Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros foram." (Alexandre Graham Bell)
Talvez seja seguro afirmar que Mario Petrocchi hoje é mais conhecido nos outros estados do que no Espírito Santo. Formado em Engenharia Mecânica, Petrocchi, em 1992, trabalhava com Paulo Augusto Vivacqua, então secretário estadual de Desenvolvimento Econômico do Espírito Santo. Sem quadros na época, Vivacqua convidou Petrocchi para participar de um planejamento de turismo para o Estado com uma consultoria catalã. Petrocchi aceitou o desafio e tomou gosto pelo assunto. O resultado desses 15 anos de dedicação ao tema conferiu ao capixaba a condição de se tornar um dos mais respeitados especialistas do tema no Brasil.
São cinco livros publicados e mais três em co-autoria. Além de ser professor convidado de universidades fluminenses e mineiras, Petrocchi é requisitado para prestar consultorias a diversos estados e municípios brasileiros que apostam no turismo como alternativa de geração de trabalho, renda e divisas.
Todo o talento do consultor, no entanto, ainda não foi descoberto pelos próprios capixabas, que amargam a 10ª colocação no ranking dos estados mais procurados pelos brasileiros. De 1998 a 2006, dos quatro estados do Sudeste, o Espírito Santo foi o único que registrou queda no turismo. Nosso market share também é o mais baixo da região sudeste. Somente 33% dos capixabas fazem turismo no Estado. Em São Paulo o market share chega a 56%.
Nesta entrevista, Mario Petrocchi faz uma análise do turismo mundial e nacional, além de apontar as principais causas para o insucesso do turismo capixaba.
Século Diário: - O Brasil sempre adotou uma postura muito passiva com relação ao turismo. Beneficiados por 8 mil km de litoral, florestas, cachoeiras e diversas outras belezas naturais e diversidade cultural, acreditávamos que incluir o país no seleto grupo dos destinos internacionais era só uma questão de tempo. Mais uma vez, o Brasil perdeu o bonde da história e viu passar à sua frente os países que realmente se profissionalizaram e fizeram do turismo uma importante fonte de receita. Entretanto, alguns especialistas afirmam que na última década o Brasil começou a esboçar uma reação, o senhor concorda?
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Foto: Ricardo Medeiros
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Mario Petrocchi: - Existem questões globais e locais. Com relação à questão global, podemos afirmar que o turismo vem crescendo de forma espantosa da década de 50 para cá. Cada vez mais os países estão descobrindo a importância econômica do turismo e entrando no mercado. Existe hoje uma tendência de desconcentração. Por exemplo, os fatores econômicos de uma indústria estão relacionados exclusivamente ao fator capital. Já o turismo usa intensivamente o território e as pessoas. Desta maneira, o nível de investimento para gerar um emprego no turismo é extremamente menor se comparado à indústria. O turismo deveria ser uma boa alternativa para os países pobres, como no caso do Brasil. Mas infelizmente isso não acontece. Não podemos afirmar que o Brasil está avançando nesse sentido. O turismo aqui ainda é muito maltratado. Nós só existimos nas estatísticas a partir de 1998. Até então, não sabíamos nem quantos turistas estrangeiros entravam no País - só tínhamos a apropriação dos números registrados em portos e aeroportos. A metodologia para quantificar a entrada por terra só foi corrigida a partir de 1998. Se analisarmos então os dados de 1998 para cá, perceberemos que o mercado mundial cresceu em média 3,5 % ao ano. Enquanto a América do Sul, no mesmo período (1998 a 2006), cresceu em média 2,6% e o Brasil apenas 0,6% ao ano.
- Como o senhor explica esse baixo desempenho?
- O fraco desempenho do Brasil é conseqüência das características da América do Sul. No turismo as distâncias são decisivas. Por exemplo, 88% dos turistas europeus ficam na Europa. Na Alemanha, 92% dos turistas que viajam ficam na Europa. Na Califórnia, 82% das pessoas que fazem turismo são californianos. Esses dados comprovam que existe uma atração gravitacional. Mais de 80% das viagens de turismo são viagens de curta duração. A distância é um fator determinante. Isso coloca o Brasil a mercê dos mercados regionais da América do Sul, que,com a exceção da Argentina, são todos países pequenos (pouco populosos) e pobres. Isso se agravou com a crise econômica do Brasil. Hoje nós estamos vivendo uma situação atípica com relação ao fluxo de turismo estrangeiro no Brasil. A soma dos turistas europeus ultrapassou um pouco a dos latinos. A estagnação do PIB (Produto Interno Bruto) no Brasil e nos países da América Latina, com exceção do Chile, também tem afetado diretamente o turismo. O Brasil acaba sendo vítima da situação socioeconômica de seus vizinhos.
- Segundo dados da Organização Mundial de Turismo (OMT), o turismo de estrangeiros trouxe ao Brasil, em 2002, US$ 2 bilhões, contra US$ 4,3 bilhões em 2006. O número de turistas estrangeiros que visitaram o País em 2002 foi de 3,8 milhões. Em 2006, esse número saltou para 5,1 milhões. Diante desses números não é possível afirmar que houve crescimento?
