Muitas vezes o imigrante sofre um choque cultural quando entra em contato com culturas diferentes. Às vezes o passaporte nem é necessário, porque o choque pode ocorrer em sua própria terra. Principalmente num país onde uns são mais “americanos” que os outros.
Quando Wendy se mudou para Miami sofreu esse choque que o confronto com outros estilos de vida provoca. A jovem veio do norte para fazer faculdade, atraída pelo clima ameno, praia o ano inteiro e, quem sabe, aprender espanhol. Afinal, temos que abrir a mente e aceitar outras culturas, mesmo que inferiores.
Mas tudo que leu ou ouviu falar a respeito absolutamente não a preparou para o coquetel de raças, línguas e hábitos com que deparou, mal pôs os pés na cidade. Tudo exótico e colorido demais! Todos falando alguma língua estranha, e o inglês parecia estar fora de moda, ou ter caído em desuso. Falar inglês era indelicadeza ou desrespeito.
Foi um choque tremendo. Na faculdade tinha de tudo – sulamericanos, centroamericanos, cubanos, haitianos, portorriquenhos, costarriquenhos, jamaicanos. E o colorido pessoal “das ilhas”, como se intitulam os que moram nas muitas ilhas do Caribe, países cujos nomes Wendy nunca tinha ouvido falar. Tem de tudo em Miami, menos americano.
O maior espanto para Wendy foi ouvir os negros falando espanhol! Como? Até os negros? Desesperada, no primeiro dia de aula ela vê na sala um espécime raro – uma estudante de olhos azuis e cabelos lisos e louros. A jovem não parecia se entrosar com os demais, obviamente porque não falava espanhol. Conclusão lógica, era americana.
Foi um alívio perceber alguém com quem poderia se comunicar de forma civilizada. No intervalo da aula Wendy se aproxima. “Oi, sou Wendy, a estudante de Wisconsim”. “Oi, sou Maria. Benvinda ao nosso grupo”. Wendy quase tem um ataque de nervos. A esbelta loura de cabelos lisos e olhos azuis fala com sotaque! “Você não é americana?” “Não, sou brasileira”.
“Brasileira? Pensei que os brasileiros eram morenos.” “Tem brasileiro de todo tipo!” replica, sem explicar que o louro do cabelo era Loreal, e o azul dos olhos era lente de contato. Passada a primeira reação, Wendy e Maria acabaram ficando amigas, cada uma aceitando a estrangeirice da outra. Por falta de opção, pois eram as únicas estudantes que não falavam espanhol.
Bem, Maria falava, mas pelo menos sua primeira opção era o inglês. Com sotaque, mas Wendy acabou aceitando a aberração tropical que a globalização criou em seu próprio país - em Miami todo mundo falava inglês com sotaque, até os americanos.
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