Vitória (ES), edição de 31 de janeiro de 2007    
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Sua mãe já viu um curta?



Henrique Alves


  
Foto: Divulgação
  

Se você não vive no Rio e gosta de cinema, abrace seu travesseiro e chore. Vem da cidade maravilhosa o projeto Curtas na Prateleira, capitaneado por Cavi Borges, proprietário da Cavídeo, locadora de filmes muito badalada por lá. "Sua mãe já viu um curta? A minha nunca tinha", conta Cavi.

Graças ao projeto, agora muita gente sabe o que é um curta-metragem: sua finalidade é a distribuição alternativa e gratuita de curtas. Locadoras, cineclubes, faculdades, pontos de cultura, bibliotecas, entre outras instituições, podem se cadastrar no programa e se tornar um ponto de distribuição. Desde que com custo zero para o público final.

O Curtas na Prateleira existe há quatro anos e nasceu de problemas que há muito atormentam os realizadores brasileiros: a falta de espaço para exibição e a precariedade da distribuição. "Os curtas não têm circuito. Eles não passam nos cinemas. Aqui no Rio, por exemplo, existem 50 cineclubes exibindo curtas, mas em sua maioria são freqüentados pelos próprios realizadores", coloca.

Uma coisa leva à outra: com o produto na mão, mas sem já ter para onde mandar, o realizador cedia a obra para Cavi. "Eles não tinham mais onde passar e então me cediam o curta", lembra. Aí, então, Cavi aliou sua perspicácia empreendedora a um altruísmo audiovisual. Queria investir na diferenciação de sua locadora em termos de diversidade de oferta; e como ele também é um realizador, sentia na pele a falta de locais para exibição e os problemas de distribuição.

Economista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente estudando Cinema na Estácio de Sá, Carlos Vinícius Borges (ou Cavi...) montou a Cavídeo há 10 anos. Ela é conhecidíssima no Rio de Janeiro por manter um farto acervo que privilegia tão-somente o chamado cinema não-comercial, ou de arte, ou cult: desde os cânones até produções japonesas, iranianas, documentários, raridades, entre outros "cinemas". A locadora está localizada na Rua Voluntários da Pátria, 446, Humaitá.

De grão em grão o Curtas na Prateleira foi enchendo seu papo: na primeira edição do projeto, foram 10 VHS's com cinco ou seis curtas cada; dois anos depois, já na era do DVD, eram 15 armazenando mais ou menos 150 curtas; hoje, na terceira edição, já são 50 DVD's, que somam com 350 filmes. São muitos documentários, ficções, videoarte, animações.

"Nós temos atualmente pontos de distribuição cadastrados na Paraíba, no Rio Grande do Sul, em Goiás, em Pernambuco. Ontem mesmo (segunda, 29), eu enviei um pacote para Nova Iorque. Inclusive já mandei também para favelas aqui no Rio", conta. O custo para se tornar um ponto de distribuição é apenas o de cobrir os gastos da mídia DVD, capa, box, label, copiagem, num total de R$ 6 por DVD, mais o frete. Só pode ser adquirido o pacote integral.

No final do ano passado, o Curtas na Prateleira rendeu até uma matéria na Revista de Domingo, do jornal O Globo. "Imagine: um milhão de pessoas lendo a aquilo?! Depois da matéria, eu recebi uns 90 pedidos de abertura de pontos de distribuição"; alegra-se. Hoje os pontos chegam a 30 em todo o país.

Os curtas continuam chegando: agora são 76 DVD's. "Até o final deste ano quero formar um pacote com mais 50 DVD's", planeja. Cavi avisa: "Os realizadores capixabas que quiserem nos mandar suas obras, podem mandar. E também estamos abertos às locadoras que quiserem se cadastrar".

Aqui o projeto é interessante: mesmo nas locadoras o empréstimo teria que ser gratuito. Na Cavídeo, por exemplo, o curta sai sempre de graça, sob qualquer condição. Quando o cliente aluga apenas o DVD de curtas, o produto deve ser entregue no dia seguinte.

Cavi ainda fomenta esperanças de que o projeto cresça e apareça ainda mais. Para tanto, o inscreveu no Programa Petrobrás Cultural, que anuncia os contemplados somente em junho. No entanto, seus olhos também brilham com uma outra possibilidade, esta de se encher de orgulho.

Ainda neste janeiro, Cavi nos fala que recebeu a visita de membros da Fundação Nacional das Artes (Funarte), que sinalizaram a formação de uma espécie de parceria entre o órgão e o projeto. "A Funarte tem em seu acervo curtas de grandes realizadores como o Leon Hirszman e o Julio Bressane. Mas como é um órgão público, ela não pode dispor dessas obras de qualquer maneira.", diz Cavi. O Curtas na Prateleira se responsabilizaria, então, por disponibilizar essas obras, evitando que elas fiquem paradas e subutilizadas num quarto escuro qualquer. "Seria muito legal!", vibra Cavi, com toda a razão.

Saiba mais!
Clique aqui e visite o site da Cavídeo

 

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