- Esse crescimento de fato aconteceu em valores absolutos, mas em valores relativos nós perdemos mercado. O mercado mundial cresceu muito mais que o do Brasil. Ao mesmo tempo, os países da América do Sul tiveram um desempenho relativo ainda melhor que o nosso. O market share (quota ou participação de mercado) do Brasil em 2000 era de 0,8%; em 2006, foi de 0,59%. Nós já tivemos um market share na América do Sul de 35% (participação na soma de todos os turistas estrangeiros que vieram para a América do Sul), agora esse percentual caiu para 25%. Uma outra questão dramática são os dólares que saem do Brasil. Os turistas brasileiros das classes A e B são dos mais gastadores. Dados dos órgãos de turismo dos Estados Unidos atestam que o brasileiro gasta US$ 600 acima da média internacional. Uma face negra desse turismo se reflete no balanço de pagamento. Num país pobre como o nosso isso é muito complicado. De 1992 para cá, acumulamos uma evasão de divisas na ordem de US$ 24 bilhões. O turismo deveria ser uma prioridade macroeconômica para o Brasil. O turismo funciona como uma atividade de exportação e importação. Existe então um encontro de contas que pode produzir saldos ou déficits. A entrada de turistas estrangeiros no Brasil de 2003 a 2006, de acordo com um cálculo que elaborei, aponta um crescimento em média de 12,5% ao ano. Entretanto, com a baixa do dólar, a saída de brasileiros, no mesmo período, aumentou na média de 25% ao ano.
- E quais são as soluções para reverter essa situação?
- Aumentar a entrada de turistas, sobretudo europeus, é quase impossível por causa do fator distância. O que se pode é atenuar essa situação. O gráfico dos europeus é muito mais achatado se comparado ao dos sul-americanos. Então, essa política do governo federal de aumentar o fluxo de turistas europeus está correta. Mas é preciso ter claro que não conseguiremos nos livrar do obstáculo da distância. É importante deixar claro, porém, que no turismo você nunca tem uma única resposta. É preciso ter um cesto de soluções, um projeto para cada mercado. No nosso caso, nós precisaríamos também valorizar os destinos nacionais. Para que localidades como Maceió, Guarapari etc. sejam competitivas em relação, por exemplo, a Miami ou Punta del Este (balneário uruguaio). Com o objetivo de que essa parcela da população que tem dinheiro, que normalmente gasta seus dólares lá fora, passe a gastar no Brasil. É justamente esse cliente gastador que teríamos que segurar aqui. Precisaríamos, para isso, tornar o turismo local melhor administrado para que ele tivesse um nível de competitividade que fosse capaz de segurar uma fração mais representativa desse grupo que viaja ao exterior. Dessa maneira evitaríamos o déficit na balança do turismo externo.
- O senhor acha que agora o Brasil está começando a acordar para essa realidade e a perceber que o turismo pode se confirmar como uma importante força econômica capaz de gerar trabalho, renda e divisas?
- Aos poucos está. A criação do Ministério do Turismo é um sinal positivo. Agora, o grande problema não é criar ou não criar Ministério de Turismo, ter ou não ter Secretaria de Turismo. O grande problema é a não conscientização por parte da coletividade para a importância do turismo. A principal queixa da população é que o político não dá importância ao turismo. Mas isso é uma conseqüência da omissão da própria população. Porque, a partir do momento que a própria população não valoriza o turismo, é justamente esse sentimento que tira o turismo da agenda política. O político para sobreviver precisa ser uma caixa de rossonância do que a sociedade deseja. Logo, se a sociedade não valoriza o turismo, ela mesma está tirando o turismo da agenda política.
- Em outras palavras, turismo não dá voto.
- Exatamente. Há dois políticos no Brasil que se projetaram em nome do turismo: Antonio Carlos Magalhães e Tasso Jereissati. Quando ACM começou a investir no turismo da Bahia, a própria propaganda na Bahia já projetava o nome dele de uma forma subliminar. O turismo para ser bem feito exige um trabalho participativo da sociedade. Se um político arregaçar as mangas e for ao encontro da coletividade ele vai ter retorno político.
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Foto: Ricardo Medeiros
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- O turismo no Brasil está muito amarrado a sazonalidade. Fora dos períodos de pico, como o verão, a sustentabilidade se torna muito difícil. Parece que os gestores de turismo ainda não estão muito atentos a esse fenômeno.
- Quem entra em contato com o destino de turismo percebe que o sofrimento do pequeno e médio empresário é atroz, principalmente nos destinos de praia. Um hotel ou uma pousada precisam ter um ponto de equilíbrio operacional que determine um empate entre despesa e receita. Esse equilíbrio está em torno de 22 a 25% de taxa de ocupação anual. Agora, por exemplo, no mês de agosto, eu te convido para visitarmos umas das nossas cidades aqui do litoral sul para verificar qual é a taxa de ocupação. Durante a semana, se tiver 3% ou 4% de taxa de ocupação é muito. Isso é suicídio econômico. Por isso que tem hotel fechando em Guarapari, outros que estão ficando sucateados - porque não sobra dinheiro para investir em manutenção. Isso tudo vai gerando um ciclo ruim porque você tem de recuperar a imagem, mas a qualidade do serviço vai caindo.