Vitória (ES), edição de fim de semana
 
‘Só quem pode derrotar o PT é o próprio PT’
Em busca da autonomia perdida





José Rabelo


("Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade". Raul Seixas).

A uma semana do segundo turno da eleição que vai definir a presidência do Partido dos Trabalhadores (PT) no Espírito Santo, um acordo firmado na última quarta-feira (5) entre o candidato que liderou a votação (44,88%) no primeiro turno, Carlos Casteglione, e o terceiro colocado, Tarciso Vargas (26,12%), pode ter diminuído as esperanças do candidato José Otávio Baioco (29%) de derrotar Casteglione na disputa do próximo dia 16. No organograma político do PT capixaba, uma possível vitória do deputado estadual licenciado e secretário do Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social, Carlos Casteglione, sacramentaria a aliança PT-Hartung no Estado para as eleições de 2008 e de quebra deixaria a trilha aberta para a sucessão de 2010.

Baioco, por sua vez, acredita que os militantes do partido que votaram em Tarciso Vargas, do antigo Campo Majoritário, não irão reconhecer o acordo firmado em nível nacional, com aval do prefeito de Vitória, João Coser, para que votem na chapa de Carlos Casteglione. Ele aposta em uma “insubordinação” entre os aliados de Vargas, no sentido de carrear os votos dados a ele para sua chapa. “As bases do partido mostraram que são contra essa subordinação do PT ao governo Hartung, e isso será reafirmado no segundo turno”, prevê Baioco.

Para a ala petista que apóia a chapa “A Esperança é Vermelha”, de Baioco, e aí se inclui a deputada federal Iriny Lopes – uma das lideranças de peso dentro do partido –, a vitória de Casteglione e a manutenção da aliança com Hartung, muito mais que uma opção estratégica “para fortalecer o PT” nas eleições de 2008 – conforme argumentam os seguidores da chapa “Mensagem ao Partido Militante”, de Casteglione – significam um enorme retrocesso ideológico para o partido, que tinha esperança de resgatar sua autonomia e interlocução com uma possível vitória de Baioco, que romperia de imediato o noivado com Hartung.

Para a deputada Iriny Lopes, o mais importante nessa questão é analisar se essa tática adotada pela maioria da direção conduz o PT a um projeto autônomo, que esteja alinhado às suas bandeiras de luta capaz de atender aos anseios do setor social que o partido representa. “O projeto do governo Paulo Hartung é concentrador de renda, aprofunda as desigualdades regionais, não prevê políticas consolidadas para a promoção dos pequenos e médios empresários. O único partido que ainda tem condições de representar esses segmentos é o PT. Agora, se o PT está atrelado a um outro projeto ele deixa de ser protagonista e, conseqüentemente, perde seu papel de interlocutor. A minha questão interna dentro do PT hoje está direcionada no sentido de recuperar essa autonomia, que eu acredito que foi tolhida a partir do momento em que o partido tomou essa decisão de se aproximar do governo Hartung.”

Nesta entrevista exclusiva a Século Diário, Iriny Lopes faz uma análise do atual momento sucessório que o partido atravessa para escolher seu presidente e destaca a importância de o partido reverter essa aliança com o governo Paulo Hartung. "Penso que não há como antecipar o resultado da eleição do dia 16. A candidatura de Baioco já é vitoriosa. O primeiro turno já consagrou a tese vencedora de independência do PT. Acredito que a militância ratificará a candidatura identificada com essa tese. Não acredito que a base se mobilizará na eleição estadual em função do segundo turno nacional. Mesmo porque nossa decisão no Espírito Santo é de neutralidade quanto às candidaturas que disputam o segundo turno da presidência do Diretório Nacional", analisou Iriny.

Século Diário: - No PT, foi a senhora quem abriu a resistência ao governador Paulo Hartung. Como essa questão está sendo tratada hoje dentro do partido?

