Vitória (ES), edição de 06 de agosto de 2007    
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Uma poesia do corpo



Carlos Calenti Trindade
Atualizado toda quarta-feira, às 16 horas

Então eu tenho que confessar uma coisa: há um motivo por eu não ter escrito sobre poesia durante esses meses de coluna. Não, não é porque eu não gosto (até parece!), muito pelo contrário. Mas há sempre algo - hmm - algo que, por trás de tudo, parece - mas é sempre uma sensação muito obscura, um não sei por que, talvez mesmo uma qualidade - algo na poesia que parece me escapar.

Daí o meu editor me deu esse livro Cem poemas [antologia pessoal] + 22 inéditos (7 Letras), da poeta portuguesa Maria Teresa Horta, e eu tive que me confrontar com todas essas dificuldades, não para ler, mas para escrever sobre poesia.

Talvez tudo isso seja porque eu definitivamente não sou um poeta e esses sempre tenham me fascinado bastante - não apenas como literatura, mas quase como figuras míticas, profetas românticos, filósofos, essas coisas. À distância assim, poesia me parece uma coisa muito complicada de se fazer, uma conjugação difícil entre o cerebral, entre um projeto e a construção de uma obra, e o emocional, isso que nos toca de verdade no fim das contas.

Nesse sentido, o livro de Maria Teresa Horta, que abarca poemas de todas as fases de sua produção, desde 1960 até atualmente, parece perfeito para tentar entender a construção de uma voz, do que ela tem a dizer.

Timidamente, eu diria que o que está claro durante todo o livro, é a afirmação do desejo da mulher, do corpo pulsante feminino, como uma resistência, a afirmação do desejo e do prazer. O aspecto de resistência da sua obra fica mais claro quando entendemos que ela escreveu parte dela durante o regime ditatorial de Salazar. Ela inclusive foi chamada a depor num tribunal devido a um livro que escreveu com outras duas escritoras portuguesas, acusado de imoral, proibido e tirado de circulação.

Enquanto há essa preocupação com a ruptura de comportamentos inscritos numa sociedade machista, formalmente suas poesias são compostas de versos curtos, muitas rimas, num ritmo obviamente mais próximo do popular. Mas o que poderia parecer uma contradição forma/conteúdo, acaba revelando um desejo, uma pulsação que, de dentro do próprio poema, subverte essas formas pré-estabelecidas, virando-as pelo avesso.

O corpo que Horta canta é vida pura. É desejo, e portanto devir - é além.

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E-mails para o colunista: carloscalenti@yahoo.com.br


 

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