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Foto: Divulgação
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| Joaquim Ferreira dos Santos
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Quinta passada, Luis Fernando Veríssimo começou assim sua crônica em
A Gazeta: "O que eu admiro na Catherine Zeta-Jones é o hífen. No fundo é inveja, vontade de ter um hífen no nome também". Foi assim mesmo, não era nenhum estratagema que desembocaria em densas reflexões metafísicas. O texto começou e terminou desse jeito, naquele clima de papo de mesa de bar.
Mas aí vem o Veríssimo anterior, de domingo (19): "Falou-se numa ameaça de atentado nuclear em Nova York, na semana passada. A possibilidade de um ataque tão terrível quanto o de 11/9 nunca está longe da imaginação. É um medo constante. E um medo novo, impensável em outras eras, como a da Guerra fria com a União Sviética, em que ao menos se sabia de onde viria o ataque". Esta crônica não escamoteava nada. Foi assim do início ao fim: alarmada, tratando de "assuntos sérios", "da ordem do dia".
Mas o que importa aqui não é o autor, nem o conteúdo. É o meio. Os fragmentos acima são dois bons exemplos do que é (ou pode ser) a Crônica: flexível, descompromissada. Livre, leve e solta. Há pouco, o gênero foi celebrado na antologia
As Cem Melhores Crônicas Brasileiras (Objetiva, 360 págs, R$ 48,90 em média), organizada pelo cronista e colunista de
O Globo Joaquim Ferreira dos Santos.
Entre 1850 aos anos 00, de Machado de Assis a Antônio Prata - respectivamente, o princípio e o fim do livro - estão lá os grandes mestres da nossa crônica: o capixaba (ou cachoeirense...) Rubem Braga, o Machado, João do Rio, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Ivan Lessa, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta, João Ubaldo Ribeiro, José Carlos Oliveira, o próprio Veríssimo, entre outros tantos, além dos novatos Xico Sá, Tutty Vasques, Martha Medeiros, também entre outros tantos.
A característica descontração da Crônica é visível desde o autor de
Dom Casmurro. O que muda apenas é o estilo. A organização do livro ajuda, e muito, a percepção dessas mutações da forma. São oito divisões temporais:
De 1850 a 1920,
De 1920 a 1950,
O anos 1950,
Os anos 1960, e por aí vai, até
Os anos 2000. A rígida pontuação machadiana, ou de José de Alencar, ou de Olavo Bilac, aos poucos são deixadas para trás. Quanto mais leve, melhor.
Não dá para dizer "esta época é melhor que aquela", elas falam por si. Mas vamos dar o nosso pitaco. Inegavelmente, nos perdoem Machado, João do Rio, Lima Barreto!, os anos 50, 60 e 70 formam a santíssima trindade da crônica nossa de cada dia. Embora tenhamos que abrir uma ressalva do tamanho do mundo para a
Aula de Inglês, de Rubem Braga, famosíssima que figura no bloco
De 1920 a 1950.
A década de 50 é uma covardia, por exemplo: vêm Sérgio Porto, Antônio Maria, Rubem, Mario Filho, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino. Só para sentirmos o gostinho, temos o botafoguense acima-de-qualquer-suspeita, Paulo Mendes Campos, contando como foi salvo de uma surra pelo Flamengo. Sim, ele virou a casaca (vá lá, por um breve momento), mas cheio de culpa, o coração em frangalhos. Mas do contrário...
Outra coisa legal é que as crônicas servem como um espelho de seu tempo. No livro, isso é proposital. Antes de cada bloco temporal, Joaquim faz um minúsculo intróito que nos dá um quadro da "sensibilidade geral" da década. Não à toa, temos um profético João do Rio no primeiro bloco:
O Dia de um Homem em 1920 é, digamos, uma crônica de ficção científica que aponta o quão impessoal e maquínico é o mundo moderno. Em geral, as artes do fim do século XIX e início do XX questionam a toda hora a idéia de "progresso". A preocupação de João é moderníssima, portanto.
Seguindo adiante, temos o futebol aparece recorrente nos 50's, a questão social dá a tônica nos 60's; os 70's também aparecem, mas de outro ângulo, vide os exilados Caetano Veloso (bem modernista, aliás. E entediante.) e Chico Buarque escrevendo o que viam lá fora.; nos anos 1980, o sexo, ao invés de nos levar tão-somente à "pequena morte", nos apresenta a "Grande Morte", a outra face da moeda.
Já os 2000, surgem a internet, orkut, e-mail, o eu-vou-estar passando/dizendo/anotando/registrando/enviando das atendentes de telemarketing (Ricardo Freire, ótimo, em
Para Você Estar Passando Adiante) e a preocupação formal de André Sant'Anna em
Pro Beleléu, em que ele põe três frases de no máximo quatro palavras intercaladas por três densos blocões com duas ou três vírgulas. Ponto, só o final. Sem sombra de dúvida, a melhor crônica da época.
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Foto: Divulgação
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Porém, as crônicas têm vida própria. O compromisso dela não desvendar a máquina do mundo. Seu compromisso, com licença do trocadilho, é com o descompromisso: e estar atenta ao corriqueiro, ao cotidiano, ao detalhe. Não dizem que as mais saborosas crônicas de Rubem Braga são aquelas em que ele fala sobre nada, por absoluta falta de assunto? Pois é, crônica é isso, ficar de barriga pra cima olhando pro teto. Ô, vida boa!
Há alguns deslizes da obra que merecem nota. O Zuenir Ventura aparece uma única vez, coitado. Uma injustiça com um texto primoroso daquele. Há ainda o Arnaldo Jabor, com seu conhecido
Amor é Prosa, Sexo é Poesia, uma pieguice bonitinha, mas ordinária.
Agora é sério: por serem os jornais seus lares por excelência - elas aparecem primeiro ali e só depois, se tiverem sorte, vão parar nas prateleiras das livrarias - as crônicas são o refúgio ideal contra o insosso pragmatismo de um certo jornalismo feito hoje (lembram as regras do lide?). De novo, a palavra da autoridade: Fernando Sabino, em
A Última Crônica: "Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um". E aí, crônica é ou não é ficar de barriga pra cima olhando pro teto? Vai me dizer que não?
Henrique Alves é o pedante editor do Caderno A.
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