Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Revolução educacional em Vila Velha abre caminho para o ensino público de qualidade
'A escola precisa ser atrativa'





José Rabelo


"Se a idéia é boa, ela sobreviverá à derrota. Se ela é mesmo boa, pode sobreviver até a vitória".
(Stephen Vincent Benét)

Gaúcho de Santa Catarina? É isso mesmo. Radicado há mais de 30 anos no Espírito Santo, o secretário de Educação, Cultura e Esporte de Vila Velha, Roberto Beling Neto, explica que há quatro tipos de gaúchos - o riograndense, o uruguaio, o argentino e o catarinense. Ele vem fazendo, desde 2001, uma verdadeira revolução na educação do município. Seu modelo de trabalho já desperta interesse e uma pontinha de inveja de secretários de Educação de outros municípios capixabas e até do Brasil. "Com vontade política, habilidades e alguma inspiração é possível fazer um bom trabalho", recomenda Beling.

Nesta entrevista, Beling, que gosta de passar o fim de semana com a família em Manguinos tomando um bom vinho e preparando uma boa comida, conta um pouco de sua experiência à frente da Secretaria da Educação vilavelhense. Quanto à possibilidade de candidatar-se a prefeito do município, ele é reticente: "...se meu nome estiver contemplado, eu estou dentro dessa discussão. Não ficaria de fora."

Século Diário: - O senhor assumiu a Secretaria de Educação, Cultura e Esportes no primeiro mandato do prefeito Max Filho, ou seja, o senhor está à frente da pasta desde 2001. Eu queria que o senhor fizesse uma avaliação da época em que assumiu a secretaria até agora?

  
Foto de: Riokan
  
Roberto A. Beling Neto: - Acho que alguns indicadores são importantes para sinalizar esses dois momentos, do início da gestão até hoje. Quando assumi a secretaria, a Rede Municipal de Vila Velha era a terceira do município. Estava atrás das redes estadual e privada. Hoje, nós somos a primeira rede em matrículas no município. Em 2001, tínhamos em torno de 16 mil matriculas no ensino fundamental. Fechamos 2006 com 36 mil matrículas. Essa deve ser uma das maiores expansões registradas em um município em nível nacional. Na educação infantil, saltamos de 3 mil para 10 mil matrículas. Isso acontece, evidentemente, com a expansão da rede física instalada, aliada a uma política de investimentos que visa à qualidade da educação em Vila Velha. Para se ter uma idéia, atualmente nós estamos com 36 mil matrículas, o Estado tem 8 mil e a rede privada ficou com 15 mil matrículas. Esses números deixam claro que a única rede que cresceu nesses últimos seis anos foi a municipal. Entretanto, até 2000 Vila Velha estava entre as piores redes do Espírito Santo. Em relação aos municípios da Grande Vitória, possuía as menores taxas de matrícula, a menor participação nos fundos para a educação e oferecia os menores salários.

- O senhor apresentou números quantitativos que apontam uma evolução no número de matrículas. E o aspecto qualitativo?

- Essa reformulação começou com a mudança do padrão físico das escolas. Hoje, nossas escolas são construídas a partir de um padrão de qualidade. Quando assumi a secretaria, entretanto, procurei saber o que havia de orientação para arquitetura escolar e não encontrei um único texto, artigo ou tese sobre a construção do prédio escolar. O prédio escolar tem características muito específicas e ele deve ser concebido para viabilizar a proposta pedagógica. Quando fomos idealizar o projeto, colocamos para nós o seguinte desafio: por que a escola de periferia tem de ser pobre? Pensamos o seguinte: o que precisamos fazer para que uma criança de Terra Vermelha tenha a mesma escola de qualidade da criança de classe média da Praia do Canto, ou seja, queríamos oferecer uma escola atrativa, de qualidade igual à oferecida a um menino de classe média alta de Vitória. E eu acho que conseguimos atingir esse objetivo.

  
Foto de: Riokan
  
- A comunidade percebeu esse salto de qualidade, ou seja, houve uma migração de alunos da rede privada para a municipal? O senhor tem esses números?

- Esses números estão caracterizados pela estagnação do crescimento da rede privada. Veja, de 2001 a 2007 a população de Vila Velha cresceu em torno de 40 mil habitantes e o número de matrículas na rede privada ficou estacionada em 15 mil. Isso comprova que houve uma migração. A rede privada deixou de crescer em números relativos.

- O que é o projeto Escolas Temáticas?

- Esse projeto está em fase de implantação. Mas, na verdade, ele se iniciou com a mudança de concepção da rede física, quando começamos a pensar num projeto pedagógico de tempo integral. Nós idealizamos um modelo de escola em tempo integral em que o próprio aluno vai definir como irá cumprir essa grade.

- Esse modelo de escola integral já está em funcionamento?

- Isso já acontece hoje em oito escolas. Nessa proposta, o aluno tem uma alternativa de disciplinas em dois turnos. Ele pode ficar, se quiser, 40 horas por semana dentro da escola. Mas essa carga horária é flexível, a exemplo do que acontece nas universidades. Em um dos turnos, o aluno cumpre as disciplinas que são obrigatórias. E, num horário alternativo, nós oferecemos disciplinas complementares, que têm seu grande eixo na prática esportiva. Foi uma forma que encontramos para atrair o aluno para a escola. Nessa grade alternativa, oferecemos ao aluno diversas modalidades de esporte, inclusive a natação, que tem uma procura imensa. Temos também dança, oficina de ciências, artes, ensino de uma segunda língua estrangeira. O mais importante de tudo isso é tornar a escola atrativa. Nós queremos que o aluno fique na escola por satisfação e não por obrigação. Ele precisa gostar da escola.

- Quais são as taxas de evasão registradas na rede municipal hoje?

- Nós conseguimos reduzir as taxas de evasão a índice abaixo do recomendado pelos padrões internacionais. Nosso índice de evasão é praticamente irrelevante. Nós temos um índice de 2,5%, a faixa considerada aceitável pelo padrão internacional é de 4%. Nosso desafio agora é resolver o problema da repetência. Este índice ainda está em dois dígitos, cerca de 14% nas primeiras e segundas séries. Isso é inaceitável para nós, mas está decrescendo ano a ano com a ajuda das políticas que estão sendo implementadas de apoio pedagógico. Na quarta série, por exemplo, esse índice já fica em torno de 5%. Quanto mais garantirmos o acesso da criança à pré-escola, a tendência e de que esse índice caia cada vez mais.

  
Foto de: Riokan
  
- Toda essa melhoria, quantitativa e qualitativa, promovida na educação tem contribuído para brecar os índices de violência no município?

- Nossas escolas não são depredadas ou pichadas, pelo fato de a comunidade ver a escola como um espaço de convívio social e também por existir um conjunto de políticas preventivas que garantem a segurança do patrimônio escolar. Nós temos uma empresa de segurança profissional, temos um conselho de segurança que atua dentro da secretaria. Inclusive temos um programa novo agora que vai contar com o serviço especializado de uma socióloga. Essa profissional vai fazer a mediação de conflitos nas escolas onde esteja ocorrendo alguma situação de violência, e vai trabalhar a questão sob o ponto de vista pedagógico, nunca no sentido repressivo. Hoje, nosso problema com a violência nas escolas é quase zero. No início, tínhamos muitos problemas como apreensão de armas brancas, revólveres.
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