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Foto: Divulgação
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| Ed Harris vive Beethoven, no filme em cartaz no Cine Metrópolis
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Um sentimento de antecipação guia toda a experiência de
O Segredo de Beethoven. É por isso que a história sente a necessidade de começar pelo fim, de se abrir com um prólogo onde vemos o compositor dar seu último suspiro, não sem antes receber a visita de uma bela jovem (que logo saberemos ser sua assistente), para que então voltemos no tempo, até o momento em que Beethoven a conhece, Anna Holtz, a melhor copista de Viena, um ano antes. Numa de suas primeiras tarefas, Anna irá corrigir um erro do mestre, que naquele momento escrevia os últimos trechos da Nona Sinfonia, se antecipando à sua própria genialidade para indicar o caminho pelo qual ele fatalmente seguiria, uma vez revista a partitura. Do mesmo modo, é se antecipando à própria criação que a diretora Agnieszka Holland acompanhará todos esses primeiros contatos entre o compositor e sua pupila executando justamente a Nona como trilha sonora, quando ainda ela nem estava pronta.
Mais do que artifícios narrativos simples, essas três operações mostram que a própria idéia de revelar algo sobre a personalidade de Beethoven (como o "segredo" que o título em português quer sugerir) acaba perdendo o passo diante de tudo o que já se soube ao longo dos tempos, de toda carga biográfica acumulada à genialidade musical, que talvez diga muito pouco sobre quem foi realmente esta figura, e por isso estamos sempre nos antecipando a qualquer informação supostamente nova.
A beleza e a maior fraqueza de
O Segredo de Beethoven estão exatamente aí: sempre que a tarefa de chegar à "verdade" de seu personagem for levada a sério, sempre que se acreditar que existe uma verdade ao alcance do filme, esperando apenas para ser descoberta, não teremos mais do que um repertório de psicologismos de segunda ordem. E, ao contrário, toda vez que se reconheça a fraqueza em se aproximar de tamanha personalidade, e que mais do que entendê-la profundamente se queira tão somente estar ao lado dela, para que eventualmente respinguem sobre si algumas gotas dessa força artística fenomenal (um pouco como os vizinhos de baixo do músico, que sempre recebem na cabeça os restos da água que ele joga no corpo e que escorrem pelos vãos do assoalho), ali talvez O Segredo de Beethoven consiga sobreviver para além do deslumbre e da derrota que toda empreitada reveladora dessa natureza está fadada a sofrer.
Porque também no plano estritamente dramático estamos lidando com antecipações, e diante de um filme que acompanhe o nascimento da Nona Sinfonia só podemos esperar que nos arrepie quando, pela primeira vez, virmos Beethoven regendo, já quase completamente surdo, uma orquestra imensa, e, ainda mais, quando pela primeira vez entrarem em ação as vozes exultantes do coral que fecha a peça musical, as mais marcantes da História.
Agnieszka Holland, até esse momento, tinha filmado exatamente como Beethoven supunha que sua assistente enxergava a música: um desejo por estruturas, por começos e fins, por ordenação, por previsões e não por visões. Era isso que levara Anna Holtz a compor uma pequena sinfonia tão precisa em sua construção e ao mesmo tempo tão fria e sem vida, e do mesmo modo, era o que levara a diretora a trabalhar sempre com conceitos muito mais do que com sensações, e são inúmeros os diálogos-chavão, onde se fala sobre a alma e sobre Deus sem que se chegue, de fato, a encenar a transcendência ou a divindade daquele personagem (e cinema é isso, materializar em imagem a palavra escrita num roteiro, e não apenas botá-la na boca de um ator - e não faz muita diferença que esse ator seja alguém da grandeza de Ed Harris, ainda assim será preciso mais que isso).
Faltava, a Anna e a Agnieszka, aprender a fazer arte com as entranhas, como o próprio Beethoven disse ter aprendido com o passar do tempo. Naquele ponto, com menos de um ano de vida pela frente, o músico descobre a necessidade da feiúra, do descompasso, do mau-jeito, da dissonância, que reaparecem como possibilidades de ver beleza por um caminho diferente dos tomados por ele até então. Esse Beethoven da
Grosse Fugue, uma das peças mais impressionantes de sua obra, que seria influência direta para uma série de compositores modernos por sua total rebeldia com as formas tradicionais de andamento e execução, é o Beethoven que veremos, por alguns poucos segundos, na regência de sua sinfonia final. Com a câmera jogada no meio da orquestra, sem qualquer ponto de apoio, e por isso mesmo, totalmente vulnerável às vibrações dos instrumentos e do maestro que os conduz,
O Segredo de Beethoven se permite contaminar dessa sujeira positiva, e ali se torna, pela única vez, tão visceral quanto o gênio que pretende retratar.
Dividindo a atenção entre os rostos de vários dos personagens envolvidos na apresentação, mas também mergulhando em momentos de abstração pura, com imagens sem foco claro, cortes bruscos, enquadramentos pouco ortodoxos, Agnieszka Holland dá uma pequena mostra do que seu filme poderia ter sido se o pudor com a figura de Beethoven tivesse sido quebrado, e se ao invés de apenas circundar sua excentricidade e seu talento como uma curiosidade simples, tivesse de fato tomado partido de sua loucura, trabalhado com ela. Fica a confirmação de que, não importa o quanto queiramos nos antecipar à genialidade pura e verdadeira, ela estará sempre uma légua à nossa frente.
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