Foto: Riokan
  
Iriny Lopes: - Isso é bastante delicado. O PT historicamente preza esse princípio da decisão tomada pela direção do partido. Eu não diria que essa é, necessariamente, uma decisão do partido, porque o partido é muito maior e acabou não sendo envolvido nesse processo decisório. Mas, de qualquer maneira, existe uma orientação da direção que não pode ser ignorada, por ela ter sido tomada através de um foro legítimo. Então partimos do pressuposto que a decisão existe e isso é fato. Porém, nenhuma decisão é estática, ela pode ser alterada a qualquer momento. Entretanto, para que isso aconteça é preciso haver debate. Eu tenho, junto com tantos outros companheiros, levantado sistematicamente a necessidade de o PT rediscutir de maneira permanente o seu projeto. Não se trata de uma simples picuinha para se posicionar a favor ou contra. O importante nessa questão é analisar se essa tática adotada pela maioria da direção conduz o PT a um projeto autônomo, que esteja alinhado às suas bandeiras de luta, que atenda aos anseios do setor social que nós, quando fundamos o PT, nos dispusemos a representar. Para fazer isso, o partido precisa ter um projeto de poder que passa não só por relações sociais, mas também por eleições. Para fazer um projeto, o PT tem de ter opinião e também ser um protagonista. Quando eu falo protagonista não estou me referindo a um senhor absoluto, dono da verdade, mas sim a um interlocutor aberto ao diálogo. É nesse ponto que reside a minha diferença com parte do partido. Porque esse projeto que está em curso não representa os setores históricos do PT, pela sua natureza, pelo seu programa, pelo seu projeto, pelos seus compromissos. O projeto do governo Paulo Hartung é concentrador de renda, aprofunda as desigualdades regionais, não prevê políticas consolidadas para a promoção dos pequenos e médios empresários – seja da cidade ou do campo. O único partido que ainda tem condições de representar esses segmentos é o PT. Agora, se o PT está atrelado a um outro projeto ele deixa de ser protagonista e, conseqüentemente, perde seu papel de interlocutor. A minha questão interna dentro do PT hoje está direcionada no sentido de recuperar essa autonomia, que eu acredito que foi tolhida a partir do momento em que o partido tomou essa decisão.

- Quais são as justificativas da ala do partido que defende essa aliança com o governo Paulo Hartung?

- As eleições de 2008 e as nossas administrações são os argumentos que os nossos companheiros apontam para justificar essa decisão. Eu até acho que esses argumentos não estão desprovidos de algum sentido. Nunca propus também que usássemos nossas administrações como mero instrumento de oposição. Mas é preciso lembrar que nós vivemos num processo republicano, onde o voto é igual para todos. Ou seja, o mesmo voto que elege o governo estadual elege também os governos municipais e lhes confere autoridade, autonomia e legitimidade para que dentro do jogo democrático e republicano se movam autonomamente. Mesmo dentro desse sistema eleitoral e partidário confuso em que vivemos, que inclusive precisa ser revisto urgentemente, a legitimidade do voto nas urnas tem de falar mais alto. Não é possível pensar assim: ‘Eu me elejo governador e agora eu tenho autorização das urnas para interferir diretamente nos processos municipais’. É preciso entender que há municípios que comungam com esse projeto de governo e outros não. Estamos falando de partidos, projetos e programas distintos. Esse jogo em que as regras defendidas por parte dos companheiros prevêem, como eu disse, essa aproximação com o governo do Estado com vistas às eleições de 2008 e também para não estimular o recrudescimento na luta política nos municípios administrados pelo PT, não é benéfico nem para o PT e nem para a sociedade. É preciso se referenciar ao voto e no crédito que o eleitor depositou naquele prefeito, naquele programa e naquele conjunto de forças políticas. Do contrário, não é um processo republicano. Não é preciso, obrigatoriamente, ter enfrentamentos. É possível estabelecer relações institucionais profícuas para os municípios para atender às necessidades da população de forma autônoma, não necessariamente se subordinando ou mitigando esse tipo de relação. O que eu busco no PT é um nível de autonomia que eu acho que o partido perdeu e deve recuperar urgentemente.

- O governo Paulo Hartung atua em um campo autoritário, e isso é bastante evidente no Estado, sem que ninguém faça frente a esse projeto hegemônico ditado por ele. O PT, por sua vez, que historicamente sempre foi um partido de luta e contestação frente a essas questões, parece estar adormecido, curvado. Na Assembléia Legislativa, por exemplo, notamos que o PT se mostra incapaz de tentar evitar essa situação vexatória que é vivida pela classe política capixaba.

Foto: Riokan
  
- Concordo. Eu acredito que toda unanimidade é burra, só resta saber quem é que está sendo burro nesta unanimidade, alguns sim outros não. É inegável que esse governo conseguiu corrigir as contas públicas, melhorou a máquina e conseguiu estabilizar as finanças. Esses avanços deram de fato um equilíbrio ao Estado.

- Esses avanços estão acontecendo mais pelo bom momento que o País atravessa ou em virtude de uma gestão satisfatória do governador?

- Eu acho que são as duas coisas. Reconheço que também há acertos. Entretanto, do ponto de vista da política, esse processo proposto pelo governo é perigoso. Esse negócio de opinião única, hegemonismo, ameaça a consolidação democrática. A democracia precisa do afloramento do contraditório, isso é saudável. Agora, quando você tem as instituições perfiladas integralmente, isso passa a ser temeroso. Não há mediação, flexibilização, debate. Isso vale não só para a Assembléia Legislativa, mas também para as instituições de uma forma geral. Essa ausência do contraditório pode comprometer bastante o processo democrático no Espírito Santo.
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