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Foto: Divulgação
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| A família disfuncional já não serve para explicar as estranhezas da América
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A seqüência inicial de
Pequena Miss Sunshine tem um propósito muito bem definido. Em pequenos clipes de cada um dos personagens, nos serão apresentadas todas as características e possibilidades de cada um deles, numa descrição restrita e direta, quase sufocante. Então temos a menina gorda e desengonçada que imita a Miss América diante da tevê (síntese da frustração: ela nunca será como a imagem que assiste); vem então seu irmão em voto de silêncio, malhando o corpo para uma prova que eventualmente também se frustrará; mais adiante o pai, paradoxo vivo, um homem que vende a idéia do sucesso em seus seminários de auto-ajuda, mas que nunca conseguiu escapar do fracasso, e sua esposa, figura santificada, mãe devota e irmã atenciosa; ainda há o avô, viciado tardio em heroína, e o tio gay, peso do mal-do-século nos olhos, pulsos cortados, numa cadeira de rodas de um hospital (e uma referência a Proust não faria mal).
Os diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris não levam mais do que 3 minutos para apresentar seus personagens, dizer tudo o que se precisará saber deles ao longo dos outros 100 minutos do filme, e ao mesmo tempo já selar o destino de cada um, criando em torno deles uma redoma de criatividade bastante típica de um certo cinema independente americano da última década, calcado especialmente na experiência que vai de Todd Solondz (
Histórias Proibidas) a Wes Anderson (
Os Excêntricos Tenenbaums), diretores que descobriam a família disfuncional americana como a fronteira final da ridicularização de um modo de vida e comportamento que se mostrou, nos estertores do século passado, completamente falido. Fosse num registro de realismo cru e trágico ou na paródia humorística do fracassado, o que se fazia ali era um ataque interno, as forças desta ilusão americana precisavam ser destruídas por dentro, e assim era necessário que nenhum destes personagens pudesse, em momento algum, conseguir escapar desse julgamento sumário de suas incapacidades e frustrações. Daí a redoma, daí as certezas de um destino já traçado quando mal presenciamos seu nascimento.
Curioso é que
Pequena Miss Sunshine resuma todas as complicações estéticas e morais deste tipo de cinema logo em sua primeira seqüência. Há nessa atitude uma confissão melancólica da incapacidade de escapar desse modelo de representação, como se este fosse o único modo possível de se falar de uma família desajustada, de personagens fracassados, e nada pudesse ser feito em contrário. Desse modo, Dayton e Faris acabam se localizando num ponto diferente deste cinema que os precedeu, porque já não existe nenhuma fantasia de que se possa estar realmente dentro desta estrutura histórica e social (a farsa way-of-life americano), e que um filme feito a partir dali possa ser chamado de "exame fiel e minucioso" de uma população, de um tipo de vida.
Assim,
Pequena Miss Sunshine não perderá nenhuma oportunidade de ser superficial, de apenas esbarrar nos assuntos sem nunca, de fato, se confrontar com eles, de sempre escapar da gravidade das situações apelando para o humor. Vale imitar a trilha sonora de um faroeste quando o pai monta numa lambreta e vai atrás do patrão que o levou à falência, vale recorrer inúmeras vezes à piada sobre Marcel Proust, até no fim que ela vire um ensinamento de revista feminina ("aprende-se mais no sofrimento do que na alegria"), vale sintetizar todas as emoções do filme em chavões simplistas do tipo "não importa o que aconteça, nós somos uma família" ou "a vida é um concurso de beleza atrás do outro".
E do mesmo modo, apresentará um horizonte insuspeito até então, que o diferencia das experiências anteriores. Porque nenhuma esquisitice podada desses seis personagens centrais pode se comparar ao show de horrores que encontram no destino desta viagem pelo país, o tal concurso da Pequena Miss Sunshine, desfile de crianças plastificadas e pais anestesiados, espécie de açougue das personalidades expostas. Dayton e Faris sabem que a linha se expandiu bastante desde a ascensão da
red-neck América, o interior republicano conservador e cristão cego materializado na figura de George W. Bush, e que por mais que se insista nesse padrão de família disfuncional, já não é ela que dá conta da estranheza existente no coração do país.
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Foto: Divulgação
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| Personagens frustrados e frustrantes
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Lado a lado ao longo da tela larga uma dúzia de mini-modelos, todas sorridentes, posando como misses, um pé à frente, mãos na cintura, e no fim nossa gordinha Olive, sem saber como se colocar, destoando de toda correção aparente das outras meninas, e ali finalmente
Pequena Miss Sunshine mostra a que veio. O desajuste é usado como arma contra a caretice absoluta, e já não bastam os dramas tragicômicos ou a inteligência dos diálogos bem sacados. A dança final, espécie de catarse coletiva (para personagens e espectadores), é um último grito de liberdade contra essa nova estrutura opressiva, mas talvez não seja correto aplicar o termo "liberdade" aqui. O número de strip-tease que Olive inicia, e que é depois acompanhado por toda a família, teve sua origem lá naquele personagem que parecia, desde o começo, conter alguma possibilidade de escape do padrão indie americano a que
Pequena Miss Sunshine é tão submisso.
Coube sempre ao avô - interpretado pelo gênio Alan Arkin - a revolta contra todas as amarras impostas pelos diretores, desde aquela primeira seqüência. Dentro da kombi amarela, o avô ia da postura agressiva de quem recomenda orgias ao neto de 15 anos ao carinho de abraçar o filho quando este soubera que seus negócios haviam naufragado e que a família já não tinha mais dinheiro. Foi ele também o responsável pela coreografia sacana da netinha, que agora vira um momento de redenção quase épico. Mas, como se podia imaginar de um filme sempre tímido em suas proposições, sempre acovardado entre a postura de repetidor de fórmulas e a de verdadeiro investigador de um novo sintoma nacional, Jonathan Dayton e Valerie Faris vivem apenas dos espólios deste avô, porque são fracos demais para suportar uma presença tão forte no interior de seu filme. Que se mate então o personagem de Alan Arkin - e que morra junto qualquer chance de
Pequena Miss Sunshine existir para além da condição de ser um filme tão frustrado (e frustrante) quanto aqueles a quem pretendia retratar.
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