Vida de Imigrante - A realidade do absurdo




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Para superar nossas mortais limitações, recorremos à fantasia. Essa á a razão de gostarmos tanto de filmes e contos de fadas (fui redundante?). Uma válvula de escape a preços razoáveis. Mas somos tão condicionados aos nossos limites que também nossa fantasia fica limitada. O absurdo é cerceado pelo bom-senso da realidade.

Aladim é um conto árabe fantástico, nos dois sentidos. Um gênio aparece do nada, capaz de atender aos desejos de quem o libertou. Até aí, o sonho não tem limites. Um gênio se torna realidade, e é capaz de atender a qualquer desejo, não importa quão exagerado e absurdo. Ordene e atenderei. Mas aí a tal realidade se intromete - são apenas três os pedidos. Ora, por que o gênio não atenderia a todos os desejos?

Claro, a história perderia a graça. Porém, ainda mais importante, a difícil escolha de qual desejo ver atendido torna a lenda aceitável. Limitando o absurdo, imitamos a realidade, e o absurdo se torna verossímel.Tem um Gato de botas que atende a todos os desejos de seu amo, mas não é poderoso como o gênio do Aladim, nem tão famoso.

Cinderela é uma simples história de amor baseada na realidade. As diferenças de classes e de cultura existem e muitas vezes o amor pode superá-las. Numa história da carochinha, ninguém menos que um príncipe se apaixona pela borralheira, e o prêmio da bondade e obediência é um reino. Mas o inverossímel, outra vez gerado pela fantasia, é cerceado pelos nossos limites mundanos, e o encanto dura apenas até à meia noite.


A diferença social também se atém aos limites da lógica. A borralheira, no fundo, é uma princesa passando por maus momentos. Também o sapo é um príncipe, podendo se livrar do encanto maléfico pelo poder curativo do beijo - num tempo em que um beijo representava o amor. Com a Fera e a Bela, o limite é a flor, que vai fenecer. Se ele não souber conquistar sua Bela antes da flor murchar, será um monstro para sempre.

As lendas são infinitas mas precisam refletir nossa realidade. Nada pode ir muito além das experiências que conhecemos e enfrentamos continuamente, seja nos filmes, nos romances, ou nos contos de fada. E por que não admitir, nos nossos sonhos. Pois até no sonhar somos lógicos. O empregado sonha ser o gerente, que ganha mais que ele, o gerente sonha ser o patrão, que não tem patrão, o patrão sonha ser o vizinho, que é mais rico que ele.

Nossos limites são elos muito fortes, que nos mantêm atados à realidade e não nos deixam voar muito alto. Mesmo no mundo ilimitado da fantasia.