Vitória (ES), edição de fim de semana
 
De torneio mecânico a advogado
e médico, ele gosta mesmo é de política

Saúde preventiva e tudo o que o povo quer





Cristina Moura


"A cada dia, você deve decidir o que pode fazer, o que deveria fazer e o que tem a obrigação de fazer."


(Eisenhower )

O nome pomposo e instigador da lembrança de força física talvez tenha rendido a Hércules Silveira a atitude de pensar no seu futuro. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, foi lá mesmo que Hércules foi torneiro mecânico, auxiliar de serviços gerais e motorista da ambulância do Hospital Santa Casa.

Desfrutava do apelido de "Sandu", quando trabalhava no Serviço de Assistência e Urgência. Aos 20 anos de idade, sonhava em ouvir seu nome, "Atenção, Doutor Hércules...", no sistema de comunicação interna do hospital. O sonho se concretizou, ao tempo em que o jovem já havia se formado em Direito e passado por um período como professor de Contabilidade.

Nesta entrevista, Hércules conta também como foi importante sentir a pressão popular para a sua primeira experiência como vereador, em 1970, quando não havia remuneração para a ocupação do posto. Desde então, não parou mais de subir no pódio. Revela-se um tanto pacífico, mas pronto para entender que o país não conta com uma educação partidária: por isso, mudou algumas vezes de legenda. Conta a sua chegada como vereador em Vila Velha, cidade na qual reside e, não podemos deixar de lembrar, onde mais comemora o seus quase 80% de votação para chegar ao Legislativo estadual.

O nome deu sorte? Confira o que ele diz sobre a sua chegada à Assembléia e as propostas na área de Saúde, o seu foco de atuação mais específico. A idéia de Doutor Hércules é argumentar com seus novos colegas de trabalho a necessidade de equipar os municípios com os serviços básicos. Depois, com a alta complexidade. Vamos conferir o que diz, então, o médico petebista (e governista) que ensina alguns procedimentos para "mudar o mundo".

Século Diário: - O senhor já está habituado ao poder, mas, agora, a configuração é outra. Como estão as suas expectativas?

  
Foto de: Ricardo Medeiros
  
Doutor Hércules: - É uma visão maior do Estado. Na verdade, eu comecei o mandato como vereador e agora entro no sétimo mandato, mas como deputado. Isso vem desde a época de estudante. Parei de estudar de 12 aos 20 anos de idade. Aí fui pensando nesse projeto político, mas voltei a trabalhar de torneiro mecânico. E voltei a Cachoeiro e comecei a trabalhar de servente na Santa Casa. Aí, tive que estudar. Só com o primário, o que eu podia almejar na vida? Sem condição. Aí, comecei a fazer o ginásio. Depois, fiz o científico e era difícil estudar porque, naquela ocasião, eu trabalhava como motorista do Sandu (Serviço de Assistência Domiciliar e Urgência), hoje Samu (Serviço de Assistência Ambulatorial e Urgência). Daí, consegui cursar Contabilidade. Cheguei a dar aula de Contabilidade por dois anos. Em seguida, fiz vestibular para Direito. Passei. Meu registro na OAB é 2310. Tenho o direito de advogar. Não posso dizer a você que sou um exímio advogado, mas eu não tenho a prática forense que todo advogado deve ter. Advoguei até mesmo na Câmara de Vila Velha, analisando alguns processos políticos. Se for necessário, em alguns casos, a gente troca o jaleco, coloca paletó e gravata e resolve o problema. (risos) Se for um caso mais complexo, eu chamo um advogado mais experiente. Bem, depois fiz vestibular para Medicina. Passei. Foi em 1973. Morei oito anos em Vitória, onde fiz o curso. Em 1982, mudei para Vila Velha. Sempre gostei de política, de movimento estudantil. Na escola, no ginásio, eu participava de grêmio estudantil, era representante de turma. Em Contabilidade, fui também. Na Faculdade de Direito, também. Na Faculdade de Medicina, fui do diretório acadêmico. Morando em Vila Velha, em 1988, houve muita pressão para ser candidato e acabei sendo eleito.

