Boteco sempre rende história





Tavares Dias

Faz mais de 20 anos, mas o filme não amarelou na memória.

O botequim era uma beleza. Bem-freqüentado, arrumado, comida boa, cerveja sempre gelada.

Seu Arlindo, o dono, era um português bonachão mas sistemático. Nada de palavrão, música alta, desrespeito com mulher. Pensava que assim garantia a harmonia e a qualidade da clientela.

Mas, aqui convoco o testemunho da amiga leitora e do amigo leitor, não há no mundo nem meia coisa que esteja sob controle da gente. É só ter coragem de avaliar com sinceridade que a conclusão é inevitável. Ninguém pode saber quando um fio de alta tensão vai arrebentar no meio da rua, quando o caminhão desgovernado vai aparecer, quando o mar vai querer de volta o que é dele, quando o avião... bem, você compreende.

Pois lá ia a tarde correndo pacho¬rrentamente, naquele verão à beira-mar, quando Áurea Maria entrou no botequim com mais duas amigas.

E foi aí que o mundo desmoronou. Pelo menos para o Jeremias.

A primeira bandeira do Jeremias, exímio jogador de pif, foi passar batido duas vezes na mesma rodada. A turma toda sentiu.

Poderia aqui descrever detalhadamente Áurea Maria para o leitor - e para a leitora também, por que não? Mesmo depois de tantos anos, lembro o vestido, o cabelo, o olhar, os lábios carmim, o relevo da costa.

Mas não. Não vou fazer isso, que isso aqui não é chat de “relacionamentos”, né? O espaço é familiar e tem criança na sala neste horário.

Mas o que interessa mesmo é o furacão que arrebatou, talvez para sempre, o bom Jeremias. Como dizem os sicilianos, foi “o raio”, a paixão inumana, total.

Um coração burocrata subitamente elevado à categoria de praticante de esporte de risco. E bota risco nisso, porque Áurea Maria, além de inegavelmente bela, tinha fama de mulher fatal.

Rechaçado em suas pretensões mais delirantes, o bom Jeremias perdeu o chão e mergulhou no álcool. Amigos, religião, grupos de apoio, terapia, nada parecia resolver.

Faz anos que me mudei de lá. Nunca mais soubera do botequim nem da boa turma que lá se reunia depois do trabalho, na feijoada de sábado e depois da pelada de domingo.

Só nunca me esqueci dos olhos do Jeremias, antes tão brilhantes e, no final, baços de pasmo e de dor.

Até que dia desses, em clima de final de ano e tocado pelos amenos ventos da solidariedade comum ao período natalino, voltei ao lugar de onde guardo tantas lembranças importante.

Conforme é natural que aconteça, muitas coisas estão diferentes, por lá. Muitos dos velhos amigos se mudaram, alguns morreram. Poucos continuam por lá, mas já não formam turma. O botequim já não existe, agora é um self-service.

Mas, que cosia boa, quem vejo, todo pimpão, passeando com mulher e filhos, todos com cara feliz? Claro, o Jeremias.

E, com perdão desse desfecho de dramalhão mexicano, quem é a mulher do Jeremias, mãe dos filhos do Jeremias?

Claro, cara leitora. Sim, caro leitor: Áurea Maria.

Boas Festas. Feliz 2008.