Vitória (ES), edição de 31 de janeiro de 2007    
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Curadoria como programação do mais alto nível




Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas



A programação de sistemas informáticos pode ser feita de tantas maneiras quantas são as linguagens disponíveis. Obviamente, há ferramentas mais apropriadas para cada caso. Alguns códigos, dedicados, favorecem a criação de algoritmos complexos, embora pequem pela falta de versatilidade. Já outros possuem uma gama de aplicações mais ampla e irrestrita, mas só funcionam mediante a coordenação minuciosa de fatores.

Para classificar essas diferentes linguagens de programação, é utilizado um nivelamento que nada tem a ver com a sua eficácia. Os níveis em questão discriminam o grau de abstração e estruturamento de cada código.

Linguagens de nível mais baixo estão mais próximas da ordenação pura do fluxo eletrônico que corre dentro de um computador. Possuem uma tal materialidade que, em situações extremas, chegam a se confundir com o suporte em que estão inscritas. É o caso do ASCII perfurado em fita, por exemplo.

Por outro lado, quanto maior o seu nível, mais distante uma linguagem se encontra do mecanismo informático essencial. As mais desenvolvidas operam por meio de funções e objetos muito bem definidos, que pouco lembram a glossolalia binária da máquina. Na verdade, parecem pretender à imitação do inglês.

Por isso, de certa forma, linguagens de nível mais alto facilitam a operação da máquina. Com poucos comandos, é possível programar as tarefas mais complicadas. Mas, junto com essa destreza, surge a intransigência. As mesmas estruturas que tornam uma linguagem mais adequada à determinada função restringem sua aplicação em outras.

Na medida em que a própria cultura se deixa contaminar por tecnologias numéricas e se transforma em um sistema informático, os diversos níveis de programação se reúnem aos de produção simbólica em uma cadeia epistemológica comum.

Hoje em dia, tanto criação artística quanto produção cultural dependem da articulação ordenada de bancos de dados. Assim, da mesma forma que um aplicativo é construído pelo agrupamento de funções, variáveis e objetos, a composição musical pode se dar como mera conjunção de samples, por exemplo. Cada sistema serve como banco de dados para aquele que vem logo a seguir, da mesma forma que um ambiente de programação constitui a base para o de nível imediatamente superior.

Nesse sentido, o nivelamento de linguagens segundo o seu grau de abstração pode servir como um paradigma fractal, que nos permita inter-relacionar os diversos tipos de criação em mídia digital segundo suas especificidades.

Para tanto, em primeiro lugar, precisamos repensar os limites dessa gradação. Embora o patamar mais baixo continue sendo ocupado pelo mecanismo informático essencial, o mais alto ganha relevo, e se estende para além da língua humana, em direção ao fluxo cultural que a circunscreve.

Quase no limiar desse espectro, encontramos os processos curatoriais, que sempre operaram por seleção e composição, mas numa razão tão exígua que mal nos permitia considerá-los operação criativa, senão uma simples filtragem.

A curadoria é uma forma de ordenar coleções para atingir determinado efeito de sentido. Poderíamos dizer: organizar produtos culturais e obras de arte em sistemas simbólicos ainda mais complexos. Um processo que se encaixa de maneira muito natural na hierarquia expandida de linguagens de programação que propomos.

Hoje, quando dizemos programar um cinema, estamos cada vez menos longe da verdade. Por outro lado, os software developers precisam cada vez mais prever níveis simbólicos altíssimos ao realizar seu trabalho. Por exemplo, não existe um processo de curadoria tradicional na criação de uma distribuição de Linux - um esforço de equilibrar o conjunto de aplicativos e a economia do sistema?

E-mails para o colunista: gabriel.menotti@gmail.com

 

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