Vitória (ES), edição de 31 de janeiro de 2007    
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Etc.
ou
A literatura como desestruturadora da vida



Carlos Calenti
[Especial para o Século Diário]
Apoio cultural Livraria Huapaya

Uma das coisas que mais me fascinam na literatura é a quantidade de tapas que eu recebo constantemente dos livros que leio. Se no começo, talvez por culpa das aulas de literatura da escola (parece mesmo que o objetivo máximo da escola é tirar todo o prazer das coisas, até transformá-las em tédio, poeira, calor, um ventilador enferrujado rodando lentamente no teto e o zumbido da voz dos professores a la desenho do Charlie Brown), ela parecia algo cristalizado, cheio de palavras pomposas e inextricáveis, com uma forma de escrever mais ou menos definida por Assizes e Alencares, com o tempo ela vai te mostrando que, por mais que gostemos dessa literatura aí, existe todo um mundo novo a ser desbravado. São Fantes e Bukowskis e Dodges, ou gente mais nova, como o colombiano Efraim Medina Reyes ou o inglês Will Self, que vão abrindo caminhos a faca, e mostram que podem criar universos com outras palavras, outros léxicos e outras formas de (des)estruturar o real.

É essa constante desconstrução e reconstrução do que é ler e escrever, e, no fim das contas, do que é estar no mundo, que mais me impulsiona a descobrir os caminhos tortuosos do significado (pelo menos pra mim) da literatura. Um dos golpes mais recentes que recebi veio do livro Café-da-manhã dos campeões, do escritor americano Kurt Vonnegut, lançado recentemente em edição de bolso pela L&PM.

O enredo do livro seria o encontro entre um escritor de ficção científica, Kilgore Trout, e um rico vendedor de carros, Dwayne Hoover. Mas, no fim das contas, esse encontro é só o clímax do livro, que passa a maior parte do tempo acompanhando a trajetória de Kilgore de Nova Iorque até o meio-oeste americano (onde mora Dwayne) e a trajetória do vendedor de um estado de loucura até a insanidade completa - deflagrada devido exatamente ao tal encontro.

Ambos os percursos servem pro autor comentar o país em que vive; criticar sua política, sua cultura (não é à toa que o título do livro é o antigo slogan de uma marca de cereal), o racismo sobre o qual a nação se alicerçou para crescer, e outros assuntos. E também para, baseado numa ética pessoal explicitada no livro, dar atenção especial a cada personagem que passa pelo caminho dos protagonistas. Isso porque, para Kurt, se para o governo as pessoas são tratados apenas como uma série de números descartáveis, em seus livros todas elas têm a mesma importância. Em suas próprias palavras: "nada seria deixado de fora. Deixaria os outros trazerem ordem ao caos. Eu, em vez disso, traria caos à ordem, o que acho que acabei fazendo".

Numa parte genial do livro, em que o autor se insere na trama para assistir, por trás de seus óculos escuros, o desfecho da história que ele mesmo criou, no restaurante de um Holiday Inn, ocorre, finalmente, o encontro já anunciado desde o começo do livro. Louco por uma resposta, Dwayne lê um dos livros de Kilgore (que só os publicou em revistas pornográficas, entre fotos explícitas de "castores escancarados" (um comentário de Kurt sobre a importância dada à literatura hoje?)), e entra em colapso total. O romance seria escrito no formato de uma longa carta de Deus à única pessoa com livre arbítrio do universo. Hoover, ao ler, acredita ser essa pessoa, e também que todo o resto da população mundial é composta de robôs sem consciência, que servem apenas para testá-lo.

Ao escrever essa história, Vonnegut fala da própria literatura como desestruturadora de conceitos, formas cristalizadas (sãs?) de encarar e lidar com o mundo. Mesmo que isso cause a insanidade total. Aliás, ele escreve que, depois desse episódio, Kilgore fica obcecado com os efeitos que idéias podem provocar nas pessoas, sejam eles bons ou ruins.

Num artigo recente, publicado no Guardian e que descobri através do blog do Daniel Galera, a escritora Zadie Smith fala que uma das maiores qualidades da ficção é exatamente nos fazer vivenciar o mundo através de uma consciência que não a nossa. Ela diz: "Grandes estilos representam a interface do 'mundo' e 'eu', e o fato dessa interface ser diferente em forma e qualidade da sua própria é onde reside o poder da ficção. Escritores falham quando essa interface é feita sob medida para as nossas necessidades, quando tendem para as generalidades dos nossos dias, quando nos oferecem um mundo que aceitaremos porque já o vimos na televisão" (tradução minha).

A boa literatura, ao contrário, revoluciona nosso modo de pensar. Traz caos à nossa ordem. E nesses quesitos, Vonnegut e o seu "Café-da-manhã dos campeões" são grandes!

PS: o livro também é cheio de desenhos, todos feitos pelo próprio autor.

PS 2: Kurt acredita que, como a vida não pára, o final de todas as histórias deveria ser esse:

ETC.

[A coluna de Erly Vieira Jr. volta a ser publicada na próxima quarta-feira (07)]

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