Vitória (ES), edição de fim de semana
 
A Longa História de Reinado
'Um amigo me disse: seu livro é pura intertextualidade'




Erly Vieira Jr.*


("Quem consegue parar depois que começa a contar uma história?" Guibert de Nogent)

Reinaldo Santos Neves, talvez o mais expressivo representante da literatura produzida no Espírito Santo nas últimas quatro décadas, aos poucos vem rompendo seu "quase silêncio" desde a publicação de seu quarto romance, 'Sueli, dezoito anos atrás'.

Nesse período, ele publicou alguns contos e crônicas esparsos em jornais, antologias e na internet, além de uma novela e um volume de sonetos. Essa disponibilização da sua produção literária praticamente "a conta-gotas" foi justificada por um período de intensa escrita (originando quatro romances e alguns volumes de contos e crônicas) que só agora vem à tona.

No ano passado, ele retornou com o surpreendente romance 'Kitty aos 22': divertimento, denso relato protagonizado por uma típica representante da geração blog/fotolog e afins. Agora, é a vez de 'A Longa História', ambientado na Idade Média, e que traz as principais marcas do texto de Reinaldo: metalinguagem e intertextualidade, com fartas doses de ironia. Lançado em julho pela Bertrand Brasil, o livro é uma grande aposta para tornar a obra do escritor amplamente conhecida fora do território capixaba.

A seguir, uma entrevista na qual o autor fala da experiência de escrever sua longa história, da opção pela Idade Média (pela segunda vez, cenário de um romance seu) e das referências a Jorge Luis Borges na sua obra, as intertextualidades presentes em seu novo romance, da experiência de ter um livro lançado com distribuição nacional e de seus projetos literários futuros.

- Século Diário: - Seu novo romance se define como "a história da busca de uma história". Por que, em pleno início do século XXI, escrever sobre esse assunto?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Reinaldo Santos Neves: - Em termos de produção e leitura de uma boa história, o século XXI não tem que ser diferente dos séculos anteriores, até porque, segundo Jorge Luis Borges, a literatura só tem quatro temas, que os escritores vêm reelaborando ao longo dos tempos. Um desses temas, de que o protótipo seria a viagem dos Argonautas, é a história da busca de algo de sagrado ou precioso. No caso de 'A Longa História', o que fiz foi acrescentar um elemento talvez novo - a busca de uma história - a um ciclo constante e infinito que abrange desde A Demanda do Santo Graal até O Senhor dos Anéis, só para citar dois exemplos.

- Além de uma busca, o livro também fala de uma descoberta vivida por Grim, o jovem protagonista. Afinal, ele nos é apresentado como alguém que jamais imaginou sair do seu pequeno mundo, e é lançado, no decorrer da trama, numa sucessão de ritos de passagem: conhecer novos povos, pessoas bastante diversas das de seu mosteiro, a revisão de valores, o despertar do desejo, o vislumbre de uma certa liberdade... não chega a ser um "romance de formação", mas talvez de uma série de sucessivas transformações, certo?

- Sim, acredito que a sina do personagem de qualquer romance é passar por uma experiência, se não de formação, pelo menos de transformação, experiência a ser devidamente compartilhada pelos outros dois elementos desse triângulo amoroso que é a literatura: o leitor e o autor. Se "A Longa História" continuasse além do ponto onde parou, veríamos Grim chegar ao limite de sua formação como pessoa e como homem, mas ainda assim vemos uma imensa diferença entre o "menino da maçã" que deixa o convento e o rapaz que, ao longo da travessia até a Ungária, aprende a enfrentar e superar as dificuldades da sua missão. Apesar das barreiras naturais que são seus medos e fraquezas, ele assume uma dimensão heróica pela tenacidade com que tenta cumprir a sua tarefa. Ironicamente, porém, o mais difícil obstáculo no seu caminho é justamente aquele que a formação religiosa lhe impôs desde cedo, e tanto mais difícil de vencer porque ele o considera atributo e não obstáculo, dignidade e não servidão, virtude e não vício: a obsessão pela castidade.

- A temática medieval não é uma novidade em sua produção literária, uma vez que o senhor já havia publicado a Crônica de Malemort em 1978...

- Devo dizer que não cheguei à Idade Média decidindo com meus botões: 'Vou escrever um romance com ambientação medieval'. O que aconteceu foi que, escrevendo meu segundo romance, que teria o título de "Filhos de Anna", em dado momento percebi que a trama era tão, digamos, gótica, que pedia outra época como cenário. Daí transferi a história para a Idade Média e acabei escrevendo um romance completamente diferente, inclusive em termos de linguagem, porque me propus a recuperar o português arcaico como linguagem literária moderna, escrevendo o romance como se fosse uma crônica medieval. Lembro que, quando inscrevi 'A Crônica de Malemort' num concurso literário de Brasília, os originais me foram devolvidos sob a alegação de que se tratava de um concurso de romance e não de crônica. Reenviei os originais esclarecendo que aquilo era um romance e não um livro de crônicas - e esse episódio pitoresco foi o único prêmio que ganhei nesse concurso. Quero também mencionar que, nos quase trinta anos entre os lançamentos da 'Crônica de Malemort' e da 'Longa História', nenhum outro autor brasileiro se animou a percorrer os ricos caminhos da temática medieval, de modo que não sou apenas o primeiro autor brasileiro a tê-lo feito, mas o segundo também. E, se bobear, ainda venho a ser o terceiro.

