi tecladista de Roberto Carlos nos bons tempos da jovem guarda. O som da banda, não poderia deixar de ser, recupera canções de Roberto, Erasmo e companhia. Não é supimpa?

Tom Zé, 13/04/07

- Foi bom. Mas poderia ter sido melhor.

- O armazém estava empanturrado de gente. Era a final do festival Vitória em Canto. Mas também era dia de Tom Zé.

  
Foto: Divulgação
  
- Logo à frente do palco estava o prefeito de Vitória João Coser. Interessante: quando anunciada sua presença, em que pese todo o ba-fa-fá do IPTU, não houve vaias.

- Como já vinha ocorrendo, o calor foi um dos principais personagens do espaço. Até o show começar muita gente esperou do lado de fora, na interditada avenida Getúlio Vargas.

- Tom Zé tocou por mais ou menos 40 minutos. Só isso. Nos deixou com gosto de quero mais.

- Inquieto no palco, frequentemente ele interrompia a música em curso para improvisar.

- As novas canções, do disco Danç-Êh-Sá, foram bem recebidas. Muito graças à presença de palco de Tom Zé, que a toda hora estimulava a participação. No final, o público aplaudia extasiado.

- Mas, lógico, os clássicos foram ainda melhor acolhidos. Principalmente Politicar (Com defeito de Fabricação, 1999) e Xiquexique (Idem). E, sem comentários, Augusta, Angélica e Consolação (Todos os Olhos, 1973).

- Mas, que pena, foram apenas 40 minutos. No máximo 50.


 

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