Mas, antes, precisamos voltar um pouco para eu falar o seguinte: fui vereador em Cachoeiro em 1970. Eu era motorista da ambulância, estudava Direito e dava aula de Contabilidade. Por isso, fui o vereador mais votado. De um total de de 24.222 eleitores, eu tive 1.674 votos. A gente era feliz e não sabia (risos)...

- O Sandu era um modelo parecido com o PSF ? (Plano de Saúde na Família)...

Até melhor um pouco. O PSF é o sistema de saúde mais importante do mundo. Foi criado, inicialmente, na antiga União Soviética, dado o grande número de mortalidade infantil. Daí para a frente, foi feita uma reunião no Canadá e começaram a desenvolver esse trabalho. No Canadá, após 15 anos de implantação, o programa reduziu o número de leitos em 25%. Nunca houve um trabalho com tanto índice de prevenção. O povo é educado para cortar unha, cortar cabelo, tirar bicho de pé. O povo educado não adoece, a não ser aquela doença de comer bobagens, comer gordura, comer sanduíche... (risos) Bebe muito também... (risos) Em 1970, fui o mais votado e tenho orgulho de falar isso porque o segundo mais votado teve 350 votos. O mais importante desse mandato é que eu quis melhorar as condições da população. Não fui ser vereador atrás de salário. Não é que eu seja contra político ter salário, mas desde que seja uma coisa comedida, uma coisa equilibrada. Eu, naturalmente, sou a favor. Sou contra ao aumento de 91% que está acontecendo em Brasília. Isso é um insulto à população e ao povo trabalhador.

- Seu nome surgiu de vários segmentos...

- A classe estudantil, a classe da Saúde... Foi uma corrente muito grande. Tinha colegas motoristas de táxi que diziam: "É o Samdu mesmo... Vai ser o Samdu..." É uma coisa que eu boto no meu currículo com muita alegria. Depois, em Vila Velha, em 1988, acabei voltando para a política. Eu não queria política mais porque minha família não gosta de política: meus filhos não gostam de política, minha esposa não gosta de política. Eu acho que é uma coisa errada. Acho que todo mundo deveria gostar de política. Não deveremos gostar dos políticos corruptos, da corrupção da política. Apesar de que, onde tem ser humano tem corrupção, onde tem homem e tem mulher tem corrupção. A gente tem que se livrar dela. Bom, acabei sendo eleito em Vila Velha, em 1988, como o segundo mais votado. Fui eleito presidente da Câmara no primeiro ano, ou seja, logo em 1989. Depois de eleito, fiquei na secretaria. E, somando com Cachoeiro, estou no meu sexto mandato como vereador.

  
Foto de: Ricardo Medeiros
  
- O médico é associado à política e o senhor não é o único. Dentre os 30 deputados da Casa eleitos, oito são seus colegas da Medicina. O senhor já deve ter sido chamado de "assistencialista" algumas vezes...

Algumas não, muitas vezes! Eu reajo da seguinte forma. Todo mundo que faz alguma coisa é criticado em algum ponto. Eu quero ser criticado por ter feito alguma coisa. Eu prefiro assim, ser criticado por ter feito alguma coisa do que ter sido omisso. Então, estou fazendo a minha parte. Você pensa que vou consertar o mundo? Você acha que não, mas eu tenho certeza que vou. Eu vou consertar o mundo. Basta eu fazer aquilo que eu gosto, aquilo que eu me proponho a fazer. Eu sei que é muito complicado. Muita coisa tem que ser feita, mas eu vou fazer. Então, eu tenho uma obra social hoje, que é minha paixão, que eu vou transformar numa fundação. Há muitos anos, não faço medicina paga. A medicina paga que eu tenho é algum convênio. Unimed, já que sou cooperado. Banco do Brasil, Caixa Econômica e outros tipos de convênio. Há muitos pacientes meus, há muitos anos...
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