Vitória (ES), edição de fim de semana
 
A Longa História de Reinado
'Um amigo me disse: seu livro é pura intertextualidade'




Erly Vieira Jr.*


- O senhor poderia destacar alguma dessas intertextualidades?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
- Posso destacar a história de Freydis, a mulher que provoca e estimula uma matança na chamada Terra do Vinho. Essa história está numa saga islandesa que trata da descoberta do continente norte-americano pelos navegadores nórdicos no ano 1000, ou seja, quase 500 anos antes de Colombo. Se bem me lembro, Freydis, irmã de Leif Eriksson, o primeiro europeu a pisar na América, participou da quarta ou quinta viagem à Terra do Vinho, quando ocorreu aquela tragédia. Uma das razões que me levaram a incluir na história o episódio de Freydis foi mostrar uma mulher medieval capaz de impor sua vontade - e ainda por cima de forma sanguinária - numa sociedade essencialmente masculina. Outra razão é que os grandes contadores de histórias da Idade Média, na minha opinião, eram os islandeses - e, por sinal, Borges foi um grande apreciador da literatura islandesa medieval. Daí o porquê de o romance fazer várias referências às sagas, além de incluir um encontro entre Grim e alguns marinheiros de Tule (ou seja, da Islândia) que vão em peregrinação a Jerusalém, encontro que me dá a oportunidade de apresentar a história de Freydis como exemplo da arte literária deles, tão concisa na forma e tão dramática no conteúdo.

- Curioso que o senhor fala no prefácio que a intertextualidade não era uma intenção original, e que o livro não duraria, em princípio, mais de cem páginas. Bom, são seiscentas e quinze, com diversas sub-tramas paralelas, para deleite do leitor... Como foi esse processo?

- A idéia embrionária da 'Longa História' eu tive há mais de dez anos, depois de ler, em 'The Making of the Middle Ages', de R. W. Southern, uma referência aos documentos mortuários conhecidos como rotuli, que aliás abordo num dos capítulos do romance. Quando finalmente me dispus a pôr a história no papel, a internet já era uma realidade e eu mesmo já a usara como campo de pesquisa para compor o romance An Ivy Leaf, que é a tradução para o inglês da 'Crônica de Malemort'. Nesse projeto anterior foi tanta coisa de interesse que descobri na internet que o texto em inglês é duas vezes maior que o texto original em português. A pesquisa para a 'Longa História' não foi diferente: forneceu tanto material que o romance acabou seis vezes maior do que o previsto. Não é à toa que escolhi para epígrafe do romance estas palavras da Autobiografia de Guibert de Nogent, que também achei na internet: "Quem consegue parar depois que começa a contar uma história?".

- Já que o senhor falou em internet, imediatamente vem-me à cabeça o seu romance anterior, 'Kitty aos 22', lançado ano passado, protagonizado por uma jovem da geração blog/fotolog/orkut. Como alguém que escreve Kitty... também escreve algo como 'A Longa História'?

- Acho que podemos escrever qualquer história, desde que o tema nos provoque e seduza o suficiente. Além disso, não sou de repetir projetos literários, gosto de partir sempre para coisas novas. No caso específico de 'Kitty' (publicado antes mas escrito depois de 'A Longa História'), o tema me foi sugerido em sonho. Fiquei tão fascinado com esse sonho que acabei encarando o tema da juventude de hoje e confesso que trabalhei o romance com paixão, tanto pela personagem principal como pela história como um todo. Para tanto fiz meu dever de casa na internet, consultando os espaços que os próprios jovens usam para se expressar: seus blogs e fotologs. Não esqueçamos, porém, que 'Kitty' e 'A Longa História' têm um fator em comum, que é exatamente a juventude de seus personagens principais. E o amor e a tragédia do amor estão presentes também num e noutro romance, separados por uma distância de oito séculos.

- E a profusão de países atravessados na busca empreendida por Grim e seus companheiros até Broz? No que o senhor se inspirou para estabelecer essa "cartografia"? O que ela tem de real ou de inventado?

- 'A Longa História' tem também seu componente on the road; afinal, são 2.000 km de estrada, sem contar a viagem de navio. Foi também a internet que me deu de bandeja o Itinerarium bordigalense, texto escrito no século IV para servir de guia aos peregrinos europeus com destino a Jerusalém, e que me serviu de guia para o longo trajeto de Grim e seus companheiros desde Bordigala (Bordéus) até Poetovio, hoje Ptuj, na Eslovênia. Nesse ponto os peregrinos tomavam rumo sul e os meus personagens, rumo norte, de modo que a partir daí tive de me virar com a ajuda de outros recursos, também da internet. O Itinerarium registra todas as localidades de Bordéus a Jerusalém e a distância entre elas, o que facilitou muito meu trabalho "cartográfico". Paralelamente, busquei informações sobre cada uma dessas localidades, a fim de acrescentar detalhes pitorescos à sua descrição. Em suma, o que há de inventado na cartografia do romance é a Ingária, que não existe nem nunca existiu, mas que estaria localizada mais ou menos onde hoje está o País de Gales, e o mosteiro de Broz - mas a cidade vizinha, Besprem, é real e, em húngaro, se chama Veszprém. Já a visitei através do Google Earth.

