João José não atinava, naqueles de-manhãs madrugais, ainda na cama, segunda-feira inxerida desdomingando o descanso: quais os por-causa-de-quês de se sentir assim, sem bula nem ladainha, tomado de perguntas daquelas qualidades e, ainda por cima, a bem-dizer, tão tão?
Quer dizer: João José, homem de braúna fé, sabia pelo menos que, razão por razão, se o vivente der de fuçar nos mais de dentro dos forros do viver, mesmo, de com-força e com sem-descanso, consoante nos principalmentes de capar hereges dores, sempre haverá o de muito encontrar, porque, desde muito inhantes, nos antontes dos milênios, que quem é de sentir já dominou que não bate o monjolo sem água, nem vez nenhuma ecoaram nenhuns ecos sem pré-vozes, e nem mau agouro desprecisa de se dizer que é mau, que, de agouro bom, desalgum não conheceu nuncas nenhum, nem inteirado nem meiado, que trem bão arrancha sempre é desavisado. O que muita vez calça o vezo de andar nos mais-tardes de avisos, de sinais e de presságios é a ruindade, Deus livre e guarde, igual se o bom Jesus tivesse dó de mandar casca muito grossa pra ralar o vivente duma vez só, e, Sábio como só, desanjasse um pouquinho uns poucos anjos de suas labutas de encantamentos e visagens pra mandá-los fazerem brotar uns tropicões e uns abalos na consciência dos manos véios, de modo que, quando a jiripoca pia, o caboco, já desconfiado, toma o baque mas não perde a toada dos internos de respirar, de ficar em pé nem dos alembramentos de aprendizados.
-Possa ser. Possa sim - João José assuntava, antão.
-Só não se for o caso em que não seja - repesou, ponderante.
Mas, no eito do mundo, mesmo, as coisas já nascem arranjadinhas, feito formigas no serviço. Um vivente é que às vezes não vê de ver, mesmo, mas um outro às vezes vê. Dia de um cochilar é turno de outro vigiar. E assim vai, a vida caçando prumos e níveis e equilíbrios. Muda um quê-zinho aqui, outro acolá, mas no miolo das coisas mesmo é tudo sempre o todo um, igual toada de grilo. O de mudar é o de mudar, o que é de durar é gerúndio, existência existindo, ali, serena, de tudo sabendo e alembrando. A escola é sempre, só muda aluno.
Pois deu-se que naquele dia em que João José bestava, Maria, já na faina, vigiava.
-Jão.
-Eu.
-Tá bestano aí?
-Maomeno.
-Passarim, que num deve nada a ninguém, já deve de tá voano faz bem hora.
-Anrã.
Dava mais pra ficar na especula não. Era ciscar no terreiro. Carecia de despachar a macacoa. João José pensou, abraçado no conselho doutor de Maria:
-Hora de mexer co´isso nada.
Deu de mão na tramela da janela, escancarou o dia. A vida inteira coube ali nos pulmões e nas retinas. Coração conheceu.
Foi no rego, lavou o semblante, bebeu competente café com queijo, deu inté mais pra Maria, agradecido, garrou na enxada, ferveu no eito, senhor, feliz. Sobiava modinhas no bater da enxada, suor chovendo chuva vida no fofo cheiroso da terra chã.
Tempo é estrada. Bicho gente é passageiro.
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