A vale do Rio doce faz uma campanha dizendo que o povo brasileiro foi que mudou seu nome. Que povo? Se o povo escolheu Vale, qual o significado por trás do nome?
Vale, é um documento frágil, sem cor jurídica. Sem dinheiro, no meio do mês, o empregado pede um vale ao patrão. "Chefe, me dá um vale''. Para uma grande empresa, este é um nome pouco sugestivo.
Se o nome Vale refere-se ao local geográfico existente entre duas montanhas e, geralmente, contendo um rio ou riacho, então, a empresa teria que manter o Rio Doce. Agora, se, Vale, do nome adotado, é do verbo valer, então não se justifica, pela poluição que gera. Não vale muito a pena ter a companhia, pela poluição que provoca.
A empresa não se dignou a explicar por que o Rio Doce de seu nome. Usar a propaganda para dizer que o povo é que escolheu, não vale; a maioria das pessoas fala Vale do Rio Doce.
Não vale tirar o nome do rio, não pegou bem. Isso é abandono. Quando o rio era legal, cheio de água e o orgulho de Minas e Espírito Santo, a empresa não pensou nisso. Aliás, criada no governo Vargas, quando os brasileiros amavam o Brasil, a empresa tinha identidade com o povo brasileiro, por isso adotou o nome do rio, que a companhia, agora abandona.
Devido á força do capital, vale a analogia: qualquer pessoa minimamente informada sabe que o capital age assim. Explora o indivíduo até ele não agüentar mais e, depois, o abandona á própria sorte. A companhia Vale do Rio Doce fez a mesma coisa. Explorou o rio e sua gente até não poder mais, esgotando seus recursos, provocando a devastação de suas margens que levou ao seu assoreamento, e agora, que é rica e conhecida no mundo inteiro, abandona o velho para morrer á míngua.
A questão é: por que a tal Vale não usa seus dólares e euros para um grande trabalho de recuperação do rio, que tanto lhe serviu, empestando-lhe até seu nome ao longo de seis décadas? Por que, em vez disso, preferiu apagar de sua história o nome do rio que tanto representa para mineiros e capixabas?
Por que a tal Vale não apresenta um projeto para acabar com a poluição que ela deixa, ao longo de seu caminho, prejudicando a saúde e até levando á morte precoce centenas de capixabas?
Agora, a tal Vale nega suas origens e adota um nome cuja pronúncia nada significa em nenhuma língua, porque o que lhe dava conteúdo foi extirpado. Não vale nada.
Curioso é o comportamento dos políticos. Ninguém fala nada, ninguém reclama. Será que os poucos empregos (poucos, em termos, relativos) e os míseros reais em impostos (nunca é demais lembrar que as exportações são desoneradas de impostos) são suficientes para tamanho escárnio?
O nome não acrescenta nada. Se é vale ou não vale. Ficou sem graça. Ficou sem alma. A campanha é ridícula, porque não explica nada. Diz que disse e nunca encontrei ninguém que tenha sido consultado para saber se deveria mesmo mudar o nome. O certo é que o velho rio, agora, não tem nem lágrimas para chorar, nem defensores para protestar pelo seu nome.
Eu não votei, mas, se for me dada a chance, voto para ficar com o nome do Rio Doce.
* Enivaldo dos Anjos é conselheiro do Tribunal de Contas do Espírito Santo
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