Vitória (ES), edição de fim de semana
 
O que se vende é a medicina
curativa para um sistema capitalista

'O acesso do povo à medicina é um problema político'





José Rabelo



Século Diário iniciará, em sua próxima edição de final de semana (28 e 29 de abril), a publicação semanal de uma série de textos que o médico capixaba Victor Santos Neves, pai de três filhas, hoje aposentado, vem escrevendo na tranqüilidade de seu refúgio na Barra do Jucu, em Vila Velha. Victor tem muito o que contar. O material a ser publicado, que ele chama de "Opiniões da Maturidade", é, na verdade, a apresentação de um trabalho mais aprofundado que o médico pretende transformar em breve num livro: "O Mistérios da Doença e o Milagre da Cura".

Nesta entrevista, o leitor vai poder ter uma idéia da interessante reflexão que o médico-escritor faz da vida, da filosofia, da ética e mostra como a medicina, de uma maneira ou de outra, permeia todos esses acontecimentos da civilização. Confiram.

Século Diário: - Esse material que o senhor passa a publicar no Século Diário é um trabalho já finalizado, ou seja, com começo, meio e fim ou haverá uma segunda parte?

  
Foto de: Riokan
  
Victor Santos Neves: - Esse material é um conjunto de opiniões. Na verdade, é uma apresentação de um material mais aprofundado que faz parte de um livro que pretendo publicar brevemente. Ele aborda os sucessos e os limites da medicina. Nele quero esclarecer que a medicina não é milagrosa. Ela tem inclusive limitações de ordem política. O acesso do povo à medicina é um problema político. O que se vende é a medicina curativa para um sistema capitalista, não é a medicina preventiva. A medicina preventiva tem uma atitude mais socialista.

- O senhor chegou a essas conclusões recentemente ou já as tinha no início de sua carreira?

- Isso vem com experiência do tempo. Eu era filho de uma família de classe média alta. Eu fui fazer medicina não com a intenção de salvar pessoas. Minha intenção era diferente do pessoal da época. Eu queria conhecer melhor o ser humano e, conseqüentemente, me conhecer. Eu tinha essa curiosidade socrática: "Conhece-te a ti mesmo". Essa frase acabou virando um slogan da psicanálise. Naquela época eu nem sabia o que era psicanálise. Quando eu fui conhecendo a medicina, comecei a ficar deslumbrado, fascinado com a organização do corpo humano. São coisas sensacionais. Há muitas coisas que a ciência física veio a aproveitar mais tarde. As alças de retroação do nosso organismo, por exemplo. Toda essa organização acabou dando uma contribuição muito importante para a formação do pensamento humano. Você percebe que existe uma linha no pensamento humano que acompanha o que podemos chamar de holística do corpo humano.

- E qual a contribuição da psicanálise para a medicina?

- Embora as pessoas conheçam mais Freud do ponto de vista da psicanálise, eu acho que o melhor de Freud é o que vem antes. Freud escreveu coisas maravilhosas do ponto de vista social, sobre a sociedade. Foi quando ele disse que a civilização é uma instituição que violenta o instinto humano. Nós temos que anular muito a nossa formação instintiva para que ela não se traduza para a vida em sociedade. E essa repressão ao instinto torna o cidadão infeliz e vulnerável para a doença, comprometendo assim seu sistema imunológico.

- O senhor demonstra ter uma certa fascinação pela filosofia e outras ciências humanísticas. O senhor chegou a fazer algum curso acadêmico nessas áreas?

- Não, sou um autodidata. No meu tempo de estudante de medicina, no Rio de Janeiro, houve uma palestra com um professor chamado Nobre de Mello sobre análise mental. Vários colegas meus foram e todo mundo gostou. Foi a partir daí que comecei a querer conhecer melhor as pessoas e a mim mesmo.

- "O que arde sara, o que amarga cura"... esse antigo provérbio ainda está presente nos dias atuais, ou seja, as pessoas acreditam que o processo de cura está relacionado a uma penitência, talvez ainda pela influência católica-cristã na formação moral do Ocidente?

- Aí é que está o problema. Nós resistimos às imposições da natureza durante 10 mil anos sem ter uma medicina eficaz. A medicina só começou a ser eficaz mesmo no século vinte. A "arma" da medicina antiga era a sugestão. O carisma do médico era mais importante. Isso Hipócrates já assinalava com propriedade, dando como exemplo a importância do xamã, do pagé. A crença no médico era um fator de cura único. Isso fez com que os médicos conhecessem doença pela sua evolução. Hoje não, a medicina passou a ser um maravilhoso coadjuvante dessas forças íntimas. Por exemplo, as cirurgias não poderiam existir se não houvesse o fenômeno da cicatrização. Sem ela, a cicatrização, a cirurgia não era possível.

  
Foto de: Riokan
  
- A evolução da medicina também não trouxe a desumanização da relação médico-paciente?

- Sem dúvida nenhuma a relação médico-paciente foi agredida. Quando você vai ao médico, hoje, em vez de ele ter uma longa conversa entre você e sua dor, ele vai logo pedindo uma série de exames. Sem dúvida nenhuma, exames com uma capacidade de resolução fabulosa, com os mais modernos recursos tecnológicos. Isso acabou minimizando a relação médico-paciente. Hoje, a magia não está no médico, mas sim no conjunto de recursos que ele tem à sua disposição. E o próprio paciente também quer mais agilidade do médico. Ele, muitas vezes, não quer "perder tempo" tendo uma longa conversar com o médico.

- Então, o paciente também ajudou a quebrar essa relação mais humana?

- Sem dúvida nenhuma. No mundo atual as pessoas têm pressa. O paciente moderno se tornou impaciente
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