- Fale mais sobre a companheira de aventuras de Grim...

- Na minha concepção original, "A Longa História" - a não ser pela velha condessa - seria um romance de personagens masculinos. A moça que acompanha Grim até Broz e o auxilia a copiar a história é uma intrusa no romance e hoje nem sei mais precisar em que momento ela irrompeu história adentro. Acho que a inspiração veio da leitura da lenda de Santa Maria Egipcíaca. Mas, assim que entrou na história, essa moça não só entrou para ficar como também começou a definir e a ampliar, ela mesma, o seu papel na história. Às vezes eu discutia, levantava uma dúvida, apresentava uma sugestão, mas a decisão final era sempre dela. Lógico que foi bom que ela aparecesse e que tomasse as rédeas da história. Já pensou uma 'Longa História' sem ela - ou, pior ainda, um Grim de Grimsby sem a companhia salutar dessa moça?

- Qual o papel do narrador, neste livro?

- "A Longa História" é um romance com narrador na terceira pessoa - o chamado narrador onisciente. Só que é um narrador que narra de uma perspectiva medieval e não moderna. A linguagem narrativa adotada é que determina isso. Para começar, o suporte léxico do romance se encontra mais no vocabulário latino do que no português. Afinal, latim é a língua falada pela maior parte dos personagens do livro. Era um dicionário latino e não português que eu consultava enquanto escrevia. O que buscava eu? Lógico que não era o termo latino. O que eu buscava era o abono latino para o termo em português a ser usado em cada situação. Os leitores poderão estranhar que eu tenha usado nesse romance o adjetivo holográfico, que hoje define uma tecnologia de reprodução de imagens. Mas não é com esse sentido, é claro, que o termo é usado no romance, mas sim com o sentido latino de "escrito pela mão do autor". Usa-se ainda hoje em português, por exemplo, para designar o testamento escrito pelo próprio testador. Devo ainda dizer que vejo o narrador desse romance mais como uma 'entidade' do que como um 'indivíduo'. É a própria Fábula que narra a História: em vários momentos tento estabelecer uma distinção entre Fábula e História, interpretando a primeira como voz e forma e a segunda como assunto e conteúdo. Entendo que o que fiz foi representar assim o conceito do 'espírito da narrativa', que tem a ver com o que os gregos chamavam de Razão, os judeus, de Verbo, e os cristãos, de Espírito Santo. A Fábula, dentro dessa concepção, é o narrador do romance.

- Depois de terminada, como foi a epopéia para publicação do romance em âmbito nacional, pela Bertrand Brasil?

- Terminei esse romance, em versão quase definitiva, em 2002. Enviei-o a duas editoras de fora do Estado; uma delas não se interessou, outra, nem deu resposta. Estava sem saber o que fazer quando, no início de 2005, esteve em Vitória um consultor editorial da Bertrand Brasil, o escritor Mauro Rosso, que me procurou porque conhecia 'A Crônica de Malemort' e queria submetê-la à Bertrand. Sugeri que ele levasse, em vez disso, o romance inédito, também ambientado na Idade Média. O resto foi uma questão de tempo. E agora eis aí o livro pronto, em caprichado projeto gráfico. Estou vivendo uma experiência que não vivo desde que foi editado o meu romance de estréia, com o selo da Expressão e Cultura, em 1971. Só que agora com uma emoção muito maior.

- E depois d'A Longa História, o que aguarda o leitor?

  
Foto: Divulgação
  
- A informática e a maturidade me tornaram um autor mais ou menos prolífico. Nos últimos dez anos produzi mais páginas de literatura do que nos vinte anos anteriores, em que tive fases de grande inatividade. Inéditos é o que não me falta. Assim como "A crônica de Malemort" gerou o romance em inglês, An Ivy Leaf, este gerou uma tradução de volta ao português, intitulada, é claro, "A Folha de Hera". Embora a história seja a mesma da "Crônica de Malemort", o texto é duas vezes maior, com tratamento mais aprofundado, mais personagens, mais cenas e episódios, e uma linguagem menos obsessivamente arcaizante. Tenho também dois livros de contos borgianos, "Heródoto, IV, 196" e "Chovia em Quase Todas as Páginas", e estou com uma primeira versão pronta de "A Ceia Dominicana", projeto de romance que comecei há vinte anos como seqüência de "As Mãos no Fogo" e que interrompi por absoluta incapacidade de lidar com ele. Isso sem falar no livro de contos "Má Notícia Para o Pai da Criança", publicado em 1995 em forma de encarte do jornal "A Gazeta" e que bem poderia ter uma edição em livro. Sem falar também no que meus amigos João Luiz Mazzi, de Vitória, e Sérgio Karam, de Porto Alegre, consideram minha obra-prima, "Dois Graus a Leste, Três Graus a Oeste", uma espécie de gramática do jazz pelo método confuso, que relata as aventuras do irascível Garibaldi Magalhães, tiete de jazz, e que só teve publicação virtual. Haja editora para tudo isso e o que mais, se Deus quiser, eu ainda vier a produzir, porque as idéias estão aí e o computador e a internet também.

* Erly Vieira Jr. é diretor, escritor e professor. Semanalmente, escreve para a coluna de Artes Visuais do Caderno A de Século Diário.