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Foto: Divulgação
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Quando desaparece um filósofo como Gilles Deleuze, é inevitável que seus admiradores saiam à cata de possíveis "inéditos". Não haveria em suas gavetas um livro inacabado sobre Marx, ou sobre Plotino? E textos menores? Ou mesmo as cartas, não revelariam confidenciais picantes sobre sua relação com Lacan, ou mesmo com Guattari, com quem dividiu boa parte de sua produção teórica? A decepção foi inevitável: tudo o que Deleuze quis publicar foi publicado em vida. As instruções testamentárias eram categóricas: não haveria póstumos.
Nenhum "segredo" seria revelado, pois não havia segredos - estava tudo ali, na superfície dos textos publicados ("o mais profundo é a pele"). Havia sim, além dos trinta livros escritos ao longo de quarenta anos, vários textos esparsos, porém já publicados: uma resenha aqui, uma entrevista acolá, um prefácio circunstancial - tudo difícil de encontrar, senão impossível. Era hora de juntar tudo isso. David Lapoujade foi incumbido de reunir e organizar esse material, e o fez com cuidado e discrição.
Assim, em
A Ilha Deserta (Iluminuras, 384 págs, R$ 53 em média) vemos as marcas de vinte anos da febril atividade filosófica de Deleuze. O leitor encontrará aqui artigos luminosos sobre Henri Bergson, Kant, Nietzsche, David Hume. Mas verá também os traços de um confronto, nem que seja cômico, com os movimentos do pós-guerra francês, seja com o estruturalismo, o marxismo, a fenomenologia, a psicanálise. Por fim, terá ainda um testemunho vivo do que foi Maio de 68 para Deleuze, bem como seu encontro com Félix Guattari, com a temática e subjetiva, inteiramente antenada com a reviravolta vinda da rua.
Nessa seqüência heterogênea, pequenas pérolas, como a comovente homenagem a Sartre ("Ele foi meu mestre"), uma conversa ensandecida sobre pintura ("Faces e Superfícies"), ou o enigmático texto que dá título ao volume, preparado para uma revista de turismo (!) - único realmente inédito.
Há duas maneiras de desconhecer um grande autor, diz Deleuze - e isso se aplica inteiramente aos textos dessa coletânea. Ora ignorando o caráter sistemático de sua obra, sua lógica profunda (que aqui aparece claramente na gênese ou na recorrência de um conceito como "diferença"), ora ignorando sua "potência" e seu gênio cômicos, de onde a obra retira geralmente o máximo de sua eficácia "anticonformista".
Com Deleuze, como o mostra o ziguezagueante deste livro, aprende-se que o pensamento é, paradoxalmente, inseparável de sobriedade e de gargalhadas. Mas também, que a solidão do filósofo, sempre povoada, como diz ele, é indissociável da agitação de seu tempo, cuja vitalidade lhe cabe captar e restituir.
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