- O texto da contracapa faz referência à célebre afirmação do Borges de que os sul-americanos "podem lançar mão de todos os temas europeus e utilizá-los sem superstições, com uma irreverência que pode ter, e já tem, conseqüências afortunadas"...

- Essa afirmação está num artigo publicado em 1932, 'O Escritor Argentino e a Tradição', em que Borges rebate a opinião, corrente na Argentina da época, de que seria um erro o escritor argentino abordar temas europeus: 'Segundo este singular parecer, nós, argentinos, estamos como que nos primeiros dias da criação; [...] devemos compreender que estamos essencialmente sozinhos, e não podemos brincar de ser europeus'. Borges defende então que a tradição argentina é toda a cultura ocidental, dizendo: 'Tudo que nós, argentinos, fizermos com felicidade pertencerá à tradição argentina, do mesmo modo que tratar de temas italianos pertence à tradição da Inglaterra, por obra de Chaucer e de Shakespeare'. E finaliza assim: 'Devemos pensar que nosso patrimônio é o universo; experimentar todos os temas, e não nos limitarmos ao argentino para sermos argentinos: pois ou ser argentino é uma fatalidade, e nesse caso o seremos de qualquer modo, ou ser argentino é mera afetação, uma máscara'. De fato, puxando a brasa para a minha sardinha, não me sinto menos brasileiro ao escrever sobre a Idade Média européia do que ao escrever sobre o aqui-e-agora, coisa que fiz em muitos de meus textos. Mas, quando apresentei 'A Crônica de Malemort' à editora do Rio que o publicaria, tive de ouvir de uma das sócias, que já tinha visitado Vitória, esta pergunta: 'Por que você não escreve sobre o convento da Penha?' (o que, aliás, fiz anos depois - mas uma história para crianças). Ainda nesse artigo de Borges, quero destacar, na citação que está na contracapa do livro, o termo irreverência. Entendo essa irreverência como o atrevimento não só de invadir uma seara tradicionalmente lavrada por escritores europeus como também de mostrar que podemos lavrá-la tão bem ou até melhor que eles, semeando-a com semente nova, fértil e viçosa e imprimindo aí a nossa marca latino-americana de fazer literatura.

- Além dessa aproximação, o que mais podemos encontrar de "borgiano" em seu livro, já que Borges tem sido uma referência constante em sua produção literária?

- Na verdade, eu já ia bem avançado na elaboração da 'Longa História' quando mergulhei fundo na leitura dos quatro volumes da Obra Completa de Borges, e essa leitura não deixou de ter conseqüências sobre a versão final do romance. Uma delas foi a alteração que fiz na própria natureza da história de Posthumus de Broz. Outra foi o acréscimo de algumas reflexões tipicamente borgianas, como o capítulo em que Grim especula sobre sua condição não só de ouvinte, copista e leitor da história, mas também de autor dela - reflexões que remetem diretamente ao conto Pierre Menard, de Borges. Uma terceira, já depois de terminada a 'Longa História', foi embarcar numa série de contos tendo como assuntos o livro e a vida literária. Um desses contos tem, inclusive, como personagem, um escritor chamado Jorge F. Bórgia.

- Este livro, bem como toda a sua obra, é repleto de intertextualidade. Já que estamos nos referindo a um livro que aborda a arte de contar estórias, ambientado num período célebre por suas narrativas oralmente transmitidas, o senhor poderia dizer com quais textos tradicionais dialoga diretamente?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
- A primeira vez que ouvi falar em intertextualidade foi em 1978. Eu tinha acabado de publicar 'A Crônica de Malemort' e meu amigo, o professor Luiz Busatto, me disse: 'Seu livro é pura intertextualidade'. E eu perguntei: 'Que merda é essa?' Ele me explicou, e daí para frente continuei a usar intertextualidade, só que consciente disso. Aliás, não sou só eu que uso, é todo mundo, porque um dos dogmas da crítica literária é que todo texto remete a outro texto, o que é verdade a respeito de qualquer obra, a menos que seu autor seja, digamos, um Kaspar Hauser. Mas, quanto à 'Longa História' em particular, boa parte do romance aproveita e reorganiza material extraído de fontes medievais que consultei em obras impressas ou virtuais e que cito na bibliografia ao final do livro. Em termos amplos dialogo com toda a tradição das histórias de busca. Em termos restritos, a lista seria infindável. Citaria aqui o livro 'Travels with a Donkey in the Cevennes', do meu sempre dileto Stevenson, que me foi útil na descrição da paisagem montanhosa do sul da França. Citaria os vários poemas que com certa liberdade traduzi do latim - e tradução é um processo intertextual. Citaria, também, as algaravias de Tatheus quando acometido por problemas que hoje chamamos neurolingüísticos: todas elas são falas em cartaginês de um personagem do comediógrafo latino Plauto (século III a. C.).
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